SLEEPERS, A VINGANÇA ADORMECIDA: FILME Polêmico, Criticado e Questionado é Uma Poderosa História sobre a Infância Ameaçada

Em 1996, durante uma viagem aos Estados Unidos assisti SLEEPERS, A VINGANÇA ADORMECIDA, de Barry Levinson. Lembro perfeitamente que sai do cinema absolutamente impressionado e chocado com a história que tinha visto. Quatro meninos adolescentes, vivendo em Hell’s Kitchen (Cozinha do Inferno), no Brooklyn, em Nova Iorque, se envolvem inadvertidamente em um crime. São condenados a penas de seis meses a um ano de detenção em uma instituição penal, onde vão conhecer o inferno, com torturas, surras e estupros permanentes comandados pelos guardas que deviam cuidar do local e dos internos.

Fui ler tudo que encontrei sobre o livro do escritor Lorenzo Carcaterra, assumidamente autobiográfico, um dos quatro jovens protagonistas. Tomei contato com uma saraivada de fortes críticas de jornalistas, críticos de cinema e autoridades, acusando o filme de ficcional demais, falso, inverossímil e mentiroso. Os serviços de cuidados de menores infratores e o Ministério Público de Nova Iorque divulgaram notas fortes imputando mentiras à história de Carcaterra, o que obrigou o estúdio a colocar duas notas no final do filme dando as versões das autoridades.

Independentemente da polêmica, trata-se de um filme poderoso e impactante, mesmo 23 anos depois de realizado. Ver o tratamento que jovens infratores recebem de autoridades que supostamente deveriam cuidar de sua recuperação é uma experiência chocante e poderosa. As cenas de tortura e violências sexuais são pesadíssimas e muito difíceis de serem vistas, embora Levinson tenha sido extremamente cuidadoso em atenuá-las (na medida do possível) sem diminuir seu impacto arrasador.

A história de Carcaterra se vale de tipos extraordinários de Hell’s Kitchen para dar ainda mais grandeza ao filme. O ex-gangster King benny (excepcional criação do extraordinário ator Vittorio Gassman), o Padre Bobby (Robert de Niro, com a classe de sempre e algumas cenas antológicas), o comerciante Fat Macho (Frank Medrano, ótimo), o pai violento de Shakes (Bruno Kirby, odiosamente bem), o bandido Little Caesar (papel do incipiente Wendell Pierce, hoje conhecidíssimo por SUITS) são todos autores de um cenário sobre o Brooklyn nostálgico, afetuoso, forte e contundente. Simplesmente nota dez.

Mas é nos meninos que o filme dá um salto de qualidade inegável. Shakes (Tremiliques, o próprio Lorenzo Carcaterra, vivido como menino por Joe Perrino e adulto por Jason Patric), Tommy (Jonathan Tucker menino e Billy Cudrup adulto), Michael (Brad Refro menino e Brad Pitt adulto) e finalmente John (Geoffrey Wigdor menino e Ron Eldard muito bem como adulto) compõem tipos tão vulneráveis, ingênuos, humanos, brincalhões e vítimas de uma realidade social brutal que lhes marcará para toda vida.

SLEEPERS ainda tem um trabalho memorável de Kevin Bacon, como o Guarda Nokes (odiosamente forte e violento) e de Dustin Hoffman, como o advogado incompetente Danny Snider, propositadamente escolhido para a defesa dos acusados de um crime. Ainda tem a menina Carol (Monica Polito jovem e Minnie Driver linda), um sopro de amizade, carinho e memórias afetivas inesquecíveis para jovens traumatizados pela violência.

Outro grande filme sobre este tema é SOBRE MENINOS E LOBOS, de Clint Eastwood, uma história poderosa e contundente demais.

Na minha opinião, pouco importa quanto de veracidade e quanto de ficção a história de SLEEPERS tem. Sejam memórias traumáticas ou uma ficção feita para chocar e vender livros, trata-se de uma narrativa tão forte quanto necessária de ser vista e discutida. Acho o filme excelentemente bem feito, maravilhosamente interpretado e poderosamente contundente em um tema essencial. Vê-lo, além de ser uma experiência cinematográfica de excelência, é uma aula de filosofia, vida e reflexão, necessária a todos nós.

In 1996, during a trip to the United States, I watched Barry Levinson‘s SLEEPERS. I remember perfectly well that I left the theater absolutely impressed and shocked by the story I had seen. Four teenage boys, living in Hell’s Kitchen, Brooklyn, New York, inadvertently engage in a crime. They are sentenced to six months to a year in prison at a juvenile penal institution where they will meet hell, torture, beatings and permanent rape by the guards who were supposed to take care of the place and the inmates.

I went to read everything and I found about the author’s Lorenzo Carcaterra autobiographical book (one of four young protagonists). I took contact with a tsunami of strong criticism from journalists, film critics, and officials, accusing the film of being too fictional, fake, untrue, and liar. Juvenile offender care services and the New York Public D.A. Office issued strong notes imputing lies to Carcaterra’s story, forcing the studio to put two notes at the end of the film giving the authorities’ versions.


Regardless of the controversy, it is a powerful and impactful film, even 23 years after it was made. Seeing the treatment young offenders receive from authorities who are supposed to take care of their recovery is a shocking and powerful experience. The scenes of torture and sexual violence are very cumbersome and very difficult to see, although Levinson was extremely careful to mitigate them (as far as possible) without diminishing their devastating impact.

Carcaterra’s story draws on the extraordinary types of Hell’s Kitchen to make the movie even bigger. Former gangster King Benny (exceptional creation of the extraordinary Italian actor Vittorio Gassman), Father Bobby (Robert de Niro, with the usual class and some anthological scenes), the merchant Fat Macho (Frank Medrano, great), the violent father of Shakes (Bruno Kirby, hatefully well), the bandit Little Caesar (role of the fledgling Wendell Pierce, now known as SUITS) are all the authors of a nostalgic, affectionate, strong and forceful Brooklyn scene. Just grade ten.

But it is in the boys that the movie makes a leap of undeniable quality. Shakes (Lorenzo Carcaterra himself, lived as a boy by Joe Perrino and adult by Jason Patric), Tommy (Jonathan Tucker boy and adult Billy Cudrup), Michael (Brad Renfro boy and adult Brad Pitt) and finally John (Geoffrey Wigdor boy and Ron Eldard very well as an adult) make up such vulnerable, naive, human, playful and victimized types of a brutal social reality that will mark them (and us) for a lifetime.

SLEEPERS still has memorable work by Kevin Bacon as the Nokes Guard (odiously strong and violent) and Dustin Hoffman as the incompetent lawyer Danny Snider, purposely chosen to defend the defendants of a crime. Still has the girl Carol (young Monica Polito and beautiful Minnie Driver), a breath of friendship, affection and unforgettable affective memories for young people traumatized by violence.

Another great filme about this theme is MISTYC RIVER, by Clint Eastwood, a poweful story about boys and violence.

In my opinion, it doesn’t matter how much truth and fiction SLEEPERS‘ story has. Whether traumatic memories or a fiction made to shock and sell books, it is as strong a narrative that needs to be seen and discussed. I find the film excellently done, beautifully interpreted, and powerfully blunt on an essential theme. Seeing it, as well as being a cinematic experience of excellence, is a real class of philosophy, life and reflection, necessary for all of us.

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