CENSURA NO BRASIL: Cinéfilos em Rivera

O CONVIDADO DE HOJE DO CINEMARCO É FLÁVIO BALESTRERI.

Desde que me conheço por gente, a cidade uruguaia de Rivera, fronteira com Santana do Livramento, mesmo quando ainda não existiam os free shops, sempre atraiu os turistas brasileiros interessados nos excelentes produtos de lã e nas delicias gastronômicas do país vizinho.

Nas décadas de 1960 e 1970, no momento em que o nosso país passava por um período de censura política e cultural, os cinéfilos brasileiros tinham uma outra motivação para ir a Rivera: a possibilidade de assistir na íntegra filmes proibidos Brasil (ou liberados com cortes). Vinham caravanas dos mais diversos locais do Estado e de outras regiões.

Quem morava por lá, como eu, costumava ficar ligado na ação dos censores, que sem saber, nos davam dicas sobre o que deveríamos ver ou ouvir. No caso de filme pouco conhecido a propaganda boca a boca ajudava. E os cinemas colaboravam destacando na divulgação que o filme estava proibido no Brasil.

Uma das vantagens era que, por possuir uma classificação etária mais branda, alguns filmes proibidos para menores de 18 anos de idade no Brasil eram liberados no Uruguai para maiores de 15 anos. Na época, Isso me permitiu assistir alguns filmes marcantes.

Um dos primeiros foi Z, obra-prima do grego Costa-Gavras, baseado em um acontecimento real no início da década de 60, na Grécia. Mostra a investigação sobre a morte de um político liberal sendo encoberta por uma rede de corrupção e ilegalidade na polícia e no exército. Elenco estupendo: Yves Montand, Irene Papas, Jean-Louis Trintignant, Charles Denner, Renato Salvatori, entre outros. E música de Mikis Theodorakis. Inesquecível. Só foi liberado no Brasil em 1980.

O LP com a trilha do filme já andava rodando no meu toca-discos quando chegou SEM DESTINO, de Dennis Hopper. Me encantei com a aventura dos dois motoqueiros hippies, Wyatt (Peter Fonda) e Billy (Hopper), embalados pelo som de Steppenwolf (Born to Be Wild), The Byrds, The Band, Jimi Hendrix, entre outros, embarcando numa viagem até Nova Orleans para ver o mardi gras, o carnaval da região. E ainda tem Jack Nicholson numa participação curta, mas marcante. Foi o road movie símbolo da minha geração. É o MEU filme cult. Vejo e revejo sempre que posso. Se pudesse levar um filme comigo para a outra vida, certamente seria EASY RIDER. E o vinil iria junto, é claro.

SACCO & VANZETTI, do italiano Giuliano Montaldo, aborda a história real de Nicola Sacco (Riccardo Cucciolla) e Bartolomeo Vanzetti (Gian Maria Volontè), imigrantes italianos trabalhando nos EUA nos anos 1920 e que são condenados à pena de morte injustamente devido a uma acusação falsa e forjada de homicídio: na verdade a condenação de ambos ocorreu devido às suas ideias anarquistas, às suas convicções políticas e aos preconceitos contra imigrantes, sindicalistas e ativistas de esquerda. Destaque para a trilha sonora que contou com a participação da cantora Joan Baez , interpretando a música Here’s to You, e do maestro Ennio Morricone – a sua bela música “Balada de Sacco e Vanzetti” (também na voz de Joan Baez).

Dirigido e adaptado para o cinema por Stanley Kubrick, LARANJA MECÂNICA, baseado no romance homônimo de Anthony Burgess, reflete sobre temas como a delinquência juvenil, a psiquiatria, o livre arbítrio e a corrupção moral das autoridades. Perturbador e repleto de imagens cruas de violência, se tornou um filme cult,  uma das obras mais icônicas de Kubrick. Na noite, após assistir o filme, tive pesadelos com os atos de violência gratuita da gangue de jovens marginais  liderada por Alex DeLarge (Malcom McDowell inesquecível). Em 1978, o filme foi liberado no Brasil para maiores de 18 anos e com as famigeradas bolinhas pretas tapando as partes íntimas dos atores nas cenas de nudez.

