CATS (2019) – O PORQUÊ CERTAS COISAS NÃO DEVEM SER ADAPTADAS

ESTAMOS INAUGURANDO A INCLUSÃO DE TEXTOS DE CONVIDADOS ESPECIAIS PARA O BLOG CINEMARCO.

LAURA MEDEIROS

Não é novidade pra ninguém que Cats (2019) foi o maior fiasco de Hollywood dos últimos tempos. Um filme cujo estúdio estava confiante de que seria uma isca para inúmeros Oscars  e demais prêmios conseguiu ter uma perda financeira de mais de 100 milhões de dólares. Sem falar do susto que este filme poderá acarretar na carreira de diversos artistas, dado seu aterrorizante resultado no departamento visual.

Mas será que estes visuais medonhos foram os únicos culpados para este desastre artístico e financeiro? Será que, ao lançarem o trailer, os espectadores ficaram tão perturbados com o que viram que suscitou em diversas pessoas a se recusarem de assistir ao filme? Sim e não. Apesar dos trailers nos apresentarem com gatos-humanóides que saíram de um acidente radioativo, misturando fantasia com realismo, mas que nos apresenta aquela sensação de uncanny valley, por incrível que pareça, isso é apenas a ponta do iceberg, o buraco é bem mais fundo.

E já que meio mundo se recusou de ver este desastre, como amante de cinema (seja bom ou ruim), me sujeitei a experiência. E lá vai.

Para aqueles não familiarizados, Cats é um musical de sucesso de quase 40 anos de tradição. É composto por Andrew Lloyd Webber (o mesmo de O Fantasma da Ópera e Evita), chegando ser um dos maiores fenômenos da Broadway. Mas qual é sua história? Bem, em poucas palavras, trata-se de um grupo de gatos (os gatos Jellicle) que, por uma noite, fazem uma série de apresentações para escolher um candidato para ir a uma nova passagem da vida, a Camada Celestial. Confuso e estranho? Sim.

Não me entenda a mal, a peça é excelente. Desde o cenário, figurino, coreografia e mais importante, as músicas. Mas não é pra todo mundo, especialmente para aqueles que não simpatizam com musicais fantásticos. Contudo, até os mais fanáticos irão concordar, Cats é menos uma história contada em musical e mais um recital de dança e música com um conceito de uma história. Sua apresentação consiste em uma série de eventos conectados por um único tema: gatos.

Ou seja, algo meio complicado de se adaptar para um filme. Que geralmente consiste numa estrutura mais clara de três atos. Tendo início, meio e fim, com personagens realizando ações, reagindo às suas consequências e superando conflitos.

É possível ver que esta adaptação de 2019 houve tentativas para expandir a peça numa história mais estruturada. Duas destas principais alterações foram introduzir uma protagonista e um vilão. Entretanto, os resultados foram um tanto frustrados.

Victoria (interpretado por Francesca Hayward) é nossa personagem principal. Por uma boa parte do filme acompanhamos a história por meio de seus olhos, já que ela é a novata no grupo dos gatos Jellicle. Entretanto, sua participação é quase que inconsequente. Victoria não toma ações ou muda algo no decorrer da história do filme. A finalidade de sua criação é para dar um motivo para que alguns outros gatos pudessem se apresentar. Na peça, essas apresentações eram feitas pelos gatos no palco diretamente ao público espectador, algo muito comum no mundo do teatro, mas que é dificilmente feito com êxito no cinema: a quebra da quarta parede.

Macavity (Idris Elba) é um personagem que de fato tem na peça, mas ao contrário do filme ele é menos um vilão e mais um obstáculo que os Jellicles enfrentam, no qual é rapidamente superado. Já no filme, sua presença é mais constante, além de apresentar um propósito para sua malícia: ser o gato escolhido para a nova vida. Contudo sua adaptação não foi convincente como um vilão digno de se temer, mas sim de se rir. Seus planos falham miseravelmente, quase de maneira cômica, se assemelhando a um desenho animado digno dos looney tunes. Especialmente na cena final, na qual o personagem cai de um balão.

Em geral Cats não é uma fácil adaptação. Sua produção para o teatro já foi frustrada. Ninguém entendia a visão que Andrew Lloyd Webber tinha para o musical, nem o que ele queria dizer com o tema escolhido. Segundo ele, a peça nem sequer é uma metáfora para algo mais profundo. Ela é simplesmente sobre gatos. Simples assim.

Imagine então adaptar algo tão amplo como isso para o cinema, onde o estado de suspensão de descrença do espectador é inferior ao público do teatro. Ou seja, é mais fácil de acreditar em coisas “falsas” no teatro do que numa tela. Isto significa que ao vermos atores vestidos que nem felinos, como vemos na peça, é mais acreditar que eles são de fato gatos do que aquela monstruosidade da computação gráfica que tivemos no filme. Mesmo que este tenha incorporado aspectos mais realistas, como uso de pelos, rabos e orelhas em movimento. Ademais por se tratar de um recital de dança, ao transportá-lo para um filme, parte de seu brilho é perdido. 

