Memórias de Cinema

A CONVIDADA DE HOJE DO CINEMARCO É A JORNALISTA LÚCIA MATTOS.

Meu amigo Marco Antonio Campos me pediu um texto sobre cinema para o seu blog. Fiquei pensando sobre o que escreveria porque é um tema tão abrangente né? Pois a resposta me veio em lembranças… imagens da infância, adolescência e juventude. Com minha mãe, meu pai, as amigas e, mais tarde, com os namorados e depois com o marido e os filhos. Então me dei conta que estava aí a resposta para o que o cinema significava pra mim. Cinema pra mim é memória!

Minha memória é péssima, mas dentro das minhas lembranças de vida, grande parte vem do cinema. E devo confessar que quando mais lembranças eu tinha das tardes e noites passadas nos cinemas de Porto Alegre, mais me alegrava essa “revisão do passado” através das telas. Assim veio minha primeira recordação: Grease – Nos Tempos da Brilhantina. Musical sobre a juventude dos anos 50, que estreou nas telonas brasileiras no final dos anos 70. Eu, com 9 anos, queria saber porque tanto falavam deste filme e fui com minha mae até o Cine Baltimore. Como uma menina não se encantaria com aquele visual rockabilly, com a voz da Olivia Newton-John e principalmente com o requebrado da jovem revelação John Travolta? Eu e todas as pré-adolescentes da época saímos do cinema suspirando e querendo estar na pele da Sandy só pra levar uma cantada do Danny…Até hoje tenho o LP e lembro das cançoõs daquele filme. E não é pra menos! Na época foi o segundo álbum mais vendido nos Estados Unidos.

Depois veio ET: O Extraterrestre, e junto com ele comecei a entender a força de um bom roteiro e a importância de um diretor. Era 1982. Eu tinha 11 anos e fiquei encantada com os efeitos especiais, a musica de John Williams e o tema tão bem conduzido por Steven Spielberg. A história de Elliott e seus irmãos tentando ajudar ET me fez chorar e voltar ao cinema pelo menos umas 3 três vezes mais. E lá ía a dona Valesca me levar no Cine Ritz na Protásio Alves… E eu não era a única a querer rever esse blockbuster. ET foi, por 11 anos, o filme de maior bilheteria de todos os tempos, sendo superado apenas 1993, por Jurrassic Park, também do gênio, Spielberg.

Se ET me deu o empurrão para gostar de cinema, quem me levou para o mundo dos grandes filmes e diretores sem dúvida nenhuma foi meu pai. Tive a sorte dele ter tido paciência e vontade de dividir comigo o bom gosto pela sétima arte. Dos meus 11 aos 16 anos, íamos semanalmente ao cinema. Todo domingo à noitinha. Pra ver de tudo! Porto Alegre nesta época teve o privilégio de ter um cinema como o Bristol e um programador como Tuio Becker. Crítico de cinema espetacular, foi chamado pela administração para organizar ciclos de filmes. E assim a pequena Sala Bristol, na Osvaldo Aranha, fez história com filmes antigos, ciclos de diretores e filmes cult. E assim eu descobri Carlos Saura com Cria Cuervos e o divertido e triste Mamãe Faz 100 anos. Nos domingos de cinema com meu pai, conheci a genialidade de Federico Fellini e a beleza dos suspenses de Hitchcock e fiquei chocada com Koyaanisqatsi e os questionamentos do diretor Godfrey Reggio neste documentário sobre a vida moderna e os desequilíbrios que ela trazia pro planeta numa época em que ninguém falava sobre isso. E a música de Philip Glass? Meu Deus o que era aquilo? Sem falar que as sessões sempre terminavam com um debate sobre o filme (obviamente uma aula de cinema pra mim) regado com o famoso famoso cachorro-quente do Zé do Passaporte, do outro lado da Osvaldo. E assim como o Bristol, Porto Alegre e eu tivemos a sorte de ter a Sala Vogue. Na esquina da avenida Independência com a Garibaldi, uma bando de gente fazia fila pra rever clássicos e novidades que os cinemas grandes não ousavam passar. Lá eu conheci Ingmar Bergman com seu Fanny & Alexander e morri de rir com O incrível Exército de Brancaleone, de Mario Monicelli.

Mas foi numa destas idas ao cinema com meu pai que descobri Coppola e seu Poderoso Chefão. E me apaixonei! E vi Vidas Sem Rumo, O Selvagem da Motocicleta, Cotton Club, O Fundo do Coração, com a trilha de Tom Waits que ate hoje me faz chorar. E num destes ciclos, já no Cinema ABC (lembram?), com meus amigos, assisti ao filme que mudaria minha visão sobre o cinema: Apocalypse Now. As imagens avermelhadas e de um calor insuportável, o som nervoso, e a busca angustiante do capitão Williard – de Martin Sheen, pelo ex-comandante das Forças Especiais Kurtz, vivido por Marlon Brando me comovem cada vez que revejo essa obra-prima. Até hoje meu filme preferido, Apocalipse Now me mostrou a capacidade extraordinária de um diretor como Coppola – pra mim um gênio – que vai desde um musical de amor todo rodado num cidade cenográfica até um filme impactante sobre a Guerra do Vietnã, passando pela história da máfia, numa trilogia que mudou a história do cinema.

