007 SEM TEMPO PARA MORRER: “Um homem deve viver e não meramente existir.”

Daniel Craig encerrou seu ciclo como o Agente James Bond, 007, no filme SEM TEMPO PARA MORRER, do cineasta Cary Joji Fukunaga. E o fez de modo memorável.

Nos 163 minutos de filme, Craig firmou definitivamente que seu 007 foi diferente de todos os outros.

Sean Connery (ainda o melhor de todos) foi um 007 aventureiro, um espião frio, assassino, destemido que salvou o mundo livre de vilões megalomaníacos sem hesitar em colocar sua vida em risco. Teve mulheres lindas que tiravam a roupa por um mero olhar dele.

George Lazenby tentou criar um 007 mais humano. O agente secreto ficou mais sensível e próximo do real. Se apaixonou e casou com Tracy, mas Blofeld não podia deixar eles serem felizes para sempre. Não encontrou a medida e fez o pior filme da franquia.

Roger Moore veio para introduzir o humor inglês no personagem. A veia cômica dos textos de Sir Ian Fleming foi acentuada. Ainda havia as aventuras, os vilões, os gadgets, as lindas bond girls, mas as histórias foram contadas com mais situações de non sense, como a corrida sobre jacarés, o looping do carro na ponte quebrada e outros feitos espetaculares sem qualquer relação com a realidade.

Pierce Brosnan retomou o espião mais frio e calculista. Mas como já estávamos nos anos 90, havia menos machismo, 007 sofria pelas paixões que tinha com aquelas mulheres maravilhosas que seguiam caindo em seus braços em menor quantidade e em maior densidade. Mas os filmes eram estanques e as mulheres sumiam de uma história para a seguinte.

Quando o inglês Daniel Craig foi escolhido como o primeiro James Bond “loiro”, a Produtora Barbara Broccoli (filha do lendário Albert “Cubby” Broccoli que iniciou a série com seu sócio Harry Saltzman) deu a maior guinada da série. O novo 007 seguia atirando com uma precisão incrível, tinha uma coragem inarredável, mas sua maior característica era – como qualquer um de nós – viver marcado pelos amores que teve na vida.

A Vesper Lind de CASSINO ROYALE (Eva Green magnífica) esteve nos cinco filmes desta fase de 007. O amor dos dois, as traições, os planos de futuro juntos (algo meio novo para James Bond) marcaram o agente inglês forever. Não se esquece um amor assim. Neste último filme, uma cena no túmulo de Vesper é chave para a trama.

Em QUANTUM OF SOLACE, tudo foi meio provisório. A história era fraca, o vilão esquecível e as bond girls outra vez rostos e corpos sem identidade. No espetacular SKYFALL, Bond seguia curtindo a saudade torturante de Vesper. A mulher mais marcante do filme era M, uma Judi Dench maravilhosa no papel da mãe, edipicamente amada (e odiada) tanto pelo mocinho como pelo vilão.

Quando chegou SPECTRE, apareceu a Dra. Madeleine Swann (não por acaso vivida pela atriz Léa Seydoux que rasgara a bandeira em AZUL É A COR MAIS QUENTE), uma psiquiatra com passado, presente e futuro envoltos em mistérios insondáveis. O trauma da traição de Vesper ainda tem marcas em Bond que volta e meia acha que Madeleine não lhe diz toda a verdade. “Por que eu trairia você?”, pergunta Swann. “Todos nós temos nossos segredos. Nós apenas não descobrimos os seus ainda.”

Neste maravilhoso SEM TEMPO PARA MORRER, o drama de 007 chega ao seu ponto culminante. Fukunaga magistralmente mostra um super espião envelhecido e torturado, lutando por seu amor, entre inseguranças e medos, e sendo atropelado por políticas canalhas de seu Governo, vilões dispostos a acabar com ele, e cada dia mais vulnerável por amar pessoas que podem ser alvo dos bandidos. O filme tem virus, máscaras e laboratórios. Premonitoriamente, já que foi escrito e filmado em 2019.

Daniel Craig se mostra um grande ator, na melhor tradição dos ingleses. Sua interpretação é cheia de nuances.

O elenco de SEM TEMPO PARA MORRER – como tem sido nos últimos filmes de 007 – é soberbo. Craig, Swann, Ralph Fiennes, Remi Malek, Christoph Waltz, Ana de Armas, Sashana Lynch (a nova 007), Jeffrey Wright, Naomi Harris, Ben Wislaw. Há muita gente ótima em cena.

A parte formal do filme segue incrível. A trilha de Hans Zimmer (com o tema clássico de Monty Norman dando o ar da graça volta e meia), o roteiro de Neal Purvis, Robert Wade e Cary Fukunaga que ganhou um “empurrãozinho” muito saudável da ótima Phoebe Waller-Bridge, de FLEABAG, a fotografia linda do sueco Linus Sandgren (principalmente nas locações magníficas na Noruega, Ilhas Faroe, Matera (Itália), Aviemore (Escócia), Jamaica e Londres). O que é sofrida (e linda) a balada NO TIME TO DIE, de Billie Eilish?

Há que se destacar o sketch em Cuba com a agente americana Paloma, um oásis bem-humorado em meio ao drama pesado do filme de Fukunaga. Foi uma sequência maravilhosa, sensual, divertida, tensa e extraordinariamente bem-feita. Pena que foi curta.

Acho que Fukunaga tirou nota dez com louvor. Que ele tinha muito talento cinematográfico a gente já sabia desde aquela primeira temporada de TRUE DETECTIVE, da HBO.