Como já dizia o filósofo Marshall McLuhan “a mídia é a mensagem”, nos traz a ideia de que certas coisas só podem ser compreendidas por um meio específico (livro, peça, filme, poema…). Pois não seria a estória que se expressa por si mesma, mas sim pela mídia que a representa. Portanto, assim como a divisão dos diferentes gêneros de estória, cada mídia mídia representa certas coisas melhores do que outras.

Isso não significa que uma mesma estória não possa ser representada por diferentes mídias. Os Miseráveis, por exemplo, é livro, peça e filme; mas para que isso aconteça com êxito, ocorre um processo de adaptação bem rígido, para que melhor se enquadre a nova mídia. A tradução de uma mídia para outra nunca deve ser literal. Mudanças estruturais são necessárias, como excluir/acrescentar personagens, mudar a estrutura narrativa, compactar cenas e diálogos.

Entretanto, este não foi o caso de Cats (2019): sua “adaptação” seguiu passo a passo da peça, de primeira à última cena. E suas alterações não foram o suficiente para salvar sua tentativa em construir um enredo. Pelo contrário, como comentei anteriormente, muitas delas foram um tiro no pé. Mas eis aqui minha opinião, sobre como Cats deveria ter sido adaptado.

1- Mudança estrutural na história.

O filme deveria se basear no conceito da peça (tema, personagens e músicas), mas tratá-lo como uma história original e não tentar inserir um enredo onde, originalmente, não há enredo. Outra maneira seria simplesmente contar a história sem enredo nenhum. Abraçar essa desconexão entre cenas e eventos da peça e fazer um filme com diferentes sequências sem nexo estrutural. Semelhantemente ao realizado em Fantasia (1940).

2- Devia ser uma animação.

Depois do teatro, musicais com temas fantásticos encontram um meio mais propício para suas histórias quando feitos no mundo da animação. Desta maneira, não apenas os criadores têm ferramentas mais ilimitadas para suas ideias criativas, mas também permite que a suspensão da descrença do espectador seja maior do que um filme em live-action (com atores presencialmente no set). Animação permite que coisas impossíveis e fantásticas fiquem mais orgânicas.

Ademais essa ideia de transformar Cats em um filme de animação já foi cogitado (e até entrado em fase de pré-produção) no final da década de 80. O filme seria feito pela Amblin Entertainment e teria a produção de Steven Spielberg.

Em resumo, Cats (2019) foi um erro. Embora já havia indícios do início sua produção em 2013, percebe-se que o filme foi finalizado às pressas. O próprio diretor (Tom Hooper) revelou ter finalizado o filme um dia antes da estreia mundial. A história foi mal contada e percebe-se que não houve o cuidado nem a construção necessária em como adaptá-la para o cinema e muito menos no departamento de efeitos especiais. Em geral, o filme é um desconforto de ruim.

E ainda sim… Eu nunca me diverti tanto.

Exatamente, em minha opinião, Cats (2019) é tão ruim, que chega a ser divertido. Para aqueles que amam cinema, este filme é uma aula de o que não fazer no mundo do cinema. É um aprendizado sem igual, basta ir com uma mentalidade mais aberta do filme e que esteja disposto a rir dele.

Portanto se eu tivesse que indicar este filme para alguém, seria justamente aos curiosos que querem aprender um pouco sobre cinema. Nem sempre grandes diretores, atores e nem rios de dinheiro (novamente, custou 100 milhões de dólares) resultam em um bom projeto.

E talvez, indicaria também para os cegos…

Ao menos as músicas continuavam boas…. em sua maioria.

WE ARE INAUGURATING THE INCLUSION OF SPECIAL GUEST TEXTS FOR THE CINEMARCO BLOG.

It is nothing new to anyone that Cats (2019) was the biggest Hollywood fiasco of recent times. A film whose studio was confident it would be a bait for countless Oscars and other prizes managed to have a financial loss of more than $ 100 million. Not to mention the fright that this film may have on the career of several artists, given its terrifying result in the visual department.

But were these hideous visuals the only culprits for this artistic and financial disaster? Did the viewers get so upset by what they saw when they launched the trailer that it sparked several people to refuse to watch the movie? Yes and no. Although the trailers present us with humanoid cats that came out of a radioactive accident, mixing fantasy with realism, but that presents us with that uncanny valley feeling, oddly enough, this is just the tip of the iceberg, the hole is much deeper .

And since half the world refused to see this disaster, as a movie lover (whether good or bad), I subjected myself to the experience. She goes.

For those unfamiliar, Cats is a successful musical with almost 40 years of tradition. It is composed by Andrew Lloyd Webber (the same as The Phantom of the Opera and Evita), becoming one of the greatest phenomena on Broadway. But what is your story? Well, in a nutshell, this is a group of cats (the Jellicle cats) that, for one night, make a series of presentations to choose a candidate to go to a new passage in life, the Celestial Layer. Confused and strange? Yes.

