Tânatos e Eros se encontram na Nápoles de ‘A Amiga Genial’

O CONVIDADO DE HOJE DO CINEMARCO É O ADVOGADO E AMIGO PAULO DE TARSO CADEMARTORI.

Fui convidado por meu amigo Marco Antônio a escrever sobre algum filme, série ou o que mais nos der na telha. Aflorado por um sentimentalismo surgido nas entranhas do confinamento e na perspectiva de total incerteza frente ao futuro, aceito o convite ao escolher a série ‘A Amiga Genial’, da HBO. Ensimesmado, encontro na série a mais legítima nostalgia mesclada com um toque de pura melancolia. Não vou me atrever, posto um modesto advogado de província, analisar a obra desta coqueluche atualmente na Itália que é a obra de Elena Ferrante, está acima de meus conhecimentos em literatura, e muito menos os aspectos técnicos da filmagem dessa genial série, pois não ousaria sobre isso comentar no blog do Marco, justamente o maior conhecedor de cinema que conheci em minha geração. Pensou cinema, pensou Marco Antônio e isso desde os tempos do científico no colégio Rosário, e depois na faculdade de Direito na PUC.

A série ‘A Amiga Genial’ foi como um renascimento do cinema italiano agora na ida sem volta para a modalidade streaming. E esse movimento não deixa de ter sempre um gosto e uma saudade das obras dos grandes: Visconti, Fellini, Bertolucci, Pasolini, De Sica, Leone, Antonioni, Rossellini (monstros sagrados qualquer um deles consagraria o cinema de uma cultura). Esse movimento renascentista foi meio que geral na Europa e vamos encontrar tanto na Espanha, França, Alemanha e Inglaterra e está mais entrosado com o fabuloso cinema dos EUA. Voltando à série e me permitam passar ao largo do nome das duas protagonistas e encarar diretamente a construção das personas das duas que, no amor da amizade, se construiu Lenu e Lila. Amor que lhes possibilitará superarem a pobreza marginal que lhes impôs o destino, mas também lhes concedeu a fortaleza e a riqueza extraordinária de vida e potência de viver. Não se consegue ver a série sem que de uma hora para outra nos percebamos soluçando de emoção e isso já é um diferencial desta história em relação a outras congêneres.

Mas aqui enfoco aspectos que muitas vezes passam despercebidos de um olhar eminentemente técnico, ao gosto do Marco. Refiro-me ao sufocamento angustiante da vida em um subúrbio pobre de Nápoles, com ares de campo de concentração, que fechado ao mundo nos remete à sensação de prisão, como sentimos hoje nas limitações que nos são impostas a viver no isolamento social necessário para enfrentar a pandemia. O túnel abaixo da linha férrea é a única saída ao mundo exterior, ao diferente, à libertação. E a cena em que Lenu ultrapassa o túnel quando quer ir conhecer o mar mesmo morando a poucos quilômetros de distância é como que um rito de passagem do mundo de Tânatos do bairro pobre ao mundo libertador, criador e original de Eros, uma cena marcante e inesquecível de forte impacto cinematográfico. Algo que pode passar despercebido é a constante e ininterrupta passagem do tempo que nos é indicada em cena pela ida e vinda do trem que corta a Campânia, que hora chega ou parte de Nápoles. E aqui, nessa misteriosa cidade, que pretendo uma ligação entre a dicotomia constante encontrada no filme entre Tânatos e Eros. Pois, se observarmos as intersubjectividades dessa parte da Itália, identificamos onde se vive a vida real de forma radical e não só na obra de Elena Ferrante.

Não nos olvidemos das canções napolitanas, nas quais há temas como ver Nápoles e depois morrer ou a exaltação da beleza majestática da Costa Amalfitana, Capri e Ischia. Aqui, a autora vai de um extremo de amor e entusiasmo em contraponto ao abjeto abuso sexual, angústia de viver, medo e morte. Em Ischia, tudo acontece e pode-se viver de um polo ao outro, mas compensa pela liberdade da vida intensa. Já no bairro que reprime o amor, isso é representado pela louca que passa a vida esperando a chegada de seu amante que partiu por amar com volúpia e transgredir as regras. As regras, os direitos e deveres, obedecendo às idiossincrasias que ainda se encontram nessa parte da Itália, os temidos e camorristas irmãos Solara e os Carracci que representam a morte, a violência, a corrupção, o medo e a repressão dos costumes imposta aos outros e hipocritamente vividos sem culpa ou vergonhas pelos repressores às escondidas. Nada mais que fantástica a cena em que toda a estrutura mafiosa e falsa dos Solara na dependência e necessidade de enfrentar o mundo novo que lhes bate à porta se rende ao gênio criador e libertador de Lila. Ela transforma uma trivial obra de arte convencional colocada como decoração na moderna loja de sapatos, com uma fúria avassaladora de criação artística corta, recorta o quadro e o refaz em novos parâmetros artísticos contemporâneos, obtendo um resultado absolutamente belo e genial.

Na obra de Sêneca se observa a violenta dicotomia muito peculiar nessa maravilhosa baía de Nápoles, sempre sob o olhar do imponente Vesúvio ao fundo a nos dizer que este poderá ser nosso último momento. Desde a Roma Imperial, com o imperador Tíbério em Capri, os grandes senhores do império construíam seus palácios na baía, e lá um dos mais ricos magistrados da época construiu um esplendoroso palácio ao que todos exclamavam ao passar pela propriedade: Ó Vátia, só tu é que sabes viver. Ao mesmo tempo, confirmando o pêndulo entre Tânatos e Eros, Sêneca nos relata que Vátia, objeto de admiração externa por sua riqueza e poder, em verdade, vivia nas sombras em seu palácio, escondido do mundo e no maior sofrimento e solidão que se poderia suportar, que não passava de um escravo de sua própria riqueza.

