A PRIMEIRA VEZ

O CONVIDADO DE HOJE DO CINEMARCO É O ROTEIRISTA, FOTÓGRAFO E DIRETOR DE CENA GILBERTO PERIN (Instagram: @_gilbertoperin)

Calma, não é nada disso do que você está pensando. Vou explicar tudo.

SEQUÊNCIA 1 – Década de 1960, uma cidade pequena, típica do interior com 10 mil habitantes. Dois cafés, dois clubes e dois cinemas onde, todos os domingos, eu passava pelos menos quatro horas assistindo a dois longas, dois shorts e um cinejornal. Os filmes para chegar em Guaporé (RS) demoravam pelo menos uns cinco ou seis anos depois de lançados na Capital. Claro, nem todos os lançamentos eram exibidos na cidade, mas quando isso acontecia as latas vinham pelos ônibus da Leal que faziam a linha Guaporé-Porto Alegre.

SEQUÊNCIA 2 – Guaporé, 1967. Eu já me considerava adulto com meus 14 anos e queria ir ao cinema em horário de gente grande. Numa noite, perto das oito horas, fui ao Cine Guaporé, sem saber qual o filme programado. Surpresa. “Proibido para menores de 18 anos”, a faixa estava afixada sobre o cartaz de “A Falecida”.

Eu não sabia nada, nem a história do filme, nem que era brasileiro, nem os atores e nem a razão da proibição. Lembro que pensei que “A Falecida” devia ser um filme “de terror pesado, por isso a proibição”. Era dia de semana, não tinha muita gente, deixei todos entrarem e perguntei se podia assistir. O seu Leonardo que gerenciava o cinema respondeu que o filme era proibido. Devo ter feito alguma expressão de grande desapontamento porque alguns minutos depois ele voltou e disse: “Tá, entra, entra, senta na última fila e fica bem quieto”.

Assisti ao filme e lembro que pensei: “mas por que é proibido se não tem nada, nem gente pelada?”.  Eu não sabia que era um filme rodriguiano, sobre a hipocrisia e a moralidade da sociedade brasileira, uma crítica feroz dirigida por Leon Hirszman, com roteiro de Eduardo Coutinho. Mas a atriz principal me impressionou, tinha uma voz grave e olhos inesquecíveis. Fernanda Montenegro no seu primeiro papel no cinema interpretou uma mulher obcecada pela morte, cheia de moralidade sobre sexo, mas uma traição – comum nas obras de Nelson Rodrigues – fez com que o final do filme fosse revelador.               

O que lembro bem é da memorável cena dela tomando banho de chuva no pequeno pátio da casa. Aquela chuva lava a alma da personagem e se tornou uma das cenas icônicas e uma das mais belas do cinema brasileiro. É simples e emocionante, numa mistura de pureza e sensualidade, ao mesmo tempo em que a cena é praticamente a redenção de uma dona de casa frágil e trágica.

SEQUÊNCIA 3 – Porto Alegre, 1977, Fernanda Montenegro e o marido e ator Fernando Torres trazem para o Teatro Presidente a peça “É”, de Millôr Fernandes. Dez anos depois de “A Falecida”, eu trabalhava num jornal e fui escalado para uma entrevista com o casal que me convidou para almoçar no Restaurante Pampulhinha, ao lado do teatro.

O menino de Guaporé estava nervoso, afinal era a entrevista com “Zulmira”, a personagem do meu primeiro filme proibido para menores de 18. Ao final da entrevista contei para ela essa história, ela ouviu com atenção e perguntou: “O que você achou do filme?”. Nem lembro o que falei, isso não era o mais importante para mim. Minutos depois, a filha deles, Fernandinha, chegou do aeroporto pois vinha passar um tempo com pais em Porto Alegre. Reza a lenda que quando Fernandona fez “A Falecida”, ela estava grávida da filha Fernandinha.

SEQUÊNCIA 4 – São Paulo, 1976. Nesse ano, a peça do Grupo Província de Porto Alegre, “Pequenas Histórias do Bicho Homem” foi escolhida pelo projeto Mambembão da Funarte para uma temporada em São Paulo e Rio. Eu estava no elenco e após a estreia paulista fomos para o bar em frente ao Teatro de Arena, junto com o pessoal da classe artística de São Paulo que tinha ido assistir.

Sentado naqueles bancos sem encosto no balcão com forma arredondada, fiquei conversando com um diretor paulista que gostou muito do espetáculo. Assunto vai, assunto vem, fala disso, fala daquilo e na hora da despedida perguntei o nome dele. “Leon, Leon Hirszman”, disse ele. Surpresa total, eu tinha conversado por um bom tempo com o diretor de “A Falecida”, o meu primeiro filme proibido e que foi também o primeiro longa de Leon Hirszman.

SEQUÊNCIA adicional para depois dos créditos.

