A NOITE DO FOGO – O OLHAR FEMININO NO ATUAL CINEMA MEXICANO

O CONVIDADO DE HOJE DO CINEMARCO É MEU AMIGO E CINÉFILO FLÁVIO BALESTRERI.

Sou de uma geração que conseguiu assistir, ainda nas salas de cinema, alguns filmes reprisados da fase do cinema mexicano conhecida como “Cine de Oro”, entre as décadas de 1930 e 1950, considerada a época em que o México produziu seus melhores filmes. Eram filmes em preto e branco estrelados por Cantinflas, Germán Valdés (Tin Tan), Pedro Armendáriz, María Félix e Dolores Del Rio, alguns dos seus astros mais populares.

Nos últimos anos, o cinema mexicano voltou a se destacar com sua geração de diretores, como Alfonso Cuarón, Alejandro González Iñárritu, Guillermo del Toro, acostumados a ter filmes recebendo prêmios importantes, inclusive Oscar. 

Agora, outra diretora, Tatiana Huezo, nascida em El Salvador, mas vivendo no México desde os quatro anos de idade, começa a aparecer internacionalmente por seus curtas-metragens e documentários premiados, como El lugar más pequeño (2011) e Tempestade (2016).

A NOITE DO FOGO (2021), disponível no Netflix, é o primeiro longa-metragem de ficção da diretora e que, mesmo sedo uma produção de diversos países, entre eles o Brasil, foi indicado como representante do México no Oscar 2022, mas acabou ficando de fora da lista final. Ela se baseou no livro Reze pelas mulheres roubadas, de Jennifer Clement, para contar o drama de três amigas, Ana, Paula e María, vivendo num vilarejo entre as montanhas do México, entre exploração de pedreiras, colheitas de resinas nas plantações de papoulas para fazer o ópio e o desaparecimento de meninas, até mesmo de famílias inteiras.

Acompanhando Ana (Ana Cristina Ordóñez González, como criança, e Marya Membreño, na fase adolescente) e as outras duas amigas, percebemos a tensão em que vivem todos. Há um clima constante de terror iminente com os desmandos dos cartéis, que atemorizam até mesmo o exército, incapaz de minar o poder desses homens que causam pânico quando chegam com seus carrões, atirando e invadindo casas para raptar meninas.

A cena de abertura impressiona, com uma mulher cavando com as mãos um buraco para esconder uma menina. Mais tarde ficamos sabemos que a dupla é mãe e filha. As mães obrigam suas filhas, para tristeza delas, a cortar e manter seus cabelos curtos como de um menino. E bate o desespero quando ocorre a primeira menstruação. Dá tristeza pensar que meninas precisem viver desse jeito para não serem iscas de traficantes. É difícil ser filha. E mais difícil ainda ser mãe.

A NOITE DO FOGO invoca a resistência das crianças, do seu olhar mágico e honesto perante uma realidade violenta. O filme de Tatiana Huezo não é um filme comercial, mas fala do nosso tempo atual, e como ele repercute nas profundezas do nosso ser, partindo do ponto de vista particular de três meninas no caminho da adolescência.

TODAY’S GUEST OF CINEMARCO IS MY FRIEND AND CINEPHILE FLÁVIO BALESTRERI.

I belong to a generation that managed to watch, even in movie theaters, some reprised films from the phase of Mexican cinema known as “Cine de Oro”, between the 1930s and 1950s, considered the time when Mexico produced its best movies. They were black and white films starring Cantinflas, Germán Valdés (Tin Tan), Pedro Armendáriz, María Félix and Dolores Del Rio, some of its most popular stars.

In recent years, Mexican cinema has come back to prominence with its generation of directors, such as Alfonso Cuarón, Alejandro González Iñárritu, Guillermo del Toro, used to having films receiving important awards, including the Oscars. 

Now, another director, Tatiana Huezo, born in El Salvador but living in Mexico since she was four years old, begins to appear internationally for her award-winning short films and documentaries, such as El Lugar Más Pequeño (2011). ) and Storm (2016).

PRAYERS FOR THE STOLEN (2021), available on Netflix, is the director’s first feature film and which, despite being produced in several countries, including Brazil, was nominated as Mexico’s representative at the 2022 Oscars , but ended up being left out of the final list. It was based on the book Pray for the stolen women, by Jennifer Clement, to tell the drama of three friends, Ana, Paula and María, living in a village among the mountains of Mexico, between quarrying, harvesting of resins in poppy plantations to make opium and the disappearance of girls, even entire families.

Following Ana (Ana Cristina Ordóñez González, as a child, and Marya Membreño, as a teenager) and the other two friends, we realize the tension in which they all live. There is a constant climate of imminent terror with the abuses of the cartels, which terrify even the army, unable to undermine the power of these men who cause panic when they arrive with their cars, shooting and breaking into houses to kidnap girls.

The opening scene is impressive, with a woman digging a hole with her hands to hide a girl. We later learn that the duo is mother and daughter. Mothers force their daughters, to their sadness, to cut and keep their hair short like a boy’s. And despair hits when the first period occurs. It’s sad to think that girls need to live this way to avoid being baited by drug dealers. It’s hard to be a daughter. It’s even harder to be a mother.

LA NOCHE DEL FUEGO invokes the resistance of children, their magical and honest look in the face of violent reality. Tatiana Huezo‘s film is not a commercial film, but speaks of our current time, and how it resonates in the depths of our being, from the particular point of view of three girls on their way to adolescence

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