O CINEMA DA MELANCOLIA E DA VIDA

O CONVIDADO DE HOJE DO CINEMARCO É ERON DUARTE FAGUNDES.

Levado pelo tocante texto evocativo de meu amigo Marco Antonio Bezerra Campos em torno do lançamento em Porto Alegre do filme Cinema Paradiso, desenterro de meu cemitério de textos nunca publicados minhas anotações escritas, no calor da hora, em três março de 1990, sobre este que é o melhor filme de Tornatore. Situando: o texto que segue foi escrito por um cinéfilo de trinta e quatro anos; está aí como foi então escrito, sem nenhuma mudança, vocabular ou de pontuação. (Vi o filme duas vezes em 1990; nunca mais o revi).

Apesar da melancolia de sua mensagem final (os pequenos cinemas do interior estão sendo fechados pelo desinteresse do público), Cinema Paradiso (Nuevo Cinema Paradiso; 1989), filme realizado pelo italiano Giuseppe Tornatore, é uma obra cheia de vida, cheia de amor ao cinema. A paixão pela arte da tela é o que anima a estrutura íntima da narrativa de Giuseppe Tornatore; em todos os momentos da vida do garoto Totó, desde os tempos de sua meninice como coroinha e amigo do velho operador Alfredo, que fica cego e lhe ensina a projetar os filmes e com quem o menino obtém os pedaços de celuloide cortados das fitas pela censura do padre local, até a época em que ele já adulto se torna cineasta em Roma e volta para o enterro de Alfredo, evocando tudo o que se passou com sua existência, o cinema é companheiro inseparável.

A autenticidade das emoções do filme faz com que se pense que Cinema Paradiso tenha muito de autobiográfico, tenha muito das experiências (senão factuais, pelo menos afetivas) do diretor Tornatore. Senão, como explicar aquele belíssimo instante de cinema em que Totó adulto diante de seu quarto de infância, decorado por sua mãe com cacarecos da época, fotografias várias (algumas com o operador Alfredo) e cartazes de cinema? Enquanto a câmara descreve uma breve panorâmica pelo cenário e a música invade nossos sentidos, o olhar de Totó, que é o olhar da câmara, se confunde com o nosso próprio olhar. Nós somos Totó, cinemeiros inveterados.

Cinema Paradiso resgata a grandiosidade e a objetividade do melhor cinema italiano. Fartamente influenciado pelas concepções estéticas do neorrealismo, adaptadas à forma narrativa dos anos 80, este trabalho de Tornatore é uma sensível homenagem aos amantes do cinema no mundo inteiro. Também o alemão Wim Wenders falava da decadência dos cinemas de interior em Com o passar do tempo (1975), só que tudo era feito à sombra nervosa do expressionismo que marca a arte alemã. Em Cinema Paradiso a alegria, o caráter extrovertido dos italianos não deixam sombra alguma. Só com uma ponta de amargura. Melancolia é com a Península.

Taken by the touching evocative text of my friend Marco Antonio Bezerra Campos about the release in Porto Alegre of the film Cinema Paradiso, I dig up from my cemetery of texts never published my notes written, in the heat of the hour, on March 3, 1990, about this is Tornatore’s best film. Situating: the text that follows was written by a thirty-four year old movie buff; it is there as it was written then, without any change, vocabulary or punctuation. (I saw the film twice in 1990; I never saw it again.)

Despite the melancholy of its final message (small cinemas in the interior are being closed due to lack of interest from the public), Cinema Paradiso (Nuevo Cinema Paradiso; 1989), a film directed by Italian Giuseppe Tornatore, is a work full of life, full of love for movie theater. The passion for canvas art is what animates the intimate structure of Giuseppe Tornatore’s narrative; in every moment of the Totó boy’s life, since his childhood as an altar boy and friend of the old movie operator Alfredo, who goes blind and teaches him how to project the films and with whom the boy obtains the pieces of celluloid cut from the tapes by the censors from the local priest, to the time when he became an adult and became a filmmaker in Rome and returned to Alfredo’s funeral, evoking everything that happened with his existence, cinema is an inseparable companion.


The authenticity of the film’s emotions makes one think that Cinema Paradiso is very autobiographical, has many of the experiences (if not factual, at least emotional) of director Tornatore. Otherwise, how to explain that beautiful movie moment in which Totó an adult in front of his childhood room, decorated by his mother with trinkets of the time, several photographs (some with the operator Alfredo) and movie posters? While the camera gives a brief overview of the scenery and the music invades our senses, Totó’s gaze, which is the camera’s gaze, is confused with our own gaze. We are Toto, inveterate filmmakers.


Cinema Paradiso rescues the grandeur and objectivity of the best Italian cinema. Strongly influenced by the aesthetic conceptions of neorealism, adapted to the narrative form of the 80s, this work by Tornatore is a sensitive tribute to film lovers all over the world. The German Wim Wenders also spoke of the decay of interior cinemas in Over time (1975), but everything was done in the nervous shadow of expressionism that characterizes German art. In Cinema Paradiso the joy, the extroverted character of the Italians leaves no shadow. Just a hint of bitterness. Melancholy is a Peninsula’s thing..

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