Perdi de ver em Rivera EMMANUELLE, de Just Jeackin, pois já estudava fora da cidade. E acho que ÚLTIMO TANGO EM PARIS, de Bernardo Bertolucci, não teve tempo de ser exibido por lá. Em 1973 começava uma ditadura militar autoritária e brutal que levou o Uruguai a doze anos de escuridão. Triste.

TODAY’S CINEMARCO GUEST IS FLÁVIO BALESTRERI.

Since I got to know myself, the Uruguayan city of Rivera, bordering Santana do Livramento, even when duty-free shops did not yet exist, has always attracted Brazilian tourists interested in the excellent wool products and gastronomic delights of the neighboring country.

In the 1960s and 1970s, at a time when our country was going through a period of political and cultural censorship, Brazilian moviegoers had another motivation to go to Rivera: the possibility to watch films banned from Brazil in full (or released with cuts) ). Caravans came from the most diverse places in the State and from other regions.

Those who lived there, like me, used to stay connected to the censors, who unknowingly gave us tips on what we should see or hear. In the case of a little-known film, word of mouth advertising helped. And the cinemas collaborated by emphasizing in the disclosure that the film was banned in Brazil.

One of the advantages was that, because it had a milder age rating, some films prohibited for children under 18 years of age in Brazil were released in Uruguay for those over 15 years of age. At the time, it allowed me to watch some remarkable films.

One of the first was Z, a masterpiece by the Greek Costa-Gavras, based on a real event in the early 1960s, in Greece. It shows the investigation into the death of a liberal politician being covered up by a network of corruption and illegality in the police and the army. Stunning cast: Yves Montand, Irene Papas, Jean-Louis Trintignant, Charles Denner, Renato Salvatori, among others. And music by Mikis Theodorakis. Unforgettable. It was only released in Brazil in 1980.

The LP with the soundtrack of the film was already running on my record player when it arrived EASY RIDER, by Dennis Hopper. I was enchanted by the adventure of the two hippy bikers, Wyatt (Peter Fonda) and Billy (Hopper), rocked by the sound of Steppenwolf (Born to Be Wild), The Byrds, The Band, Jimi Hendrix, among others, embarking on a trip to Nova Orleans to see the mardi gras, the region’s carnival. And there is still Jack Nicholson in a short but striking appearance. It was the road movie symbol of my generation. It’s MY cult movie. I see and review it whenever I can. If I could take a movie with me to the next life, it would certainly be EASY RIDER. And the vinyl would go with it, of course.

SACCO & VANZETTI, by Italian Giuliano Montaldo, discusses the real story of Nicola Sacco (Riccardo Cucciolla) and Bartolomeo Vanzetti (Gian Maria Volontè), Italian immigrants working in the USA in the 1920s and who are unjustly sentenced to death on an accusation false and forged homicide: in fact the condemnation of both occurred due to their anarchist ideas, their political convictions and prejudices against immigrants, union members and left-wing activists. Highlight for the soundtrack that included the participation of the singer Joan Baez, interpreting the song Here’s to You, and the conductor Ennio Morricone – his beautiful song “Balad of Sacco e Vanzetti” (also in the voice of Joan Baez).

Directed and adapted for the cinema by Stanley Kubrick, CLOCKWORK ORANGE, based on the novel of the same name by Anthony Burgess, reflects on themes such as juvenile delinquency, psychiatry, free will and moral corruption by the authorities. Disturbing and full of raw images of violence, it became a cult film, one of Kubrick’s most iconic works. That night, after watching the movie, I had nightmares about the acts of gratuitous violence by the gang of marginal kids led by Alex DeLarge (Malcom McDowell unforgettable). In 1978, the film was released in Brazil for over 18 years old and with the infamous black balls covering the actors’ private parts in the nude scenes.

I missed seeing Rivera EMMANUELLE, by Just Jeackin, as I was already studying outside the city. And I think that LAST TANGO IN PARIS, by Bernardo Bertolucci, didn’t be shown there. In 1973, an authoritarian and brutal military dictatorship began that led Uruguay to twelve years of darkness. Sad.

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