Seja nas tardes divertidas com a minha mãe no Ritz, ou nos domingos inesquecíveis com meu pai no Bristol ou Sala Vogue. E depois nas noites de sabado com os amigos e namorados no ABC, Baltimore, e no Avenida, ou sozinha na Paulo Amorim, na P.F. Gastal e na Sala Redenção. Ou mais tarde com o marido e meus meninos nos cinemas de shopping vendo animações inesquecíveis como Toy Story, minha vida sempre teve cinema. E sou muito agradecida por isso. Por ter tido a oportunidade de viver de forma intensa estas salas que Porto Alegre teve, de ter dividido estas sessões com pessoas tão importantes pra mim, por ter aprendido muito com o cinema e com seus diretores maravilhosos! Foi incrível! E isso só aumenta meu desejo que essa pandemia passe logo pra gente voltar às telonas. Ah, e antes que eu me esqueça: obrigada Marco por me fazer relembrar tudo isso!

TODAY’S GUEST OF CINEMARCO IS THE JOURNALIST LUCIA MATTOS.

My friend Marco Antonio Campos asked me for a text on cinema for his blog. I was thinking about what I would write because it is such a comprehensive topic right? For the answer came to me in memories … images of childhood, adolescence and youth. With my mother, my father, my friends and, later, with my boyfriends and then with my husband and children. Then I realized that the answer was there for what cinema meant to me. Cinema for me is memory!

My memory is terrible, but within my memories of life, much of it comes from the cinema. And I must confess that the more memories I had of the afternoons and nights spent in the cinemas in Porto Alegre, the “review of the past” through the screens made me more happy. So my first memory came: Grease . Musical about the 50’s youth, which debuted on Brazilian screens in the late 70’s. I, at the age of 9, wanted to know why they talked about this film so much and went with my mother to Cine Baltimore. How could a girl not be enchanted with that rockabilly look, with the voice of Olivia Newton-John and especially with the smash of the young revelation John Travolta? Me and all the pre-teenagers of the time left the theater sighing and wanting to be in Sandy’s shoes just to get Danny to sing … Even today I have the LP and I remember the songs from that movie. And it’s not for less! At the time it was the second best-selling album in the United States.

Then came ET: The Extraterrestrial, and together with him I started to understand the strength of a good script and the importance of a director. It was 1982. I was 11 years old and I was delighted with the special effects, the music of John Williams and the theme so well conducted by Steven Spielberg. The story of Elliott and his brothers trying to help ET made me cry and go back to the movies at least three times more. And Valesca was going to take me to the Cine Ritz at Protásio Alves … And I wasn’t the only one who wanted to review this blockbuster. ET was, for 11 years, the highest grossing film of all time, surpassed only 1993, by Jurrassic Park, also of the genius, Spielberg.

If ET gave me the push to like cinema, it was my father who took me to the world of great films and directors, without a doubt. I was lucky that he had the patience and willingness to share with me the good taste for the seventh art. From 11 to 16, we went to the cinema weekly. Every Sunday evening. To see everything! Porto Alegre at this time had the privilege of having a cinema like Bristol and a programmer like Tuio Becker. Spectacular cinema critic, he was called by the administration to organize film cycles. And so the small Sala Bristol, at Osvaldo Aranha, made history with old films, cycles of directors and cult films. And so I discovered Carlos Saura with Cria Cuervos and the fun and sad Mamá Cumple 100 Años. On movie Sundays with my father, I got to know Federico Fellini‘s genius and the beauty of Hitchcock‘s suspenses and I was shocked by Koyaanisqatsi and the questions of director Godfrey Reggio in this documentary about modern life and the imbalances she brought to the planet at a time when that nobody talked about it. What about Philip Glass‘s music? My God, what was that? Not to mention that the sessions always ended with a debate about the film (obviously a film lesson for me) washed down with the famous famous hot dog from Zé do Passaporte, on the other side of Osvaldo. And just like Bristol, Porto Alegre and I were lucky to have Sala Vogue. At the corner of Avenida Independência and Garibaldi, a bunch of people lined up to review classics and news that big cinemas didn’t dare pass. There I met Ingmar Bergman with his Fanny & Alexander and died laughing with Mario Monicelli‘s L’ Armata Brancaleone.

But it was on one of these trips to the cinema with my father that I discovered Coppola and his Godfather. And I fell in love! And I saw THE OUTSIDERS, RUMBLE FISH, COTTON CLUB, ONE FROM THE HEART, with the soundtrack by Tom Waits that even today makes me cry. And in one of these cycles, already at Cinema ABC (remember?), With my friends, I watched the film that would change my view on cinema: Apocalypse Now. The reddish and unbearably hot images, the nervous sound, and the anguishing search for Captain Williard – by Martin Sheen, by the former commander of Special Forces Kurtz, experienced by Marlon Brando touches me every time I review this masterpiece. To this day, my favorite film, Apocalipse Now has shown me the extraordinary capacity of a director like Coppola – for me a genius – ranging from a love musical shot in a scenic city to an impactful film about the Vietnam War, going through the history of mafia, in a trilogy that changed the history of cinema.

Whether on fun afternoons with my mom at the Ritz, or on unforgettable Sundays with my dad at Bristol or Sala Vogue. And then on Saturday nights with friends and boyfriends at ABC, Baltimore, and Avenida, or alone at Paulo Amorim, at P.F. Gastal and at Sala Redenção. Or later with my husband and my boys in shopping mall cinemas watching unforgettable animations like Toy Story, my life has always had cinema. And I am very grateful for that. For having had the opportunity to live these rooms that Porto Alegre had in an intense way, for having shared these sessions with people so important to me, for having learned a lot from the cinema and from its wonderful directors! It was amazing! And that only increases my desire for this pandemic to pass soon so that we can return to the big screen. Oh, and before I forget: thank you Marco for making me remember all this!

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