PSICANÁLISE DO CASAMENTO

O CONVIDADO DE HOJE DO CINEMARCO É ERON DUARTE FAGUNDES. PEDI AO ERON UM TEXTO SOBRE O FILME GENIAL DE INGMAR BERGMAN CENAS DE UM CASAMENTO.

Cenas de um casamento (Scener ur ett Aktenskapp; 1974) é uma grande novela cinematográfica onde o cineasta sueco Ingmar Bergman se deleita na trivialidade dos sentimentos humanos; rodada para a televisão em seis episódios com cerca de cinquenta minutos cada um que depois teve uma remontagem nos cinemas que comprimiu bastante a descarga emocional dos dois protagonistas do drama conjugal, esta produção chegou ao suporte em dvd com sua metragem integral na primeira década do século XXI. Não creio que o filme se altere essencialmente nas percepções que se possa ter dele; mas sim permite um contato mais amplo com os lugares-comuns do casamento  que Bergman se esmerou em reproduzir em imagens tão contidas, aparentemente imóveis e certamente verdadeiras.

É o mais dialogado dos filmes de Bergman e a mais direta de suas narrativas; não fosse Bergman um realizador muito diferente, eu poderia buscar a equivalência de Cenas de um casamento na obra do diretor francês Eric Rohmer: diálogos que fluem pelas imagens, precisa marcação dos atores, despojamento absoluto da câmara, da montagem e dos cenários. Ao longo de suas intensas horas, Cenas de um casamento vai exigir de Erland Josephson e Liv Ullmann o máximo de veracidade e de seu domínio da interpretação para interessar o público: ajudados pelo rigor e pela amorosidade de direção de Bergman, os intérpretes atingem um termo de grande proximidade com o espectador. Cenas de um casamento sobrevive basicamente pela grandeza do dueto de atores e pela transparência e entrega dos diálogos, onde o derramamento emocional está a um passo do gratuito mas nunca se descontrola porque o cérebro de Bergman executa uma sempre aguda psicanálise do casamento da década de 70 que acaba servindo para qualquer década, anterior e posterior.

De uma certa maneira, as situações infernais do casamento (ou de qualquer convivência entre o homem e a mulher) já rondavam Bergman ainda nos anos 50, revelando as migalhas sentimentais do professor Isak Borg e de seu filho no antológico Morangos silvestres (1958). Em Gritos e sussurros os casamentos também são uma barra, chegando uma mulher a ferir com vidro seus genitais para mostrar o sangue a seu marido. Os dilemas conjugais do século XX e a maneira como eles refletem a inquietação do homem de nosso tempo atingiram sua curvatura de modernidade em Viagem pela Itália (1953), do italiano Roberto Rossellini: à sua maneira, Cenas de um casamento é um dos herdeiros desta metafísica conjugal; não tem a agudez de A noite (1960), do italiano Michelangelo Antonioni, mas é um belo exemplar de como encenar o cotidiano de um casal: a aparência feliz, as dissenções que surgem, a separação, os amantes (citados e nunca em cena), os eternos retornos. Reclamou-se na época da ausência do papel dos filhos no casamento, mas Bergman alegou que esta era a história que ele quis contar: o distanciamento com os filhos talvez seja uma questão sueca no roteiro de Cenas de um casamento assim como está, uma grande elipse filial numa tergiversação tão longa. Depois de brigas inomináveis, parece meio contraproducente  que Bergman encaminhe o gesto final de seu filme para uma solução açucarada, os dois pombinhos se enleando amorosamente; não me parece que esta finalização tenha o mesmo sentido e o esplendor de choque visual daquele dia ensolarado num parque que vai desfazer, na imagem última, os sombrios fios narrativos de todo Gritos e sussurros. Em Cenas há mais uma vontade de ajeitar as coisas, como se estivesse ajeitando a vida: algo longe das metáforas e símbolos que Bergman exercitou em seus melhores filmes.

