HOLLYWOOD NA ERA DOS REMAKES: Tendência ou Comodidade?

LAURA MEDEIROS É OUTRA VEZ A CONVIDADA DO CINEMARCO.

“Anunciado elenco para novo remake de Esqueceram de Mim”.

Eis a notícia que me deparo nestas últimas semanas, e logo pensei: nada mais é sagrado em Hollywood…”

Mais do que nunca, podemos observar uma certa tendência na indústria cinematográfica. Na qual grandes estúdios buscam recontar estórias de grandes clássicos do cinema com um viés mais moderno. Entretanto, eu sempre me pergunto quando vejo uma notícia como esta: será que esta tendência vem de um desejo genuíno de adaptar um filme para o público atual, mantendo assim, o legado da estória; ou seria mais uma das famosas fórmulas de sucesso para conseguir uma fácil alta bilheteria?

E é claro, que o maior alvo desta discussão é a Disney. Que, por sinal, é a responsável por produzir essa adaptação de Esqueceram de Mim – visto que é a detentora dos direitos do filme desde sua aquisição dos estúdios da 20th Century Fox, em 2019.

Desde 2010, após o lançamento da versão de Tim Burton de “Alice no País das Maravilhas”, a Disney tornou constante a produção de filmes baseados (ou copiados) de suas estórias originais. Cinderella, Aladdin, Bela e a Fera, Rei Leão e Dumbo são apenas alguns exemplos de filmes que passaram pelo tratamento de remake. Entretanto, se o objetivo dessas adaptações era manter o legado de seus antecessores, eu lhes pergunto: dentre esses remakes, qual você acredita que supera, ou pelo menos mantém o mesmo nível do original? Algum deles marcou o cinema da mesma forma que seus precursores?

Também acho que não.

Portanto, assim como muita gente, se eu tivesse de apresentar alguma destas estórias para as novas gerações, com a maior certeza seria o filme original. Não é a modernização de temas e técnicas que marcam filmes como atemporais, mas sim imortalizando-os com uma estória genuína de qualidade. Não é porque os efeitos do Rei Leão de 2019 são mais realistas que deixarei de assistir a animação de 1994, onde seus temas e personagens já estão imortalizados na memória.

Por exemplo, sou da geração do final dos anos 90 e cresci vendo clássicos do cinema e da animação, como Branca de Neve e Pinóquio. Filmes lançados a mais de meio século antes de eu sequer existir. Não foi preciso uma versão atualizada para que me atraísse por sua estória. Elas eram perfeitas na sua forma original.

Essa mesma tendência acontece com filmes de franquias, cujos estúdios insistem em lançar uma nova sequência a cada alguns anos – na esperança que o público se mantenha interessado em suas estórias e personagens (os infames cash cows).

Lembro-me de um dia na era pré Covid-19, quando andava pelo cinema do shopping e olhava para os pôsteres dos filmes prestes a serem lançados: Aladdin (remake), Toy Story 4, Rei Leão (remake), MIB: Homens de Preto Internacional, Godzilla II: Rei dos Monstros e X-Men: Fênix Negra.

Pronto, eu estava de volta aos anos noventa.

Mas por que estúdios compactuam com esta tendência?

– Nostalgia traz um público garantido, portanto é lucrativa.

Um dos desafios de criar uma história original é captar o interesse do público com algo que ele desconhece por completo. Em geral, o público consumidor de filmes tende a não arriscar nas suas escolhas quando se trata de decidir que filme ver no cinema.

Afinal, ir ao cinema pode ser uma experiência cara, e, portanto, a maioria dos espectadores não quer assistir acidentalmente a um filme que acabe se arrependendo de ter pago pra ver. Assim muitos acabam optando pelo filme em que possuem uma certa familiaridade, no qual já há uma emoção previamente moldada.

Ademais, a maioria das pessoas (antes do mundo em tempos de coronavírus) iam ao cinema numa média de uma vez por mês. E qual estúdio lança uma média de um filme por mês? A Disney, é claro. A protagonista nesta era de remakes e de franquias intermináveis (Star Wars e Marvel). Coincidência? Acho que não.

Mas devemos sempre nos perguntar: essa tendência é um problema?

Olha, reciclar é bom, mas nem tanto.

Me incomoda um pouco que os grandes estúdios arriscam pouco em novas estórias, como também que o público consumidor não se aventura a ver coisas diferentes no cinema. É difícil achar um ‘’culpado” neste sentido. É quase como se perguntássemos quem veio primeiro: o ovo ou a galinha? Estamos num ciclo vicioso.