E, com a série ‘A Amiga Genial’, conseguimos sentir que o mundo mudou, as coisas mudaram, mas, se prestarmos atenção, não mudaram tanto assim, ainda temos um longo e difícil caminho a percorrer, então que seja em Nápoles.

TODAY’S GUEST IN CINEMARCO IS LAWYER AND FRIEND PAULO DE TARSO CADEMARTORI.

I was invited by my friend Marco Antônio to write about a movie, series or whatever else I want. Touched by a sentimentality that appeared in the confines of the confines and in the perspective of total uncertainty about the future, I accept the invitation when choosing the series L’AMICA GENIALE (MY BRILLIANT FRIEND), by HBO. Self-absorbed, I find in the series the most legitimate nostalgia mixed with a touch of pure melancholy. I will not dare, as a modest provincial lawyer, to analyze the work of this great trend currently in Italy which is the work of Elena Ferrante, it is above my knowledge in literature, let alone the technical aspects of the filming of this brilliant series, because it does not I would dare to comment on Marco’s blog, the greatest cinema connoisseur I have met in my generation. Everyone that thoughts about cinema, thoughts Marco Antônio, and that since the days of High School at the Rosario, and then at the law school at PUC.

The series L’AMICA GENIALE (MY BRILLIANT FRIEND) was like a revival of Italian cinema now on the return trip to streaming. And this movement always has a taste and a longing for the works of the great: Visconti, Fellini, Bertolucci, Pasolini, De Sicca, Leone, Antonioni, Rossellini (holly names, any of them would consecrate the cinema of a culture). This Renaissance movement was kind of general in Europe and we will find it in Spain, France, Germany and England and it is more involved with the fabulous cinema in the USA. Returning to the series and allow me to skip the names of the two protagonists and face directly the construction of the personas of the two that, in the love of friendship, Lenu and Lila were built. Love that will enable them to overcome the marginal poverty that imposed their destiny, but also granted them the strength and extraordinary wealth of life and the power to live. You can’t see the series without suddenly finding yourself sobbing with emotion and that is already a differentiator of this story in relation to other similar ones.

But here I focus on aspects that often go unnoticed by an eminently technical look, as Marco likes. I am referring to the anguishing suffocation of life in a poor suburb of Naples, with the air of a concentration camp, which, closed to the world, reminds us of the feeling of imprisonment, as we feel today in the limitations that are imposed on us to live in the social isolation necessary to face the pandemic. The tunnel below the railway is the only way out to the outside world, to the different, to liberation. And the scene in which Lenu surpasses the tunnel when she wants to visit the sea even though she lives a few kilometers away is like a rite of passage from the world of Thanatos from the poor neighborhood to the liberating, creative and original world of Eros, a remarkable and unforgettable experience with strong cinematic impact. Something that can go unnoticed is the constant and uninterrupted passage of time that is indicated to us on the scene by the coming and going of the train that cuts through Campania, which time arrives or leaves Naples. And here, in this mysterious city, I want a connection between the constant dichotomy found in the film between Tânatos and Eros. For if we look at the intersubjectivities of that part of Italy, we identify where real life is lived in a radical way and not only in the work of Elena Ferrante.

Let us not forget about Napolitan songs, in which there are themes like seeing Naples and then dying or the exaltation of the majestic beauty of the Amalfi Coast, Capri and Ischia. Here, the author goes from an extreme of love and enthusiasm in opposition to abject sexual abuse, anguish of living, fear and death. In Ischia, everything happens and you can live from one pole to the other, but it makes up for the freedom of intense life. In the neighborhood that represses love, this is represented by the madwoman who spends her life waiting for the arrival of her lover who left for loving with voluptuousness and breaking the rules. The rules, rights and duties, obeying the idiosyncrasies that are still found in that part of Italy, the feared and camorristas brothers Solara and the Carracci who represent the death, violence, corruption, fear and repression of customs imposed on others and hypocritically lived without guilt or shame by the repressors on the sly. Nothing but fantastic the scene in which the entire Mafia and false structure of Solara in dependence and need to face the new world that knocks on their door surrenders to Lila’s creative and liberating genius. It transforms a trivial piece of conventional art placed as decoration in the modern shoe store, with an overwhelming fury of artistic creation cuts, cuts the painting and remakes it into new contemporary artistic parameters, obtaining an absolutely beautiful and brilliant result.

In Seneca’s work, a very peculiar violent dichotomy is observed in this wonderful bay of Naples, always under the eyes of the imposing Vesuvius in the background, telling us that this may be our last moment. From Imperial Rome, with Emperor Tiberius in Capri, the great lords of the empire built their palaces in the bay, and there one of the richest magistrates of the time built a splendid palace to which everyone exclaimed when passing by the property: Ó Vátia, just you is that you know how to live. At the same time, confirming the pendulum between Tânatos and Eros, Seneca tells us that Vátia, object of external admiration for his wealth and power, actually lived in the shadows in his palace, hidden from the world and in the greatest suffering and loneliness that could be bear, who was but a slave to his own wealth.

And with the series L’AMICA GENIALE (MY BRILLIANT FRIEND), we can feel that the world has changed, things have changed, but if we pay attention, they haven’t changed that much, we still have a long and difficult way to go, so be it in Naples.

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