Don’t get me wrong, the piece is excellent. From the scenery, costumes, choreography and most importantly, the songs. But it’s not for everyone, especially for those who don’t like fantastic musicals. However, even the most fanatical will agree, Cats is less a story told in musical and more a recital of dance and music with a concept of a story. His presentation consists of a series of events connected by a single theme: cats.

That is, something a little complicated to adapt to a film. It usually consists of a clearer three-act structure. Beginning, middle and end, with characters performing actions, reacting to their consequences and overcoming conflicts.

It is possible to see that this 2019 adaptation was an attempt to expand the play into a more structured story. Two of these main changes were to introduce a protagonist and a villain. However, the results were somewhat frustrated.

Victoria (played by Francesca Hayward) is our main character. For a good part of the film we follow the story through her eyes, since she is the newcomer in the group of Jellicle Cats. However, their participation is almost inconsequential. Victoria doesn’t take action or change anything in the course of the film’s history. The purpose of its creation is to give a reason why some other cats could perform. In the play, these presentations were made by the cats on stage directly to the audience, something very common in the theater world, but which is hardly done successfully in cinema: the breaking of the fourth wall.

Macavity (Idris Elba) is a character he actually has in the play, but unlike the film he is less of a villain and more of an obstacle that the Jellicles face, in which he is quickly overcome. In the film, however, his presence is more constant, in addition to presenting a purpose for his malice: to be the cat chosen for the new life. However, his adaptation was not convincing as a villain worthy of fear, but of laughing. His plans fail miserably, almost comically, resembling a cartoon worthy of the looney tunes. Especially in the final scene, in which the character falls from a balloon.

In general Cats is not an easy adaptation. His production for the theater has already been frustrated. Nobody understood Andrew Lloyd Webber‘s vision for the musical, nor what he meant by the chosen theme. According to him, the play is not even a metaphor for something deeper. She is simply about cats. That simple.

Imagine then adapting something as wide as that for the cinema, where the spectator’s state of suspension of disbelief is inferior to the theater audience. In other words, it is easier to believe in “false” things in the theater than on a screen. This means that when we see actors dressed like cats, as we see in the play, it is more to believe that they are in fact cats than that monstrosity of computer graphics that we had in the film. Even though it incorporated more realistic aspects, such as the use of hair, tails and ears in motion. Furthermore, because it is a dance recital, when transporting it to a film, part of its shine is lost.

As the philosopher Marshall McLuhan once said “the media is the message”, it brings us to the idea that certain things can only be understood by a specific means (book, play, film, poem …). For it would not be the story that expresses itself, but the media that represents it. So, like the division of different story genres, each media media represents certain things better than others.

This does not mean that the same story cannot be represented by different media. LES MISERABLESO, for example, is a book, play and film, but for this to happen successfully, there is a very rigid adaptation process, so that the new media fits better. Translation from one medium to another should never be literal. Structural changes are necessary, such as excluding / adding characters, changing the narrative structure, compressing scenes and dialogues.

However, this was not the case for Cats (2019), his “adaptation” followed the play step by step, from the first to the last scene. And its changes were not enough to save his attempt to build a plot. On the contrary, as I mentioned earlier, many of them were shot in the foot. But here’s my take on how Cats should have been adapted.

1- Structural change in history.

The film should be based on the concept of the play (theme, characters and songs), but treat it as an original story and not try to insert a plot where, originally, there is no plot. Another way would be to simply tell the story without any plot. Embrace this disconnection between scenes and events in the play and make a film with different sequences without a structural link. Similarly performed in Fantasia (1940).

2- It Should be an animation.

After the theater, musicals with fantastic themes find a more suitable medium for their stories when made in the world of animation. In this way, not only do creators have more unlimited tools for their creative ideas, but it also allows the suspension of the viewer’s disbelief to be greater than a live-action film (with actors in person on the set). Animation allows impossible and fantastic things to be more organic.

Furthermore, this idea of ​​transforming Cats into an animated film was already considered (and even entered pre-production) in the late 1980s. The film would be made by Amblin Entertainment and would have the production of Steven Spielberg.

In short, Cats (2019) was a mistake. Although there was already evidence of the beginning of its production in 2013, it is clear that the film was finished in a hurry. The director himself (Tom Hooper) revealed that he finished the film the day before the world premiere. The story was poorly told and it is clear that there was no care or necessary construction on how to adapt it for the cinema, much less in the special effects department. In general, the film is a bad discomfort.

And yet… I never had so much fun.

Exactly, in my opinion, Cats (2019) is so bad, it’s even fun. For those who love cinema, this film is a lesson in what not to do in the world of cinema. It is a unique learning experience, just go with a more open mind of the film and be willing to laugh at it.

So if I had to recommend this film to someone, it would be just curious people who want to learn a little about cinema. Not always great directors, actors and lots of money (again, it cost 100 million dollars) result in a good project.

And perhaps, it would also indicate for the blind …

At least the songs were still good…. mostly.

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.