O CONSTRUTOR E SUAS MULHERES

O CONVIDADO DE HOJE DO CINEMARCO É ERON DUARTE FAGUNDES.

INTRODUÇÃO: Isabella Maciel de Sá publicou neste blog de Marco Antonio Bezerra Campos um texto evocando seu filme favorito, O silêncio os inocentes (1991), de Jonathan Demme. Por ora, vou entrar neste desafio não exatamente falando de meu filme favorito entre todos na história do cinema (escolha complicada), mas fazendo considerações sobre um filme de Demme de que gosto mais entre todos os que ele realizou. Creio que o filme não chegou a habitar os cinemas de Porto Alegre; catei-o na internet, este nicho que nós, habitantes das clássicas cavernas escuras que são as salas víamos no princípio com desconfiança e agora é em muitos casos nossa salvação. Abaixo.

O realizador americano Jonathan Demme fez o filme que talvez desejasse fazer ao longo de toda a sua vida, em Solness, o construtor (A master builder; 2014), uma transposição para o cinema das sinuosas ideias que o dramaturgo norueguês Henrik Ibsen edificou em sua peça homônima de 1892. Como muitos dos diretores de sua geração, hesitantes entre a vocação artística e as necessidades industriais impostas pelos produtores, Demme ficou, em boa parte do tempo, no meio do caminho do que poderia realizar como cinema; o sucesso veio com Totalmente selvagem (1986) e O silêncio dos inocentes (1994), mas quem se interessa pela meditação cinematográfica sabia que estes filmes não traziam tudo o que pretendiam, embora nunca se soubesse como seria esse tudo; um de seus trabalhos que parecia aproximar-se do escopo de Demme, caso não estivesse tão incrustado na busca do grande público, foi o documentário Neil Young, heart of gold (2006), uma força estética quase isolada em sua filmografia.

Demme faleceu em 2017, aos 73 anos. Solness, o construtor foi seu penúltimo filme. E nunca Demme foi tão rigoroso numa narrativa cinematográfica. Com roteiro de Wallace Shawn, que também interpreta o papel central, o filme de Demme utiliza rostos característicos, desglamurizados e expressivos que se põem bastante à distância das formas interpretativas costumeiras no cinema, especialmente no cinema americano dos grandes circuitos; agindo com esta  estética de sombrios muito própria, Demme abre sua narrativa para as nuanças elaboradas e muitas vezes secretas do universo simbólico construído no século retrasado por Ibsen. Como sua personagem, um homem que  edifica prédios, Demme se materializa em imagens à maneira dum construtor cinematográfico: nada escapa ao detalhismo frio e despojado de sua câmara e à precisão de sua marcação com os intérpretes.

Dentro da cena, o construtor vivido por Shawn com sua invenção de expressões únicas é acossado por suas mulheres. Sua esposa circunspecta, muitas vezes em silêncios e poucas e cruas palavras. A empregada. A jovem que o vem visitar. Todas amorosas, com todas estas figuras femininas a personagem do construtor tem uma relação afetiva, e com cada personagem feminina uma afeição de diferente nuança. O denominador comum entre as afeições é uma aproximação ao feminino marcada pela excentricidade indelével. Nas relações com os homens (o namorado da empregada, o médico), homens que são possíveis rivais, surgem curvas, vaivéns, no fundo monitorados pelas mulheres que se vão interpondo, nas marcações, entre Solness e esses outros indivíduos.

De uma certa maneira, Demme parece querer retomar certas atmosferas enforcadas, concentradas, teatralizadas de dois filmes feitos nos Estados Unidos pelo francês Louis Malle: Meu jantar com André (1981) e Tio Vanya em Nova Iorque (1994). São dois Malles pouco vistos, geralmente pouco referidos em sua filmografia, mergulhados numa obscuridade histórica que parece às vezes deformada e preconceituosa. Sente-se, com o palpitar da visão do filme de Demme, que os aspectos de rigor formal e de cenário concentrado e exigência para com o ator parecem ser ressuscitados e ampliados por Demme em seu filme. A dedicatória de Solness, o construtor a Malle nos créditos finais ilumina esta identificação estilística entre filmes separados por largos anos e, de qualquer forma, por uma visão de mundo e de cinema algo diferente entre Malle e Demme. Em Meu jantar com André Wallace Shawn interpreta um ator-escritor às voltas com discussões sobre a encenação, com um diretor de teatro vivido por Andre Gregory, este mesmo que no filme de Demme interpreta o médico; Meu jantar com André constrói sua ficção em cima dos dados de seus intérpretes Wallace e Andre; a conversação se passa durante um jantar. (Wallace, lembremos, é intérprete e roteirista de Solness, o construtor). Em Tio Vanya em Nova Iorque (1994) Malle filma a encenação teatral da peça do russo Anton Tchekov; pouco a pouco o cineasta francês converte o teatro em sua própria visão cinematográfica do universo de Tchekov; o diretor da peça dentro do filme de Malle é ainda Andre Gregory, um dos polos de Meu jantar com André e o velho médico de Solness, o construtor. Todos estes entrelaçamentos acusam a nobre e inspirada origem do filme de Demme, além dos recursos reflexivos e verbais trazidos de Ibsen.

