O CINE THEATRO ORPHEU E UMA ARTE CATIVANTE

O CONVIDADO DE HOJE DO CINEMARCO É O DESEMBARGADOR APOSENTADO E ADVOGADO ANTONIO DALL’ AGNOL JUNIOR.

Cinco dinheiros (a preguiça me impede de verificar por onde, os brasileiros, navegávamos na época em termos de sistema monetário) faziam-me feliz o suficiente aos domingos à tarde. Com esta quantia, comprava dez balas “Frutana” (quantidade que foi diminuindo com a inflação) e um bilhete de ingresso (uma “entrada”) para o extraordinário mundo do cinema: Cine Theatro Orpheu.

No início, a preferência decorria de mera circunstância geográfica: morávamos, pais e irmãos, na Rua Coronel Bordini, na quadra que fica entre as Avenidas América e Cristóvão Colombo. Uma pequena caminhada e duas travessias – nada perigosas então – e estava sob a marquise do prédio construído pelos irmãos Pufal na Avenida Benjamin Constant.

Além das balas no bolso, abraçava uns tantos “gibis”, para circunstanciais trocas antes do início da sessão ou no seu intervalo. Sim, intervalo, pois, nas matinés, “passavam” dois filmes, para o regalo dos infantes e quase adolescentes e, seguramente, alguma tranquilidade dos pais.

De que felicidade era tomado – éramos todos  –, quando apagavam-se as luzes, abriam-se as cortinas, se bem me lembro, e se anunciavam, via trailers, os futuros filmes – geralmente os da semana entrante. Logo, dependendo da metragem dos “longas”, algum curta era exibido ou, no mínimo, um desenho animado.

Mas o prato principal, ou, no caso, principais, porque dois, eram os longa-metragens. Brilhavam rostos conhecidos e desconhecidos na tela, ainda não tão grandiosa, personagens com os quais nos identificávamos e, seguramente, depois da debandada final, estaríamos a mimetizar. Ao menos era o que ocorria comigo, nas brincadeiras que se desenrolavam no que nos parecia um enorme pátio da casa de nossos avós, pois tinha eu quase uma dezena de companheiros entre irmãos e primos.

Algum entrevero inicial poderia dar-se quanto a quem seria este ou aquele personagem, o foco mais no artista mesmo do que em sua representação circunstancial. Mas a isso superava-se com um meio qualquer de sorteio ou solução amigável. Pessoalmente, por  fascinado pelos extraordinários faroestes da época, era em algum personagem destes que me fixava: Burt Lancaster, John Wayne, William Holden, Paul Newman. (Clint Eastwood e os “spaghetti western” ainda não haviam chegado até nós.) Só não recordo de alguém pleitear os papeis de Jack Palance ou Anthony Quinn!

O Orpheu foi remodelado, anos depois, trocando de nome para Astor. Continuei a frequentá-lo, mas já agora em concorrência com outros – cines Colombo, Ypiranga, Eldorado, sem falar no moderníssimo Cine Teatro Presidente, com sua exuberante fachada, e alguma incursão pela área do Centro, prenhe de salas cinematográficas –, pois a idade já me permitia ultrapassar o “círculo doméstico”.

Na pré-adolescência, o Vogue, na Independência, tinha a minha preferência, mas aí os interesses já eram outros, o filme era um só, balas não tinha no bolso e “gibis” até de nome já haviam trocado.

Longo périplo pelo Interior, carente de (bons) cinemas, afastou-me da frequência, a isso somada a chegada do VHS.

O retorno a Porto Alegre fez-me reencontrar o Clube do Cinema, incentivado pelos irmãos Campos, que na condição de diretores arrebanhavam cinéfilos de todas as idades.

Por isso não me furtei ao gentil convite do Marco Campos para que tecesse algumas considerações sobre esta arte que, alcançando cativar, nunca mais nos permite abandoná-la.

TODAY’S GUEST FROM CINEMARCO IS RETIRED JUDGE AND LAWYER ANTONIO DALL ‘AGNOL JUNIOR.

Five moneys (laziness prevents me from checking where the Brazilians were sailing at the time in terms of the monetary system) made me happy enough on Sunday afternoons. With this amount, I bought ten “Frutana” candies (quantity that decreased with inflation) and an admission ticket (an “entrance”) for the extraordinary world of cinema: Cine Theatro Orpheu.

In the beginning, the preference was due to mere geographical circumstances: we lived, parents and brothers, in Rua Coronel Bordini, in the block that is between Avenidas América and Cristóvão Colombo. A short walk and two crossings – not dangerous then – and I was under the marquee of the building built by the Pufal brothers on Avenida Benjamin Constant.

In addition to the candies in my pocket, I hugged a few “comics”, for circumstantial exchanges before the start of the session or during his break. Yes, I take a break, then, at matinés, two films “showed”, for the pleasure of infants and almost teenagers and, certainly, some tranquility for their parents.

What happiness was taken – we were all – when the lights went out, the curtains were opened, if I remember correctly, and future films were announced via trailers – usually those of the coming week. Therefore, depending on the footage of the “features”, some short films were shown or, at least, an animated cartoon.

But the main course, or, in this case, the main ones, because two, were feature films. Known and unknown faces shone on the screen, still not so great, characters with whom we identified and, surely, after the final race, we would be mimicking. At least that was what happened to me, in the games that played out in what seemed to us a huge patio in our grandparents’ house, since I had almost a dozen companions among brothers and cousins.

Some initial argument could be made about who would be this or that character, the focus more on the artist than on his circumstantial representation. But this was overcome with some sort of drawing or friendly solution. Personally, because I was fascinated by the extraordinary westerns of the time, I was some of these characters that fixed me: Burt Lancaster, John Wayne, William Holden, Paul Newman. (Clint Eastwood and the “spaghetti western” had not yet reached us.) I just don’t remember anyone pleading for the roles of Jack Palance or Anthony Quinn!

Orpheu was remodeled, years later, changing its name to Astor Theater. I continued to visit it, but now in competition with others – Colombo, Ypiranga, Eldorado theaters, not to mention the extremely modern Cine Teatro Presidente, with its exuberant façade, and some foray into the downtown area, full of movie theaters – because age already allowed me to overcome the “domestic circle”.

In pre-adolescence, Vogue, in Independence Avenue, had my preference, but there the interests were already different, the film was just one, tehere was no candies in my pocket and “comic books” had even changed their names.

A long tour in countryside, lacking (good) movie theaters, took me away from the frequency, added to the arrival of VHS.

The return to Porto Alegre made me rediscover the Clube do Cinema, encouraged by the Campos brothers, who, as directors, gathered film fans of all ages.

That is why I did not shy away from Marco Campos’ kind invitation to make some considerations about this art that, reaching captivating, never allows us to abandon it.

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