Hoje, penso que o filme proibido que eu queria assistir lá nos cinemas de Guaporé era algum daqueles que eram anunciados, de vez em quando, por um carro com alto-falante que andava pelas ruas da cidade.

 “Nessa quarta, não perca, às oito horas sessão para mulheres e às nove somente para homens. Assista ao mais recente filme de Naturismo sueco, é só nessa quarta.”

Mas esse tipo de filme, que o padre falava mal durante a missa, eu demoraria a assistir. Mas isso é outra história.

Se quiser assistir ao filme “A Falecida” acesse: https://www.youtube.com/watch?v=HsZxjCPIC9E

TODAY’S CINEMARCO GUEST IS THE SCREENWRITER, DIRECTOR OF PHOTOGRAPHY AND DIRECTOR GILBERTO PERIN (Instagram: @_gilbertoperin)

Calm down, that’s not what you’re thinking. I’ll explain everything.

SEQUENCE 1 – 1960s, a small town, typical of the countryside with 10,000 inhabitants. Two cafes, two clubs and two movie theaters where, every Sunday, I spent at least four hours watching two features, two shorts and a newsreel. The films to arrive in Guaporé (RS) took at least five or six years after being released in the Capital. Of course, not all releases were shown in the city, but when that happened, the movie (in cans) came by Leal Buses, a bus company that made the Guapore-Porto Alegre line.

SEQUENCE 2 – Guapore, 1967. I already considered myself an adult at the age of 14 and wanted to go to the cinema at a great time. One night, around eight o’clock, I went to Cine Guapore, not knowing which movie was scheduled. Surprise. “Prohibited for minors under 18”, the banner was posted on the “A Falecida” poster.

I knew nothing, neither the story of the film, nor that it was Brazilian, nor the actors or the reason for the ban. I remember that I thought “The Deceased” must be a “heavy horror film, therefore the ban”. It was a weekday, there weren’t many people, I let everyone in and asked if I could watch. Mr. Leonardo who managed the cinema replied that the film was prohibited. I must have made some expression of great disappointment because a few minutes later he came back and said: “Okay, come in, come in, sit in the last row and be very quiet”.

I watched the film and remember that I thought: “but why is it forbidden if there is nothing, nor naked people?” I didn’t know it was a rodriguiano film, about the hypocrisy and morality of Brazilian society, a ferocious criticism directed by Leon Hirszman, with a script by Eduardo Coutinho. But the lead actress impressed me, she had a deep voice and unforgettable eyes. Fernanda Montenegro in her first film role played a woman obsessed with death, full of morality about sex, but a betrayal – common in the works of Nelson Rodrigues – made the end of the film revealing.

What I remember well is the memorable scene of her taking a rain shower in the small courtyard of the house. That rain washes the character’s soul and became one of the iconic scenes and one of the most beautiful in Brazilian cinema. It is simple and exciting, in a mixture of purity and sensuality, at the same time that the scene is practically the redemption of a fragile and tragic housewife.

SEQUENCE 3 – Porto Alegre, 1977, Fernanda Montenegro and her husband and actor Fernando Torres bring the play “É”, by Millôr Fernandes, to the Presidente Theater. Ten years after “A Falecida”, I worked in a newspaper and was scheduled for an interview with the couple who invited me to have lunch at Restaurante Pampulhinha, next to the theater.

The boy from Guapore was nervous, after all it was the interview with “Zulmira”, the character of my first film prohibited for minors under 18. At the end of the interview I told her this story, she listened carefully and asked: “What did you think of the movie?”. I don’t even remember what I said, that wasn’t the most important thing for me. Minutes later, their daughter, Fernandinha, arrived from the airport as she came to spend time with parents in Porto Alegre. Legend says that when Fernandona did “A Falecida”, she was pregnant with her daughter Fernandinha.

SEQUENCE 4 – São Paulo, 1976. In that year, the play by the Porto Alegre Province Group, “Small Stories of the Bicho Homem” was chosen by Funarte’s Mambembão Project for a season in São Paulo and Rio. I was in the cast and after the premiere paulista we went to the bar in front of the Arena Theater, together with the people of the artistic class of São Paulo who had gone to watch.

Sitting on those backless benches at the rounded counter, I was talking to a São Paulo director who liked the show very much. Subject goes, subject comes, talk about it, talk about that and when I said goodbye I asked his name. “Leon, Leon Hirszman,” he said. Total surprise, I had talked for a long time with the director of “A Falecida”, my first forbidden film and that was also Leon Hirszman’s first feature.

Additional SEQUENCE, after credits.

Today, I think that the forbidden film that I wanted to watch there in Guapore’s movie theater was one of those that were advertised, from time to time, by a car with a loudspeaker that walked through the city streets.

“This Wednesday, don’t miss it, at eight o’clock session for women and at nine for men only. Watch the latest Swedish Naturism film, it’s only this Wednesday. ”

But this kind of film, which the priest spoke bad during Mass, I would last to see. But that is another story.

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