Tributo admirável de Demme, Shawn e Gregory a um homem que os deve ter marcado ao longo de sua vida na América, o francês Louis Malle, Solness, o construtor se plasma como uma sóbria construção fílmica que talvez seja um caso único, em sua torre, dentro do cinema de Demme ou fora deste cinema.

INTRODUCTION: Isabella Maciel de Sá has published in this blog by Marco Antonio Bezerra Campos a text evoking her favorite film, Silence as Innocents (1991), by Jonathan Demme. For now, I’m going to go into this challenge not so much talking about my favorite movie out of all in the history of cinema (tricky choice), but thinking about one of Demme’s films that I like the most out of all the ones he’s made. I believe that the film did not live in cinemas in Porto Alegre; I collected it on the internet, this niche that we, inhabitants of the classic dark caves that are the rooms, at first viewed with suspicion and is now, in many cases, our salvation. Below.

American director Jonathan Demme made the film he might have wanted to make throughout his life, in A master builder (2014), a film transposition of the sinuous ideas that the Norwegian playwright Henrik Ibsen built in his play of the same name from 1892. Like many of the directors of his generation, hesitant between his artistic vocation and the industrial needs imposed by the producers, Demme was, most of the time, in the middle of what he could accomplish as a cinema; the success came with SOMETHING WILD (1986) and THE SILENCE OF THE LAMBS (1994), but those interested in cinematographic meditation knew that these films did not bring everything they intended, although it was never known what it would be like; one of his works that seemed to approach Demme’s scope, in case he wasn’t so ingrained in the search of the general public, was the documentary Neil Young, heart of gold (2006), an aesthetic force almost isolated in his filmography.

Demme died in 2017, aged 73. A MASTER BUILDING was his penultimate film. And never has Demme been so rigorous in a cinematic narrative. With a screenplay by Wallace Shawn, who also plays the central role, Demme’s film uses characteristic, unglamorized and expressive faces that are far removed from the usual interpretive forms in cinema, especially in American cinema on the big circuits; Acting with this very own dark aesthetic, Demme opens his narrative to the elaborate and often secret nuances of the symbolic universe constructed in the century before Ibsen. As his character, a man who builds buildings, Demme materializes himself in images in the manner of a cinematographic builder: nothing escapes the cold and uncluttered detail of his camera and the precision of his marking with the interpreters.


Within the scene, the builder lived by Shawn with his invention of unique expressions is harassed by his women. His wife is circumspect, often in silence and a few raw words. The maid. The young woman who comes to visit him. All loving, with all these female figures the builder’s character has an affective relationship, and with each female character an affection of different nuances. The common denominator among the affections is an approach to the feminine marked by indelible eccentricity. In relationships with men (the maid’s boyfriend, the doctor), men who are possible rivals, there are curves, comings and goings, in the background monitored by women who interpose themselves, in the markings, between Solness and these other individuals.

In Tio Vanya in New York (1994) Malle films the theatrical staging of the play by Russian Anton Chekhov; little by little, the French filmmaker converts theater into his own cinematographic vision of Chekhov’s universe; the director of the play within Malle’s film is still Andre Gregory, one of the poles of My Dinner with André and Solness’s old doctor, the builder. All these interweavings point to the noble and inspired origin of Demme’s film, in addition to the reflexive and verbal resources brought by Ibsen.


An admirable tribute by Demme, Shawn and Gregory to a man who must have marked them throughout their life in America, the Frenchman Louis Malle, A MASTER BUILDING takes shape as a sober filmic construction that is perhaps a unique case, in its tower, inside Demme’s cinema or outside this cinema.

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