O DIA EM QUE LARANJA MECÂNICA VIROU AMARGO PESADELO

O CONVIDADO DE HOJE DO CINEMARCO É O CINÉFILO FLÁVIO BALESTRERI

Separada de Santana do Livramento por apenas uma avenida, a cidade uruguaia de Rivera, mesmo antes dos seus free shops, sempre atraiu os turistas do lado brasileiro, interessados nos seus produtos de lã de excelente qualidade e com preços acessíveis. Assim como pela gastronomia uruguaia, onde se destacam a famosa parrillada, as boas cervejas e os gostosos doces produzidos em suas confeitarias.

Mas, outra atração que a cidade Uruguai oferecia aos fronteiriços eram os seus cinemas. Distante 500 km da capital Montevidéo, Rivera é capital do Departamento de mesmo nome. Pela sua importância e localização, os filmes costumavam estrear por muitas vezes bem antes de chegar aos cinemas de Porto Alegre. Assim ocorria, por exemplo, com os filmes do agente 007, James Bond. Além disso, até o início dos anos 70, enquanto o Brasil vivia um período de censura política e cultural, em que filmes eram proibidos ou exibidos com cortes, os cinéfilos brasileiros aproveitavam para ver os filmes exibidos na íntegra em Rivera. E vinham caravanas das cidades próximas.

Entre os filmes que me lembro de ter visto por lá e que estavam na mira da censura brasileira foram Z, de Costa-Gavras, SEM DESTINO, de Dennis Hopper, SACCO E VANZETTI, de Giuliano Montaldo, e SOPRO NO CORAÇÃO, de Louis Malle.

Mas um dos grandes acontecimentos, que agitou os cinéfilos da fronteira e arredores, foi a anunciada estreia de LARANJA MECÂNICA, o clássico filme de Stanley Kubrick, então proibidíssimo no Brasil, numa noite de 1972.

O filme seria exibido no Cine Gran Rex, com capacidade para 1.100 espectadores. Naquele dia, a bilheteria do cinema abriu mais cedo e a fila para comprar o ingresso era grande. Chegavam caravanas das cidades de Bagé, Rosário do Sul, Dom Pedrito, Quaraí, atraídos por toda a polêmica envolvendo o filme. E o fato de estar proibido no Brasil era um atrativo a mais.

Naquela época, o filme chegava a Rivera via transporte ferroviário, e, se o trem não atrasasse, dava tempo de o funcionário do cinema ir buscar a película, que vinha em diversos rolos de 35 mm, e prepará-la para a projeção que era realizada utilizando dois projetores que se alternavam a cada rolo.

O funcionário chegou com o material e levou para a sala de projeção. Nesse momento o saguão do cinema já estava praticamente lotado, com todos aguardando a hora de entrar e se acomodar na poltrona.

Foi aí que chegou a notícia que ninguém esperava ouvir justo naquele momento: o filme que tinha chegado não era LARANJA MECÂNICA. Sem conseguir entender o que havia ocorrido, o público ouviu um constrangido funcionário do cinema explicar que havia acontecido um engano e o filme que veio foi AMARGO PESADELO, de John Boorman. Estrelado por Jon Voight, Burt Reynolds e Ned Beatty, tratava-se igualmente de um belo filme. E que na época também teve problemas com a censura brasileira.

Por fim, aos espectadores decepcionados restou escolher uma das opções: pegar o seu dinheiro de volta e retornar na semana seguinte, quando LARANJA MECÂNICA certamente seria exibido, ou ficar e assistir AMARGO PESADELO.

TODAY’S GUEST FROM CINEMARK IS FILM BUFF FLÁVIO BALESTRERI

Separated from Santana do Livramento by just one avenue, the Uruguayan city of Rivera, even before its duty-free shops, has always attracted tourists from the Brazilian side, interested in its wool products of excellent quality and at affordable prices. As well as the Uruguayan gastronomy, where the famous parrillada, good beers and delicious sweets produced in its confectioneries stand out.

But, another attraction that the Uruguayan city offered to the border people was its cinemas. Distant 500 km from the capital Montevideo, Rivera is the capital of the Department of the same name. Due to their importance and location, films used to premiere many times before reaching theaters in Porto Alegre. This was the case, for example, with the films of Agent 007, James Bond. Furthermore, until the early 1970s, while Brazil was experiencing a period of political and cultural censorship, in which films were banned or shown with cuts, Brazilian film buffs took the opportunity to see the films shown in full in Rivera. And caravans came from nearby cities.

Among the films I remember seeing there that were in the sights of Brazilian censorship were Z, by Costa-Gavras, EASY RIDER, by Dennis Hopper, SACCO AND VANZETTI, by Giuliano Montaldo, and LE SOUFFLE AU COEUR, by Louis Malle .

But one of the great events, which stirred the moviegoers of the border and surroundings, was the announced premiere of CLOCKWORK ORANGE, the classic film by Stanley Kubrick, then extremely prohibited in Brazil, on a night in 1972.

The film would be shown at the Cine Gran Rex, with a capacity for 1,100 spectators. That day, the cinema ticket office opened earlier and the queue to buy the ticket was long. Caravans arrived from the cities of Bagé, Rosário do Sul, Dom Pedrito, Quaraí, attracted by all the controversy surrounding the film. And the fact that it was banned in Brazil was an additional attraction.

At that time, the film arrived in Rivera via rail, and, if the train was delayed; there was little time for the cinema employee to pick up the film, which came in several 35 mm rolls, and prepare it for the projection that was performed using two projectors that alternated with each roll.

The employee arrived with the material and took it to the screening room. At that moment, the cinema lobby was practically full, with everyone waiting for the time to enter and set in the chair.

That was when the news arrived that nobody expected to hear at that moment: the film that had arrived was not CLOCKWORK ORANGE. Without being able to understand what had happened, the audience heard an embarrassed cinema employee explain that a mistake had happened and the film that came was DELIVERANCE, by John Boorman. Starring Jon Voight, Burt Reynolds and Ned Beatty, it was also a beautiful film. And that at the time also had problems with Brazilian censorship.

Finally, disappointed spectators had to choose one of the options: take their money back and return the following week, when CLOCKWORK ORANGE would certainly be shown, or stay and watch DELIVERANCE.

4 Replies to “O DIA EM QUE LARANJA MECÂNICA VIROU AMARGO PESADELO”

  1. Muito legal resgatar esta história do tempo em que assistir a um filme era uma aventura. Uma realidade tão distante dos tempos atuais, em que o dilema maior é escolher qual filme para ver no meio de tanta oferta.

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