O AGENTE SECRETO, novo filme de Kleber Mendonça Filho outra vez encanta o cinéfilo ao mesclar a recuperação da memória nacional com uma visão extremamente afetuosa da paixão pelo cinema nos anos setenta.
Como no excelente RETRATOS FANTASMAS, os cinemas de rua de Recife, nos anos setenta são personagens de destaque na história de Marcelo(Armando), um técnico que se vê obrigado a ir morar em Recife, num edifício para abrigo de refugiados políticos durante a ditadura militar.
As imagens e as histórias dos cinemas, cabines, trabalhadores e filmes são um dos pontos altos da trama. TUBARÃO e A PROFECIA, por exemplo são citados várias vezes. Não por acaso, mas absolutamente dentro do contexto brilhante que relaciona seus enredos com o clima que envolvia as pessoas no Brasil. anos 70.
A cabine de projeção de filmes, as latas de rolos de filme, os aparelhos de. projeção, as enroladeiras dos filmes, o calor insano que a projeção causava nas cabines, es estrepulias sexuais na platéia, são memórias afetivas de Recife, Porto Alegre ou qualquer outra cidade brasileira. Kleber mostra tudo maravilhosamente bem.
O que dizer da personagem de Dona Sebastiana (Tânia Maria), a magnífica anfitriã dos desvalidos exilados, sempre carinhosa e sempre disposta a uma fofoca bem intencionada. Personagem de antologia.
Wagner Moura faz outro gol. em sua carreira. Vive três personagens que ao mesmo tempo são um só. O brasileiro perdido em suas memórias e sua história. Todos diferentes e iguais.
E a lenda urbana da perna cabeluda que atacava pessoas que estavam namorando na praia? Quantas e quantas como esta não havia naqueles anos tão pouco dourados?
O Agente Secreto tem muitos aspectos encantadores e outros tantos assustadores. Como a violência urbana brasileira e o desprezo pela vida humana. Infelizmente esses parecem ter se prolongado até hoje, mais do que os encantadores.
Um belíssimo filme.