O CINEMA PELOS OLHOS DE PAI E FILHA

UMA DUPLA É A CONVIDADA DO CINEMARCO HOJE: O JORNALISTA ALEXANDRE BACH E SUA FILHA LARA YACOUB BACH.

Voltamos a escrever juntos, Lara e eu. Estava com saudades.

Em 2014, lancei com minha filha o livro César, uma aventura infanto-juvenil escrita a quatro mãos. Cada um construiu um capítulo, em revezamento, sobre a história de Valentina, uma corajosa menina que enfrentou um mistério no morro de Osório.

Pois agora o convite do Marco para falar sobre o cinema em nossas vidas nos une novamente, mas sem a harmonia que nos levou a dar vida e ação a Valentina. Já aviso que pai e filha têm sua maneira peculiar, e bem oposta, de ver o cinema.

Eu vejo como diversão. Como momento de felicidade. Não contem comigo para ficar duas horas no mágico ambiente da sala escura remoendo os densos sentimentos da vida. Não quero mensagens a me guiar para o todo e sempre abaixo do firmamento, não quero abordagens existenciais, não quero debate dos complexos problemas emocionais. Filme que criança sofre e morre? Esqueçam. Como alguém tem coragem de filmar algo assim? Como lição ao passar dos créditos finais, quero no máximo captar a astúcia do poderoso Don Corleone, que entre tantas coisas nos ensina que devemos manter os amigos próximos e os inimigos mais próximos ainda. Grande dica, capiche?

Então, longa vida aos Vingadores e ao malvado Thanos, a Eliot Ness e seus Intocáveis, ao apetite voraz de Hannibal Lecter, a todo agente do FBI que enfrenta um crime perfeito, a cada ator que se empodera do espírito de Indiana Jones e a cada atriz que se veste com a coragem da Mulher Maravilha, a cada mascarado que enfrenta os ruins com a determinação do Batman, a cada inspetor Clouseau que faz nascer risos, a cada Ethan Hunt que não desiste mesmo perante uma missão impossível.

São eles que me tiram de casa pela mão e me levam ao escurinho do cinema para momentos de alegria e descontração, não de sofrimento ao encarar os dissabores da complexidade dos sentimentos e das relações das pessoas. Isso a vida real já me oferece, à luz do dia.

Lendo os parágrafos acima, entendi por que Parasita não entrou na lista de filmes favoritos do meu pai tão facilmente quanto entrou na minha.

A mensagem que o filme traz sobre o conflito de classes está além do mero entretenimento e alívio cômico. Não só eu me diverti com a astúcia da família Kim enquanto assistia ao filme como também pensei “nossa, isso é tão Parasita…” ao testemunhar os temas da obra se materializando na vida real meses após tê-los visto no cinema. Como não chamar isso de entretenimento?

Meu pai faz uma ótima pintura do cinema como escape, e é claro que sempre buscamos esse escape de maneira positiva: alegre, descontraída e inofensiva. Mas, e quando o escape é igualmente prazeroso quando traz emoções questionadoras, tensas e até mesmo repulsivas? E quando aproveitamos para presenciar na tela grande algo que nunca veríamos ou sentiríamos na vida real, como sermos assustados por fantasmas ou lutarmos em guerras?

Para mim, contorcer-me de desconforto na cadeira enquanto assistia a O Farol foi um escape tão grande quanto assistir a um filme de super-herói. Rir e chorar simultaneamente ao entender o recado que Jojo Rabbit nos passa sobre humanidade e ternura foi um entretenimento tão valioso quanto apenas acompanhar um detetive sabichão em suas peripécias. E, logicamente, ninguém são sente prazer em ver crianças sofrendo e morrendo – mas acompanhar a dor e os traumas dos personagens que passam por isso em Hereditário, por exemplo, nos aproxima de quem precisa lidar com isso na vida real, nos tornando mais empáticos e compreensivos.

