ETERNOS: Imortais, pero no Mucho. Super-heróis, mas Inseguros como os Humanos. Zhao Sabe Tudo de Cinema.

Certa vez, quando foi lançado CASANOVA DE FELLINI, um jornalista de Porto Alegre desancou o filme, quase dizendo que o mestre italiano estava gagá para fazer um filme tão ruim. Um amigo meu, o Walter Buchholz Junior, lendo a crítica, me disse: “O Fellini deve estar muito preocupado que o fulano não gostou do filme dele.”

Guardadas as proporções fico imaginando se a talentosa e oscarizada Chloé Zhao (NOMADLAND) estaria minimamente preocupada com críticos brasileiros chamarem ETERNOS de “abacaxi” ou “pior filme da MARVEL”. Zhao está cada vez se demonstrando uma cineasta cujo talento cinematográfico é muito superior à média de seus contemporâneos.

Fiquei mais tranquilo quando Luiz Carlos Merten (O ESTADO DE SÃO PAULO) e Manola Darghis (THE NEW YORK TIMES) rasgaram elogios para o filme mais recente de Zhao, o primeiro dela na poderosa MARVEL STUDIOS.

Eu gostei bastante de ETERNOS. Exatamente por ser um filme diferente dentro do Universo MARVEL.

É muito fácil notar as diferenças em relação aos demais mega sucessos do estúdio. ETERNOS é muito mais drama que aventura. O roteiro privilegia um corte profundo nos personagens sacrificando o esquema habitual de brigas e ameaças entremeadas de humor. Aqui há muitas brigas (afinal os Eternos têm como missão evitar que os Deviantes ameacem a raça humana), mas nada termina em gargalhadas ou sorrisos. Há algumas gags sim, mas são em muito menos número e despertam no máximo um sorriso.

A ideia das histórias em quadrinhos que originaram este primeiro filme dos Eternos (sim os créditos finais já anunciam que eles vão voltar) é mostrar que sim, os deuses eram astronautas, como perguntava aquele famoso livro do escritor Erich von Daniken, lançado em 1968. O progresso tecnológico dos humanos – na versão do filme – passou por seres do espaço que estão aqui no Planeta há séculos.

No tempo presente há uma reviravolta. Saídos do nada, os Deviantes ressurgem e os Eternos estão ameaçados tanto como os humanos. Apaixonados pelo planeta e seus habitantes, os Eternos resolvem (não todos) enfrentar a nova ameaça. Aí começa a briga.

Não gostei dos Deviantes. Achei efeitos especiais que os mostram bem feitos, mas pouco criativos e bem repetitivos. Mas gostei muito da cisânia que eles criam no grupo de heróis. Super-Heróis traem? Questionam os desígnios divinos? Têm sentimentos pequenos típicos dos humanos como amor, ciúmes, dúvidas, inseguranças, hesitações, arrependimentos?

Este é o tema do filme. Quem ficou preso nas brigas entre Eternos e Deviantes, perdeu o melhor.

A cena em que Phastos aparece em meio a uma Hiroshima devastada pela Bomba Atômica, jurando que nunca mais vai ajudar a humanidade a ter avanços tecnológicos é tão brilhante quanto emocionante e deprimente. Foi a primeira vez que vi uma cena no cinema não sobre o momento da explosão que pôs fim a Segunda Guerra Mundial, mas como teria ficado Hiroshima no instante seguinte.

E a super-herói que – depois de atacar seus pares – se declara frustrada por não poder se apaixonar, amar, ter filhos e … morrer? Linda cena. E a super-herói que cavalga pelos campos como uma verdadeira Cowgirl?

Em resumo, ETERNOS não tem super-heróis perfeitos e infalíveis. Como era de se esperar de Chloé Zhao, os super-heróis dela têm mais problemas que soluções. Mais dúvidas que certezas.

