JOHNNY VAI À GUERRA: O Único Filme Dirigido por Dalton Trumbo

O CONVIDADO DE HOJE DO CINEMARCO É O CINÉFILO E AMIGO FLÁVIO BALESTRERI.

Recentemente, li mais uma vez o livro “A Cidade das Redes – Hollywood nos Anos 40”, de Otto Friedrich, sobre a era de ouro do cinema. Acho interessante o folclore da época, os casos amorosos de Charlie Chaplin, os vexames de Samuel Goldwyn, as canalhices de Louis B. Meyer, os rompantes de Orson Welles. Mas também as brigas dos astros com os chefões dos grandes estúdios, o fracasso de alguns escritores famosos em escrever roteiros para cinema, e muitas outras coisa sobre atores e atrizes, produtores e diretores, líderes sindicais, jornalistas e políticos.

Mas o capítulo a que sempre dedico especial atenção é o que trata da nefasta “Lista Negra de Hollywood”, uma relação com nomes de roteiristas, atores, diretores, músicos e demais artistas para boicotar simpatizantes do Comunismo e lhes negar emprego.

No início de 1948, dez artistas, a maioria deles roteiristas, foram condenados a um ano de prisão por suas crenças políticas. Ficaram conhecidos como “Os Dez de Hollywood”. Entre eles estava o escritor e roteirista Dalton Trumbo.

Quem assistiu TRUMBO – LISTA NEGRA, magnífico filme realizado por Joy Rauch em 2015, conheceu um pouco do inferno que se transformou a vida de Trumbo e sua família por ele constar da tal lista.

Celebrizado por seus roteiros, que originaram filmes como SPARTACUS (1960), O ÚLTIMO PÔR DO SOL (1961), SUA ÚLTIMA FAÇANHA (1962), OS CAVALEIROS DE BUZKASHI (1971) e PAPILLON (1973), Trumbo roteirizou e dirigiu um dos melhores filmes sobre os horrores da Primeira Guerra Mundial, JOHNNY VAI À GUERRA (1971), adaptado do romance de sua autoria, que ficou censurado por alguns anos, e o levou a sofrer perseguição política. Por coincidência, o livro foi publicado nos EUA originalmente em 1939, mesmo ano do início da Segunda Guerra.

Estrelado por Timothy Bottoms, Kathy Fields, Jason Robards, Donald Sutherland, e com direito a uma pequena participação do próprio Trumbo, JOHNNY VAI À GUERRA trata da tragédia do soldado Joe Bonham (Bottoms) que, em meio à guerra, ao pisar numa mina, tem seu jovem corpo reduzido a quase nada. Seus braços, pernas, foram arrancados. Sua face destruída (a mina arrancou seu maxilar). Está cego, surdo e mudo.

Quando o que restou do soldado chega ao hospital, os médicos não sabem o que fazer. Assim ele passa a ser mais um objeto de curiosidade/estudo, do que um paciente na verdade.

Quando acorda, o soldado aos poucos vai se dando conta de sua real situação, apenas um tronco e uma cabeça sem rosto. Somente seu cérebro funciona.

O desespero é imenso. Sem possibilidades de escapar da sua prisão, resta apenas a ele relembrar sua vida. E aqui entram as cores. Sim, o presente, o sofrimento atual vivido pelo soldado, é mostrado em preto e branco. Suas alucinações, lembranças, sonhos, surgem em cores.

Talvez a cena mais comovente do filme seja quando Johnny tenta se comunicar com o mundo exterior golpeando o que sobrou de sua cabeça contra a cama, enviando um SOS contínuo, até a exaustão, com a enfermeira ao seu lado, vendo ele se agitar desesperadamente.

O filme, que completou meio século neste ano, recebeu o Prêmio Especial do Júri e o Prêmio da Crítica, no Festival de Cannes de 1971, onde estreou no mês de maio. E pensar que esse notável manifesto antibelicista foi banido do nosso país em tempos de Ditadura e AI-5, sendo exibido no Brasil só em agosto de 1981.

Assisti JOHNNY VAI À GUERRA em outubro de 1982 no saudoso Cine Bristol que, na época, tinha como seu programador o não menos saudoso Romeu Grimaldi.

TODAY’S GUEST OF CINEMARCO IS MY FRIEND AND CINEPHILE FLÁVIO BALESTRERI.

Recently, I read once again the book “The City of Networks – Hollywood in the 40s”, by Otto Friedrich, about the golden age of cinema. I find the folklore of the time interesting, the love affairs of Charlie Chaplin, the vexations of Samuel Goldwyn, the swindles of Louis B. Meyer, the outbursts of Orson Welles. But also the fights of the stars with the big studio bosses, the failure of some famous writers to write screenplays for movies, and many other things about actors and actresses, producers and directors, union leaders, journalists and politicians.

But the chapter I always pay special attention to is the nefarious “Hollywood Black List”, a relationship with the names of screenwriters, actors, directors, musicians and other artists to boycott communist sympathisers and deny them jobs.

At the beginning of 1948, ten artists, most of them screenwriters, were sentenced to one year in prison for their political beliefs. They became known as the “Hollywood Tens”. Among them was writer and screenwriter Dalton Trumbo.

Those who watched TRUMBO, a magnificent film directed by Joy Rauch in 2015, got to know a little bit of the hell that changed the life of Trumbo and his family because he was on that list.

Celebrated for his screenplays, which gave rise to films such as SPARTACUS (1960), THE LAST SUNSET (1961), LONELY ARE THE BRAVE (1962), THE HORSEMAN (1971) and PAPILLON (1973), Trumbo scripted and directed one of the best films about the horrors of the First World War, JOHNNY GOT HIS GUN (1971), adapted from his novel, which was censored for some years, and caused him to suffer political persecution. Coincidentally, the book was originally published in the US in 1939, the same year the Second World War began.

Starring Timothy Bottoms, Kathy Fields, Jason Robards, Donald Sutherland, and featuring a small appearance by Trumbo himself, JOHNNY GOT HIS GUN deals with the tragedy of soldier Joe Bonham (Bottoms) who, in the midst of the war, to stepping into a mine has his young body reduced to almost nothing. His arms, legs, were ripped off. His face destroyed (mine ripped out his jaw). He is blind, deaf and dumb.

When what’s left of the soldier arrives at the hospital, the doctors don’t know what to do. So he becomes more of an object of curiosity/study than a patient actually.

When he wakes up, the soldier gradually becomes aware of his real situation, just a torso and a faceless head. Only his brain works.

The despair is immense. With no possibility of escaping his prison, he just has to remember his life. And here comes the colors. Yes, the present, the current suffering experienced by the soldier, is shown in black and white. His hallucinations, memories, dreams arise in color.

Perhaps the most moving scene in the movie is when Johnny tries to communicate with the outside world by slamming what’s left of his head against the bed, sending a continuous SOS, into exhaustion, with the nurse at his side, watching him go shake desperately.

The film, which turned half a century this year, received the Special Jury Prize and the Critics Prize at the 1971 Cannes Film Festival, where it premiered in May. And to think that this remarkable anti-war manifesto was banned from our country during the dictatorship and AI-5, being shown in Brazil only in August 1981.

I watched JOHNNY GOT HIS GUN in October 1982 at the late Cine Bristol, which at the time had the  late Romeu Grimaldi as its programmer.

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