CENAS TRÁGICAS E INESQUECÍVEIS

O CONVIDADO DE HOJE DO CINEMARCO É O DIRETOR, ATOR E PROFESSOR DE TEATRO ZÉ ADÃO BARBOSA

Nós atores normalmente fazemos um forte exercício de abstração quando assistimos a um filme.

Não podemos nos deter nos detalhes técnicos (fotografia, trilha, luz, atuação dos atores) e sim viajar na história contada para que ela nos comova e nos transforme de alguma maneira.

Tenho paixão por grandes cenas trágicas, aquelas que levam o cinema inteiro às lágrimas e vai ficar fixada para sempre na nossa memória afetiva.

Na tragédia grega, há dois mil e quinhentos atrás, o ato insano que levava Medéia a matar os filhos por vingança, ou Antígona aceitar a morte para não abrir mão do funeral do irmão, ou Édipo ao furar os olhos quando descobre que matou o pai e teve filhos com a própria mãe, chamava-se “desmedida”, são cenas que apenas grandes atores podem realizar devido à intensa emoção despendida em cena.

Para um cinéfilo como eu são muitas que vêm à cabeça mas destaco três que todos deverão lembrar.

Em “A Escolha de Sophia”, Sophia (Meryl Streep) tem que decidir qual dos dois filhos ficará com ela e qual será levado para a morte. A atuação da atriz é memorável, trágica, emocionante. Consegui ver apenas duas vezes o filme porque é uma cena que me perturba muito.

Em “Tudo Sobre minha Mãe” de Almodóvar, a cena em que Manuela (Cecília Roth) assiste ao atropelamento do filho que atravessa a rua para pegar um autógrafo da atriz que ele ama. O grito dado por Roth na cena nós chamamos em tragédia de “urro trágico”, o grito de desespero que só liberamos numa situação de emoção intensa.

Em “O Poderoso Chefão III” de Copolla, cena terrível em que a filha de Michael Corleone (Al Pacino), interpretada pela própria filha de Copolla (Sofia Copolla) é assassinada nas escadarias do teatro, ela apenas balbucia uma palavra: “pai”. Michael-Pacino se joga sobre o corpo da filha com um urro trágico de gelar o nosso sangue. Sempre pensei na emoção de Copolla filmando a morte da filha, mesmo que de forma fictícia.

CINEMARCO’S GUEST TODAY IS THEATER DIRECTOR, ACTOR AND TEACHER ZÉ ADÃO BARBOSA

We actors usually do a strong exercise of abstraction when watching a movie.

We cannot dwell on the technical details (photography, soundtrack, light, performance of the actors), but travel on the story told so that it moves us and transforms us in some way.

I have a passion for great tragic scenes, those that bring the whole movie theater to tears and will stay forever in our affective memory.

In the Greek tragedy, two and a half thousand years ago, the insane act that led Medea to kill her children for vengeance, or Antigone accepting death so as not to give up her brother’s funeral, or Oedipus to pierce his eyes when he finds out that he killed his father and had children with his own mother, was called “immoderate”, these are scenes that only great actors can perform due to the intense emotion spent on the scene.

For a movie buff like me, there are many scenes that come to mind but I highlight three that everyone should remember.

In “Sophie’s Choice”, Sophie (Meryl Streep) has to decide which of her two children will stay with her and which one will be taken to death. The actress’s performance is memorable, tragic, exciting. I was able to see the film only twice because it is a scene that disturbs me a lot.

In Almodóvar’s “ALL ABOUT MY MOTHER”, the scene in which Manuela (Cecília Roth) watches her son death when he run over the street to get an autograph from the actress he loves. The scream given by Roth on the scene we call in tragedy a “tragic howl”, the scream of despair that we only release in a situation of intense emotion.

In Copolla’s “The Godfather III”, a terrible scene in which Michael Corleone‘s (Al Pacino) daughter, played by Copolla’s own daughter (Sofia Copolla) is murdered on the steps of the theater, she just babbles a word: “dad”. Michael-Pacino throws himself on his daughter’s body with a tragic howl to freeze our blood. I always thought of Copolla’s emotion when filming his daughter’s death, even if in a fictitious way.

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