A FORMA DA ÁGUA, de Guillermo del Toro é uma fábula filmada com extrema competência e talento de parte de todos os que se envolveram no projeto. O cineasta mexicano, natural da cidade de Guadalajara, conseguiu entregar uma poesia sobre a humanidade em forma de filme.

Nos anos sessenta, auge da Guerra Fria, a paranoia em alta, duas faxineiras de uma instalação secreta do Governo têm sua vida mudada pela chegada de uma criatura aquática capturada “em algum lugar da América do Sul” .

As intermináveis e crueis sessões de tortura do ser, comandadas pelo chefa da segurança do local (o excelente Michael Shannon, de ANIMAIS NOTURNOS) levar uma delas a reagir, primeiro inicando um relacionamento com a criatura e, depois, passaando a tentar salvá-la.

A moça é um muda, habitante de um apartamento alugado em cima de um cinema de última categoria, cujo únicos prazeres revelam sua absoluta solidão. Para viver este personagem, o filme trouxe a atriz inglesa SALLY HAWKINS, aqui certamente em seu melhor trabalho, alguém que vai da absoluta fragilidade a um estado de heroína forte e resoluta, de uma cena para a outra. A transmissão de sentimentos e estados de animo sem palavras, mas com pequenos gestos e atitudes é absolutamente admirável.

Quando o sistema define que vai dissecar viva a criatura, ela é que vai comandar um grupo de pessoas inconformadas com a falta de humanidade da decisão.

Ao lado dela estão outros menos favorecidos, como um cientista russo(o ótimo Michael Sthulbargh, de BOARDWALK EMPIRE), infiltrado na base americana absolutamente indeciso sobre seu futuro, sua colega de faxina frustrada e doída em um casamento monótono com um acomodado e omisso marido (a fora de série Octavia Spencer (HISTÓRIAS CRUZADAS e ESTRELAS ALÉM DO TEMPO) e o vizinho gay e hesitante, a extraordinária criação de Richard Jenkins (O VISITANTE).

Esta verdadeira Liga da Justiça vai enfrentar todos os recursos e a arrogância do chefe da segurança, decidido a exterminar o ser diferente dele.

Um dúzia de cenas antológicas pontuam o filme de Del Toro, que ainda se permite certas tiradas de humor extraordinárias. A trilha sonora, do francês Alexander Desplat (ganhador do Oscar pela trilha de O GRANDE HOTEL BUDAPESTE) é incrível, com espaço até para Carmen Miranda.

Como em toda fábula, por óbvio o espectador tem que aceitar a premissa e ir atrás das metáforas que o filme propõe. Quem ficar preso na história linear da criatura aquática perseguida, vai perder a chance de viver uma experiência maravilhosa do poder do cinema.

 

THE SHAPE OF WATER, by Guillermo del Toro is a fable filmed with extreme competence and talent on the part of everyone who got involved in the project. The Mexican filmmaker, born in the city of Guadalajara, was able to deliver a poem about humanity in a film form.

In the sixties, the height of the Cold War, paranoia on the rise, two cleaners from a secret government facility have their lives changed by the arrival of an aquatic creature captured “somewhere in South America.”

The endless and cruel torture sessions of the creature, commanded by the local security chief (the excellent Michael Shannon of NOCTURNAL ANIMALS) lead one to react, first initiating a relationship with the creature and then trying to save it .

The girl is a mute, an inhabitant of an apartment rented on top of a cinema of the last category, whose only pleasures reveal her absolute solitude. To live this character, the film brought the English actress SALLY HAWKINS, here certainly in her best work, someone who goes from absolute fragility to a strong and resolute heroine state, from one scene to the next. The transmission of feelings and moods without words, but with small gestures and attitudes is absolutely admirable.

When the system defines that it will dissect the creature alive, it is that it will command a group of people unhappy with the humanity’s lack of that military decision.

Alongside her are others less favored, such as a Russian scientist (the great Michael Sthulbargh of BOARDWALK EMPIRE), infiltrated at the American base utterly undecided about his future, her colleague of the frustrated and sickly housewife in a monotonous marriage with a accommodating and omitted husband (the out-of-series Octavia Spencer) and the gay and hesitant neighbor, the extraordinary creation of Richard Jenkins (THE VISITOR).

This true Justice League will face all the resources and arrogance of the head of security, determined to exterminate the different creature.

A dozen anthological scenes punctuate Del Toro’s film, which still allows for some extraordinary humor shots. The soundtrack mad by the French Alexander Desplat (the Oscar Winner of THE GREAT BUDAPEST HOTEL) is also outstanding, with a place for Carmen Miranda.

As in every fable, of course the viewer has to accept the premise and go after the metaphors that the film proposes. Who gets stuck in the linear history of the pursued aquatic creature, will miss the chance to experience a wonderful example of the power of cinema.