Mas ele subiu mais um degrau. Seu filme tem tudo que apaixonou os milhões de fãs de James Bond pelo mundo ao longo de sete décadas (desde os anos 60 com DR. NO). Vilões querendo dominar o mundo, mulheres extraordinárias, carros perfeitos, paisagens de tirar o fôlego, gadgets incríveis, tiroteios e perseguições sem fim, todos os ícones dos filmes de 007.

Mas cortou fundo no drama. Este novo 007 tem um tom mais que dramático, quase trágico. É muito mais humano. Quando briga, ele sangra. Se queixa de dor. Tem um joelho que incomoda. Tem dor de cotovelo.

No final dos créditos, um letreiro anuncia que “James Bond will return.”.

Mas não vai ser Daniel Craig. A gente vai sentir saudades. Muitas.

Daniel Craig ended his cycle as Agent James Bond, 007, in filmmaker Cary Joji Fukunaga‘s NO TIME TO DIE. And he did it in a memorable way.

In the 163 minutes of film, Craig definitively stated that his 007 was different from all others.

Sean Connery (still the best of all) was an adventurous 007, a cold, murderous, fearless spy who saved the free world from megalomaniac villains without hesitating to put his life at risk. He had beautiful women who took off their clothes just by looking at him.

George Lazenby tried to create a more human 007. The secret agent became more sensitive and closer to the real. He fell in love and married Tracy, but Blofeld couldn’t let them be happy forever. He didn’t find the measure and made the worst movie in the franchise.

Roger Moore came to introduce English humor to the character. The comic vein of Sir Ian Fleming‘s texts was accentuated. There were still adventures, villains, gadgets, beautiful bond girls, but the stories were told with more nonsense situations, such as the race over alligators, the car looping on the broken bridge and other spectacular feats unrelated to reality.

Pierce Brosnan has taken over the coldest and most calculating spy. But as we were already in the 90s, there was less machismo, 007 suffered from the passions he had with those wonderful women who kept falling into his arms in lesser quantity and greater density. But movies were tight and women disappeared from one story to the next.

When Englishman Daniel Craig was chosen as the first “blonde” James Bond, Producer Barbara Broccoli (daughter of the legendary Albert “Cubby” Broccoli who started the series with his partner Harry Saltzman) took the biggest turn in the series. The new 007 continued to shoot with incredible precision, had unshakable courage, but its greatest characteristic was – like any of us – to live marked by the loves he had in his life.

Vesper Lind from CASINO ROYALE (magnificent Eva Green) was in the five films of this phase of 007. Their love, their betrayals, their future plans together (something a little new for James Bond) marked the English agent forever. A love like that is not forgotten. In this latest film, a scene at Vesper’s grave is key to the plot.

In QUANTUM OF SOLACE, everything was kind of provisional. The story was weak, the villain forgettable and the bond girls again faces and bodies without identity. In the spectacular SKYFALL, Bond continued to enjoy the excruciating longing for Vesper. The most striking woman in the film was M, a wonderful Judi Dench in the role of the mother, oedipally loved (and hated) by both the good guy and the bad guy.

When SPECTRE arrived, Dr. Madeleine Swann appeared (not by chance played by the actress Léa Seydoux who tore the flag in BLUE IS THE WARMEST COLOR), a psychiatrist with past, present and future shrouded in unfathomable mysteries. The trauma of Vesper’s betrayal still has marks on Bond, who time and again finds that Madeleine doesn’t tell him the whole truth. “Why would I betray you?” Swann asks. “We all have our secrets. We just haven’t figured out yours yet.”

In this wonderful NO TIME TO DIE, the drama of 007 reaches its climax. Fukunaga masterfully shows an aged and tortured super spy, fighting for his love, between insecurities and fears, and being run over by his government’s scoundrels policies, villains willing to end him, and each day more vulnerable for loving people who can be targeted by bandits. The film has viruses, masks and labs. Premonitory, as it was written and filmed in 2019.

Daniel Craig shows himself to be a great actor, in the best English tradition. His interpretation is full of nuances.

The cast of NO TIME TO DIE – as it has been for the last 007 films – is superb. Craig, Swann, Ralph Fiennes, Remi Malek, Christoph Waltz, Ana de Armas, Sashana Lynch (the new 007), Jeffrey Wright, Naomi Harris, Ben Wislaw. There are a lot of great people on the scene.

The formal part of the film is still amazing. The soundtrack by Hans Zimmer (with the classic Monty Norman theme giving the air of grace every now and then), the screenplay by Neal Purvis, Robert Wade and Cary Fukunaga  that got a very healthy “push” from the great Phoebe Waller-Bridge (FLEABAG), the outstanding photography by  Sweden Linus Sandgren (mainly on magnificent locations in Norway, Faroe Islands, Matera (Italy), Aviemore (Scotland), Jamaica and London). And what to say about the beautiful (and hurting) song NO TIME TO DIE, by Billie Eilish?

The sketch in Cuba with the American agent Paloma (Ana de Armas) stands out, a good-humored oasis amidst the heavy drama of Fukunaga’s film. It was a wonderful sequence, sensual, fun, tense and extraordinarily well-crafted. Too bad it was short.

I think Fukunaga got a top ten with flying colors. That he had a lot of film talent we knew from that first season of HBO’s TRUE DETECTIVE.

But he took another step up. His film has everything that has swayed millions of James Bond fans around the world over seven decades (since the 60s with DR. NO). Villains wanting to take over the world, extraordinary women, perfect cars, breathtaking landscapes, amazing gadgets, endless shootings and chases, all the icons of the 007 movies.

But it cut deep into the drama. This new 007 has a more than dramatic, almost tragic tone. It’s much more human. When he fights, he bleeds. He complains of pain. He has a knee that hurts. Has deep emotional painselbow pain.

At the end of the credits, a sign announces that “James Bond will return.”

But it won’t be Daniel Craig. We will miss him. A lot.

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