A conclusão que apresento aqui é que, na verdade, meu pai e eu concordamos em princípio: o cinema existe para nos transportar. Vai de cada um preferir ser transportado para mundos alegres e divertidos ou mundos que nos provocam e nos trazem desconforto. No fundo, esses mundos têm como papel nos fazer questionar nossos princípios e valores; até mesmo nos mundos de “puro entretenimento”, os preferidos de meu pai, temos metáforas e alusões a questões que assolam o espírito humano há tempos, como Luke Skywalker mantendo sua esperança de trazer seu pai de volta ao lado luminoso da Força. A diferença é que gosto quando um filme faz isso intencionalmente, seja usando alegrias ou tristezas, enquanto alguém que já viveu mais do que eu, já experimentou sensações pelas quais eu ainda aguardo, talvez prefira um filme que deixe as durezas da vida mais leves, mais imperceptíveis e toleráveis – mas elas ainda estão lá, mesmo que disfarçadas de mensagens alegres, vilões divertidos e heróis corajosos.

ONE DUO IS CINEMARCO’S GUEST TODAY: JOURNALIST ALEXANDRE BACH AND HIS DAUGHTER LARA YACOUB BACH.

We went back to writing together, Lara and me. I missed you.

In 2014, I released with my daughter the book César, a children’s adventure written with four hands. Each one constructed a chapter, in turn, on the story of Valentina, a brave girl who faced a mystery on the hills of Osório.

For now, Marco’s invitation to talk about cinema in our lives, unites us again, but without the harmony that led us to give life and action to Valentina. I already notice that father and daughter have their peculiar, and quite opposite, way of seeing cinema.

I see it as fun. As a moment of happiness. Don’t count on me to spend two hours in the magical environment of the dark room, brooding over the dense feelings of life. I don’t want messages to guide me to the whole and always below the firmament, I don’t want existential approaches, I don’t want to debate complex emotional problems. Film in which children suffer and die? Forget it. How can anyone dare to film something like this? As a lesson when passing the final credits, I want at most to capture the cunning of the powerful Don Corleone, who among so many things teaches us that we must keep friends close and enemies even closer. Big tip, capiche?

So, long life to the Avengers and the evil Thanos, Eliot Ness and his Untouchables, the voracious appetite of Hannibal Lecter, every FBI agent facing a perfect crime, every actor who empowers himself with the spirit of Indiana Jones and every actress who dresses with the courage of Wonder Woman, every masquerade who faces the bad with the determination of Batman, every inspector Clouseau that gives rise to laughter, every Ethan Hunt who does not give up even in the face of an impossible mission.

They are the ones who take me away from home by the hand and take me to the dark of the cinema for moments of joy and relaxation, not of suffering when facing the troubles of the complexity of people’s feelings and relationships. This is what real life already offers me, in the light of day.

Reading the paragraphs above, I understood why PARASITE didn’t make my dad’s list of favorite movies as easily as he did mine.

The message the film brings about class conflict is beyond mere entertainment and comic relief. Not only did I have fun with the Kim family’s cunning while watching the movie, but I also thought “wow, this is so Parasite…” when witnessing the work’s themes materializing in real life months after seeing them in the cinema. How can I not call this entertainment?

My father does a great painting of the cinema as an escape, and of course we always seek this escape in a positive way: cheerful, relaxed and harmless. But what about when the escape is equally pleasurable when it brings questioning, tense and even repulsive emotions? And when we take the opportunity to witness something on the big screen that we would never see or feel in real life, like being scared by ghosts or fighting wars?

For me, squirming in discomfort in my chair while watching The Lighthouse was as much of an escape as watching a superhero movie. Laughing and crying simultaneously when understanding the message that Jojo Rabbit gives us about humanity and tenderness was an entertainment as valuable as just accompanying a knowledgeable detective in his adventures. And, of course, no one is happy to see children suffering and dying – but following the pain and trauma of the characters who go through it in Hereditary, for example, brings us closer to those who need to deal with it in real life, making us more empathic and understanding.

The conclusion I present here is that, in fact, my father and I agree in principle: cinema exists to transport us. Everyone will prefer to be transported to happy and fun worlds or worlds that provoke and bring us discomfort. Deep down, these worlds have a role in making us question our principles and values; even in the “pure entertainment” worlds, my father’s favorites, we have metaphors and allusions to issues that have plagued the human spirit for some time, like Luke Skywalker maintaining his hope of bringing his father back to the luminous side of the Force. is that I like it when a film does it intentionally, whether using joys or sorrows, while someone who has lived longer than me, has already experienced sensations that I still await, perhaps prefers a film that makes life’s hardships lighter, more imperceptible and tolerable – but they are still there, even if disguised as cheerful messages, amusing villains and brave heroes.

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