Mas como tudo na vida, as coisas acabam. Como eu comentei antes, a era dos remakes e das grandes franquias é uma tendência, uma moda. Eventualmente acaba. Assim como nos anos 40 tivemos a era dos filmes noir e nos anos 60 dos clássicos do velho oeste, Hollywood, de uma maneira ou de outra, sempre se reinventa. Se é pra melhor ou pra pior, apenas o tempo dirá.

Também devo ressaltar que, adaptações e remakes, não são algo necessariamente ruins. Se feitos com genuinidade e zelo pelo seu antecessor, podem sim se tornar clássicos. Eis aqui alguns exemplos: Onze Homens e Um Segredo (1960; 2001) e Scarface (1932; 1983). A diferença entre estas adaptações e as atuais produzidas pela Disney é que seu objetivo não era recontar uma estória que fisgassem seu público pela nostalgia que o filme original lhes dera, mas sim por contextualizar temas e inserir um novo olhar sobre estória. Como Scarface fez com a imigração cubana na Flórida, e como Onze Homens e Um Segredo fez em deixar a trama mais dinâmica e divertida. A ideia original foi mantida, ela apenas foi contada de uma maneira diferente.

Assim como escrevi na minha crítica anterior sobre o filme Cats de 2019, adaptar uma estória é mais difícil do que pensamos. A adaptação de um filme, de uma geração para outra, vai além de superar termos técnicos e introduzir temas progressistas em seus personagens. É sobre respeitar a matéria prima na qual se baseia e adapta-la para que seja única e destaque-se em meio de tantos outros filmes.  Por isso vemos diversas interpretações de contos clássicos como o do Drácula ou Cinderella.

Béla Lugosi não é um melhor nosferatu do que Gary Oldman. Eles são diferentes olhares sobre um mesmo tema, um mesmo conceito.

E acredito que é isto que falta nos remakes de hoje. Muitos se apoiam em fazer técnicas shot-by-shot, reencenando cenas exatamente iguais aos seus antecessores. Façanha utilizada para instigar aquela nostalgia em seus espectadores e atrai-los para assistir ao filme. Não possui originalidade, tampouco um motivo para sua existência. É apenas a adaptação de uma animação que tanto amamos em life-action, só isso.

Entretanto, acredito que possa sair uma limonada nesse limão todo da era de remakes. Ao invés de adaptarem filmes cujos originais já são considerados clássicos de sucesso, vejo uma oportunidade em recontar as estórias daqueles que não obtiveram êxito no passado, mas com os anos obtiveram um cult following. Ou seja, filmes que merecem uma segunda chance, e mesmo que não sejam muito populares, ainda sim possuem um segmento de fãs, garantindo-lhes o público espectador.

Um bom exemplo seria uma nova versão do Caldeirão Mágico, de 1985. Considerado um dos maiores vexames da Disney no momento em que foi lançado, mas que desde então conquistou uma legião de admiradores. Em minha opinião seria algo muito digno de se fazer. Além de reconhecer os erros dos originais e tentar concerta-los em uma nova versão, abre-se a oportunidade para apresentar essas estórias para as gerações mais novas que desconhecem estes filmes menos populares. Assim os estúdios fisgam um público pela nostalgia que o filme remete e ainda possuem a possibilidade de captar uma nova audiência.

Não é preciso abrir mão dos remakes (ainda). Estúdios visam lucro de seus filmes e sempre procurarão artifícios que potencializem seus resultados. Apenas espero que saiam do comodismo de reproduzir histórias que já provaram seu sucesso no passado.

É como dizem os gringos…

If it ain’t broke, don’t fix it,

LAURA MEDEIROS IS AGAIN CINEMARCO GUEST .

“Cast announced for new remake of HOME ALONE“.

Here is the news that I have come across these past weeks, and I immediately thought: nothing else is sacred in Hollywood … ”

More than ever, we can observe a certain trend in the film industry. In which large studios seek to retell stories of great cinema classics with a more modern bias. However, I always wonder when I see news like this: does this trend come from a genuine desire to adapt a film for the current audience, thus maintaining the legacy of the story; or would it be one more of the famous formulas for success to achieve an easy high box office?

And of course, the biggest target of this discussion is Disney. Which, by the way, is responsible for producing this adaptation of HOME ALONE – since it has owned the film since its acquisition of the 20th Century Fox studios in 2019.

Since 2010, after the release of Tim Burton‘s version of “Alice in Wonderland”, Disney has steadily produced films based on (or copied from) their original stories. Cinderella, Aladdin, Beauty and the Beast, Lion King and Dumbo are just a few examples of films that have undergone remake treatment. However, if the purpose of these adaptations was to maintain the legacy of its predecessors, I ask you: among these remakes , which one do you believe surpasses, or at least maintains the same level as the original? Did any of them mark the cinema in the same way as their precursors?

I don’t think so either.