A despeito destas reservas severas que este comentarista (bergmaniano, como não) faz, é sempre uma paixão o reencontro com as personagens dilacerantes de Cenas de um casamento. É aquela coisa de expressividade da imagem cinematográfica de Bergman: ninguém no cinema a tem desta maneira, com este engenho. Ele nos coloca diante de um outro olhar das coisas. Ele, um homem de cinema, que faz cinema e vê cinema, que num de seus escritos nos ensina: “E a emoção que sinto continua a ser a mesma, embora veja cinema há sessenta anos.” (A lanterna mágica, 1987).

TODAY’S GUEST AT THE CINEMARCO IS ERON DUARTE FAGUNDES. I ASKED ERON FOR A TEXT ON INGMAR BERGMAN’S GREAT FILM SCENES OF A MARRIAGE.

Scenes from a Marriage (Scener ur ett Aktenskapp; 1974) is a great film novel where Swedish filmmaker Ingmar Bergman delights in the triviality of human feelings; shot for television in six episodes of about fifty minutes each, which later had a re-run in theaters that greatly compressed the emotional discharge of the two protagonists of the marital drama, this production reached dvd support with its full length in the first decade of the century XXI. I don’t believe that the film essentially changes in the perceptions that one might have of it; but it allows for a broader contact with the commonplaces of marriage  that Bergman took pains to reproduce in images so contained, apparently immobile and certainly true.

It is the most dialogued of Bergman’s films and the most direct of his narratives; if it weren’t for Bergman a very different director, I could seek the equivalence of Scenes from a Marriage in the work of French director Eric Rohmer: dialogues that flow through the images, precise marking of the actors, absolute detachment of the camera, of the assembly and sets. Throughout its intense hours, Scenes from a Marriage will demand from Erland Josephson and Liv Ullmann the maximum of veracity and their mastery of interpretation to interest the audience: aided by the rigor and loveliness of the direction of Bergman, interpreters reach a term of close proximity to the spectator. SCENES OF A MARRIAGE basically survives due to the greatness of the actors’ duet and the transparency and delivery of the dialogues, where the emotional spill is one step away from free but never gets out of control because Bergman’s brain performs an always acute psychoanalysis of the 70’s marriage that ends up serving for any decade, before and after.

In a way, the hellish situations of marriage (or any coexistence between a man and a woman) were already around Bergman in the 50s, revealing the sentimental crumbs of professor Isak Borg and his son in the anthological Wild strawberries (1958). In CRIES AND WHISPERS , marriages are also a bar, and a woman even stabs her genitals with a glass to show her husband the blood. Twentieth-century marital dilemmas and the way they reflect the restlessness of the man of our time reached their curve of modernity in Journey through Italy (1953), by Italian Roberto Rossellini: in its own way, Scenes of a Marriage is one of the heirs of this marital metaphysics; it doesn’t have the acuity of The night (1960), by the Italian Michelangelo Antonioni, but it is a beautiful example of how to act out the daily life of a couple: the happy appearance, the dissensions that arise, the separation, the lovers (quoted and never on stage), the eternal returns. He complained at the time about the absence of children’s role in marriage, but Bergman claimed that was the story he wanted to tell: distance from children is perhaps a Swedish issue in the script for Scenes from a Marriage as it is, a large filial ellipse in such a long quiver. After unspeakable fights, it seems kind of counterproductive  that Bergman directs the final gesture of his film towards a sugary solution, the two lovebirds entwined lovingly; I don’t think this ending has the same sense and splendor of visual shock as that sunny day in a park that will undo, in the last image, the dark narrative threads of all Cries and whispers. In Scenes there is more of a desire to fix things, as if he were getting his life right: something far from the metaphors and symbols that Bergman exercised in his best films.

Despite these severe reservations that this commentator (Bergmanian, as well as not) makes, it is always a passion to reunite with the heartrending characters of Scenes of a Marriage. It’s that expressiveness of Bergman’s cinematographic image: no one in cinema has it that way, with this ingenuity. It puts us in front of another look at things. He, a movie man, who makes movies and watches movies, who in one of his writings teaches us: “And the emotion I feel remains the same, even though I’ve been watching movies for sixty years.” (The Magic Lantern, 1987).

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