O cineasta holandês Paul Verhoeven tem uma filmografia de deixar qualquer um de cabelo em pé.

São dele os filmes O QUARTO HOMEM (um policial gay com tons místicos), CONQUISTA SANGRENTA (filme medieval com muito sexo, peste e violência), O VINGADOR DO FUTURO (ficção científica trash com Arnold Schwarzennegger e mutantes deformados), INSTINTO SELVAGEM (para mim sua obra prima, com Sharon Stone luminosa) e SHOWGIRLS (drama erótico para muitos um dos piores filmes da história do cinema).

Neste contexto, o filme ELLE, estrelado por Isabelle Huppert se insere perfeitamente. Tudo nele – desde a cena inicial – é muito incômodo e difícil, tanto para os personagens, como para os espectadores.

A violência extrema da cena de estupro inicial (poucas vezes igualada no cinema) segue no tom do filme quando se inicia a ver a história dos personagens. Impressionante a angústia, a violência reprimida (ou nem tanto), o turbilhão de sentimentos negativos represados em cada diálogo, cena ou relacionamento do filme.

Quando a personagem Michèlle Leblanc inicia a narrativa de seu passado, com os assassinatos em massa cometidos por seu pai, o quadro é tão tenebroso que a primeira impressão é que fosse uma mentira. Não somente era verdade como aquela narrativa daria o tom geral do filme.

O pai está na prisão e pretende sair, mas não vê a filha há décadas.

Michèlle é dona de uma empresa de jogos de computador que se notabiliza pela violência absurda de seus games. Ela e sua sócia (a única personagem remotamente padrão do filme) incentivam permanentemente seus funcionários a romper barreiras de sexo e violência nos games, com gritos, ameaças explícitas de punições e perdas de emprego.

Seu filho é um empregado de um fast food absolutamente idiotizado e que vive com uma mulher tão linda como abusiva, que o tortura diariamente cobrando perfeição em tudo o que ele faz, principalmente com o filho do casal, que certamente ele não é o pai.

Dentro deste quadro, o affair que Michèlle mantém com o marido de sua sócia e melhor amiga chega a ser quase um detalhe insignificante e delicado.

Isto que o pior eu não vou revelar.

Em resumo, ELLE é um filme repleto de psicopatas e pessoas fortemente traumatizadas com agressões brutais que sofrem desde sua infância, diariamente por parte de seus familiares, amigos, colegas de trabalho e vizinhos.

Será que a vida é assim?

Ao mesmo tempo, há que se dizer que o filme é magnificamente bem feito, cinematograficamente falando, deixando o espectador sem respiração, ansioso pela próxima cena, sem um minuto de tédio que seja em suas duas horas de duração.

E muito deste fascínio vem do trabalho de Isabelle Huppert, que desde que era a menina Jacqueline, em CORAÇÕES LOUCOS (ao lado de Miou-Miou), de Bertrand Blier ou UM AMOR TÃO FÁCIL, de Claude Goretta se anunciava uma atriz superlativa. Hoje está no auge de sua maturidade, uma grande dama do cinema. Impecável e implacável.

ELLE não é um filme para o grande público, como os filmes de Verhoeven nunca o são. Os trabalhos dele são como um determinado prato ou um vinho muito forte. Apenas para quem gosta.

 

The Dutch filmmaker Paul Verhoeven has a filmography capable of letting anyone’s hair stand up.
His films are THE FOURTH MAN (a gay police story with mystical tones), FLESH AND BLOOD (medieval film with lots of sex, plague and violence), TOTAL RECALL (science fiction trash movie with deformed mutants), BASIC INSTINCT (for me his best work with a luminous Sharon Stone) and SHOWGIRLS (for many one of the worst movies in the history of cinema).
In this context, ELLE starring Isabelle Huppert fits in perfectly. Everything in it – from the initial scene – is very uncomfortable and difficult, both for the characters and for the spectators.
The extreme violence of the initial rape scene (rarely matched in the movies) follows the tone of the film as you begin to see the story of the characters. Impressive is the anguish, the repressed (or not so much) violence, the whirlwind of negative feelings repressed in every dialogue, scene or relationship of the film.
When the character Michèle Leblanc begins the narrative of her past, with the mass murders committed by her father, the picture is so dark that the first impression is that it was a lie. Not only was it true how that narrative would give the overall tone of the film.
The father is in prison and intends to leave but has not seen his daughter for decades.
Michèlle owns a computer games company that is known for the absurd violence of its games. She and her partner (the only remotely standard character in the movie) permanently encourage their employees to break down barriers to sex and violence in games, with screams, explicit threats of punishment and job losses.
Her son is an absolutely idiotic fast-food employee who lives with a woman as beautiful as  abusive, who tortures him daily in everything he does, especially with the couple’s son, who certainly is not from him.
Within this framework, Michèlle’s affair with her partner’s husband and best friend is almost an insignificant and delicate detail.
And the worst I will not reveal.
In resume, ELLE is a movie full of psychopaths and people heavily traumatized by brutal assaults they have suffered from their childhood, from their families, friends, co-workers and neighbors.
Is life like this?
At the same time, it must be said that the film is magnificently well done, cinematically speaking, leaving the viewer breathless, eager for the next scene, without a minute of boredom in its two hours.
And much of this fascination comes from the work of Isabelle Huppert, who since the time was the girl Jacqueline, in CRAZY HEARTS – LES VALSEUSES (alongside Miou-Miou), by Bertrand Blier or A LOVE SO EASY – LA DENTELIERE, by Claude Goretta announced herself as a superlative actress. Today she is at the height of her maturity, a great lady of cinema. Impeccable and unforgiving.
ELLE is not a movie for the general public, as Verhoeven’s movies never are. His works are like a certain dish or a very strong wine. Only for those who like it.