So, like a lot of people, if I had to present any of these stories to the new generations, it would most certainly be the original film. It is not the modernization of themes and techniques that mark films as timeless, but rather immortalizing them with a genuine quality story. It is not because the Lion King 2019 effects are more realistic that I will stop watching the 1994 animation, where its themes and characters are already immortalized in memory.

For example, I belong to the generation of the late 90s and grew up watching classic films and animation, such as Snow White and Pinocchio. Films released more than half a century before I even existed. It didn’t take an updated version to attract me to your story. They were perfect in their original form.

This same trend happens with franchise films, whose studios insist on launching a new sequence every few years – in the hope that the public will remain interested in their stories and characters (the infamous cash cows ).

I remember one day in the pre Covid-19 era, when I was walking around the mall’s cinema and looking at the posters of the films about to be released: Aladdin ( remake ), Toy Story 4, Lion King ( remake ), MIB: Men in Black International, Godzilla II: King of the Monsters and X-Men: Black Phoenix.

Okay, I was back in the nineties.

But why do studios agree with this trend?

– Nostalgia brings a guaranteed audience, so it is profitable.

One of the challenges of creating an original story is to capture the audience’s interest with something that they are completely unaware of. In general, film consumers tend not to risk their choices when it comes to deciding which film to see in the cinema.

After all, going to the cinema can be an expensive experience, and therefore most viewers do not want to accidentally watch a movie that they end up regretting having paid to see. So many end up opting for the film in which they have a certain familiarity, in which there is already a previously shaped emotion.

In addition, most people (before the world in times of coronavirus) went to the cinema on an average of once a month. And which studio releases an average of one movie per month? Disney, of course. The protagonist in this era of remakes and endless franchises (Star Wars and Marvel). Coincidence? I don’t think so.

But we must always ask ourselves: is this trend a problem?

But we must always ask ourselves: is this trend a problem?

Look, recycling is good, but not so much.

It bothers me a little that the big studios risk little in new stories, as well as that the consuming public does not venture to see different things in the cinema. It is difficult to find a ‘guilty’ in this regard. It’s almost like asking who came first: the chicken or the egg? We are in a vicious cycle.

But like everything in life, things end. As I mentioned before, the era of remakes and big franchises is a trend, a fashion. Eventually it ends. Just as in the 1940s we had the era of film noir and in the 1960s of the classics of the old west, Hollywood, in one way or another, always reinvents itself. Whether it’s for better or worse, only time will tell.

I must also point out that adaptations and remakes are not necessarily a bad thing. If made with genuineness and zeal for their predecessor, they can become classics. Here are some examples: OCEAN’S ELEVEN (1960; 2001) and Scarface (1932; 1983). The difference between these adaptations and the current ones produced by Disney is that their objective was not to retell a story that caught their audience for the nostalgia that the original film had given them, but for contextualizing themes and inserting a new look at the story. As Scarface did with Cuban immigration in Florida, and as OCEAN’S ELEVEN did in making the plot more dynamic and fun. The original idea was kept, it was just told in a different way.

As I wrote in my previous review of the 2019 Cats movie, adapting a story is more difficult than we think. The adaptation of a film, from one generation to another, goes beyond surpassing technical terms and introducing progressive themes in its characters. It is about respecting the raw material on which it is based and adapting it to be unique and stand out among so many other films. That is why we see several interpretations of classic tales like that of Dracula or Cinderella.

Béla Lugosi is no better nosferatu than Gary Oldman. They are different views on the same theme, the same concept.

And I believe this is what is missing from today’s remakes. Many rely on making shot-by-shot techniques, re-enacting scenes exactly like their predecessors. Achievement used to instill that nostalgia in its viewers and attract them to watch the film. It has no originality, nor a reason for its existence. It’s just the adaptation of an animation that we love so much in life-action, that’s all.

However, I believe that a lemonade can come out of this lemon from the remake era. Instead of adapting films whose originals are already considered successful classics, I see an opportunity to retell the stories of those who have not been successful in the past, but over the years have achieved a cult following. In other words, films that deserve a second chance, and even if they are not very popular, still have a segment of fans, guaranteeing them the audience.

A good example would be a new version of THE BLACK CAULDRON, from 1985. Considered one of Disney’s greatest embarrassments at the time it was launched, but which has since conquered a legion of admirers. In my opinion it would be a very worthy thing to do. In addition to recognizing the errors of the originals and trying to fix them in a new version, the opportunity opens up to present these stories to the younger generations who are unaware of these less popular films. So the studios hook an audience for the nostalgia that the film refers to and they still have the possibility to capture a new audience.

There is no need to give up remakes (yet). Studios aim to profit from their films and will always look for artifices that enhance their results. I just hope they will get out of the comfort of playing stories that have proven their success in the past.

It’s like the gringos say … If it ain’t broke, don’t fix it,

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