QUANDO ÉRAMOS CULT E NÃO SABÍAMOS

O CONVIDADO DE HOJE DO CINEMARCO É O CINÉFILO JORGE GHIORZI

O ruído e a fumaça dos motores a diesel dos ônibus invadiam o pequeno hall de entrada. Pouco mais de três metros separavam o tráfego da avenida da pequena entrada no limite da calçada. O transeunte eventual, com um pequeno desvio de poucos passos, poderia acessar o ambiente e mergulhar imediatamente em um universo paralelo.

No ambiente acanhado do hall de entrada havia apenas a bilheteria, que ficava à direita. Envidraçada, inviolável, uma cabine enclausurada. Ali obtínhamos o passe livre para sonhar e viajar, sem combustível extra (ou sim, vai saber). Aquele era um espaço que fugia ao padrão dos demais congêneres da cidade. Naquele tempo a bilheteria representava apenas um acessório para mim, pois era um feliz proprietário das desejadas “carteiras permanentes”, fornecidas pelas distribuidoras locais. Fazia jus ao acesso livre nas salas de Porto Alegre por exercer a crítica de cinema em alguns jornais do interior do Rio Grande do Sul e Santa Catarina.

A escada ficava logo em frente. Um convite para acessar de imediato, sem rodeios, o andar superior. Cerca de 10 a 12 degraus (até onde a memória permite rememorar), um giro para a direita e mais 10 a 12 degraus, concluindo o segundo lance da escada. Mais um giro à direita, um pequeno e estreito trajeto ladeado pela parede e o mureta que nos separava do vão livre da escada. Mais um giro para a direita em direção à velha roleta catraca onde um sonolento bilheteiro/porteiro/lanterninha recolhia os ingressos. O ambiente era um tanto sufocante, beirando o claustrofóbico. Muito contribuíam para esta sensação a quase ausência absoluta de ventilação, o teto baixo, as paredes pretas e a iluminação modesta, quase penumbra. Alguns poucos cartazes de filmes expostos nas paredes. O lobby acanhado, pouco estimulante e convidativo, era um desestimulo para a devida apreciação dos títulos programados para as próximas semanas. Ao fundo, algo que deveria ser uma bomboniére, parcamente abastecida com balas azedinha, mocinho e menta, e o indefectível Mentex, na versão clássica da caixinha amarela.

Vencida esta etapa, uma pesada cortina preta deveria ser ultrapassada, antes de entrar na sala. O piso estalava sob os pés, desgastados carpetes cobriam as escadas laterais, as poltronas rangiam, o calor em dias de verão era insuportável. Nada contribuía para uma boa experiência. Nada? Engano. Tudo era perdoado, tudo era relevado, tudo era ignorado. Aquela não era uma sala de cinema qualquer. Aquela salinha abafada, pouco confortável, era em nossos corações o cinema de estimação, a nossa cinemateca. Não um espaço de lançamentos cinematográficos, mas o cantinho dos (re)encontros, das (re)descobertas. A mística do local transformava reprises em disputadas e desejadas “estreias”, daquelas de lotar todas as poltronas, sessão após sessão.

As luzes apagam. Um raio de luz percorre sobre nossas cabeças o caminho entre a cabine de projeção e a tela, revelando na trajetória brilhantes pontinhos prateados de luz, reflexos dos grãos de poeira suspensos no ar. Suspensos no tempo e espaço ficávamos nós, acomodados nas poltronas, que àquela altura já eram as mais confortáveis do mundo. Na fração de segundos, antes dos rolos de filme começarem a girar, olho para os lados e reconheço rostos conhecidos, companheiros de jornada: Woody Allen, Brian De Palma, Victor Erice, Alain Resnais, Carlos Saura, François Truffaut, Stanley Kubrick, Ingmar Bergman, Glauber Rocha, Louis Malle, Paul Mazursky, Dalton Trumbo, Peter Weir, Jean Luc Godard, Luis Buñuel, Andrzej Wajda, Werner Herzog, Mel Brooks, Ettore Scola, Robert Altman, Akira Kurosawa, John Carpenter, Krzysztof Kieslowski Federico Fellini, David Lynch, Nagisa Oshima e Alfred Hitchcock.

Silêncio. A sessão vai começar.

– Ah… que saudades do Bristol.

TODAY’S CINEMARK GUEST IS CINEPHILE JORGE GHIORZI

The noise and smoke from the diesel engines of the buses invaded the small lobby. A little more than three meters separated the traffic of the avenue from the small entrance at the edge of the sidewalk. The occasional passerby, with a small deviation of a few steps, could access the environment and immediately plunge into a parallel universe.

In the cramped lobby, there was only the ticket office, which was on the right. Glazed, inviolable, a closed cabin. There we got the free pass to dream and travel, without extra fuel (or yes, you will know). This was a space that was outside the standard of other city counterparts. At that time, the box office was just an accessory for me, as I was a happy owner of the desired “permanent wallets” provided by local distributors. I was entitled to free access in the theaters of Porto Alegre for exercising cinema criticism in some newspapers in the interior of Rio Grande do Sul and Santa Catarina.

The stairs were just ahead. An invitation to immediately access the upper floor without any problems. About 10 to 12 steps (as far as memory can remember), a turn to the right and another 10 to 12 steps, completing the second flight of stairs. One more turn to the right, a small, narrow path flanked by the wall and the short wall that separated us from the free span of the stairs. One more turn to the right towards the old turnstile roulette where a sleepy ticket clerk / porter / lantern man picked up tickets. The atmosphere was somewhat suffocating, bordering on claustrophobic. The almost total absence of ventilation, the low ceiling, the black walls and the modest, almost dim light contributed to this sensation. A few movie posters on the walls. The cramped lobby, which was not very stimulating and inviting, was a disincentive for the proper appreciation of the titles scheduled for the coming weeks. In the background, something that should be a bombonière, sparingly stocked with azedinhas, mints and the indefectible Mentex, in the classic version of the yellow box.

After this stage, a heavy black curtain should be overcome before entering the room. The floor crackled underfoot, worn carpets covered the side stairs, the chairs creaked, the heat on summer days was unbearable. Nothing contributed to a good experience. Nothing? Mistake. Everything was forgiven, everything was revealed, everything was ignored. This was not just any movie theater. That stuffy little room, uncomfortable, was in our hearts the loved theater, our cinematheque. Not a space for cinematographic releases, but the corner of (re) encounters, of (re) discoveries. The mystique of the place transformed reruns into disputed and desired “premieres”, from those of filling all the seats, session after session.

The lights go out. A ray of light travels over our heads the path between the projection booth and the screen, revealing in its trajectory brilliant silver dots of light, reflections of the grains of dust suspended in the air. Suspended in time and space, we were accommodated in the armchairs, which by then were already the most comfortable in the world. In the fraction of seconds, before the film rolls start to spin, I look sideways and recognize familiar faces, journey companions: Woody Allen, Brian De Palma, Victor Erice, Alain Resnais, Carlos Saura, François Truffaut, Stanley Kubrick, Ingmar Bergman, Glauber Rocha, Louis Malle, Paul Mazursky, Dalton Trumbo, Peter Weir, Jean Luc Godard, Luis Buñuel, Andrzej Wajda, Werner Herzog, Mel Brooks, Ettore Scola, Robert Altman, Akira Kurosawa, John Carpenter, Krzysztof Kieslowski Federico Fellini, David Lynch, Nagisa Oshima and Alfred Hitchcock.

Silence. The session will begin.

– Ah … I miss Bristol a lot.

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