Desnecessário elogiar a produção do filme. As Ilhas Canárias forma um cenário sempre deslumbrante. Londres parece linda como nunca. O interior dos Estados Unidos é mostrado como um ambiente belíssimo a ser preservado. O filme de Chloé tem uma batida ambientalista muito verdadeira e atual.

Mas é na diversidade que Zhao aposta suas fichas. Os heróis são negros, orientais, indianos, latinos. Gordos. Um é gay assumido e está casado com outro homem a quem beija (em cena rápida, é verdade). Mas proteger sua família e o futuro do filho dos dois faz ele enfrentar os vilões e desafiar os deuses. As mulheres tomam as decisões. Como na vida real.

Gemma Chen, Salma Hayek, Angelina Jolie (linda e luminosa como sempre), Richard Madden, Kit Harington, Kumail Nanjiani, Lia McHugh, Brian Tairy Henri, Lauren Ridloff (uma super-herói surdo-muda), Barry Kheogan e Ma Dong-seok fazem um elenco muito além do ótimo.

ETERNOS, ao menos na minha opinião, se saiu muito bem no desafio do primeiro filme. Apresentar os personagens antes de engatar na história é sempre um desafio.

Mas acho que Chloé Zhao segurou a barra. Ela fez um filme da MARVEL onde os dilemas da humanidade são mais importantes que os uniforme coloridos e os vôos dos super-heróis. Eternos, pero no mucho. Super-heróis mas com dúvidas e inseguranças.

Os Eternos são mais parecidos conosco do que se poderia supor.

Once, when CASANOVA DE FELLINI was released, a journalist from Porto Alegre crashed the film, almost saying that the Italian master was too old to make such a bad film. A friend of mine, Walter Buchholz Junior, reading the review, told me: “Fellini must be very worried that the guy from Porto Alegre didn’t like his movie.”

Save the proportions, I wonder if the talented and oscarized Chloé Zhao would be even worried about Brazilian critics calling ETERNALS as bad as a “pineapple” or “worst MARVEL movie”. Zhao is increasingly proving himself a filmmaker whose cinematic talent far exceeds the average of his contemporaries.

I felt calmer when Luiz Carlos Merten (Newspaper ESTADO DE SP) and Manola Darghis (THE NEW YORK TIMES) raved about Zhao’s latest film, her first in the powerful MARVEL STUDIOS.

I really liked ETERNALS. Exactly because it is a different movie within the MARVEL Universe.

It’s very easy to notice the differences from the studio’s other mega hits. ETERNALS is much more drama than adventure. The script favors a deep cut in the characters, sacrificing the usual scheme of fights and threats laced with humor. There are many fights here (after all, the Eternals have a mission to prevent the Deviants from threatening the human race), but nothing ends in laughter or smiles. There are some gags, yes, but they are far fewer and arouse a smile at most.

The idea behind the comic books that gave rise to this first film by the Eternals (yes, the end credits already announce that they will return) is to show that yes, the gods were astronauts, as asked by that famous book by writer Erich von Daniken, released in 1968. The technological progress of humans – in the movie version – passed through space beings who have been here on the Planet for centuries.

In the present tense there is a twist. Out of nowhere, Deviants resurface and Eternals are threatened as much as humans. Passionate about the planet and its inhabitants, the Eternals decide (not all) to face the new threat. Then the fight starts.

I didn’t like the Deviants. I found special effects that show them well done, but not very creative and very repetitive. But I really liked the welt they create in the group of heroes. Superheroes cheat? Do they question the divine designs? Do they have small typical human feelings like love, jealousy, doubts, insecurities, hesitations, regrets?

This is the theme of the movie. Whoever got stuck in the fights between Eternals and Deviants, lost the best.

The scene where Phastos appears in the midst of a Hiroshima ravaged by the Atomic Bomb, swearing that he will never again help humanity make technological advances is as brilliant as it is exciting and depressing. It was the first time I saw a movie scene not about the post moment of the explosion that ended World War II, but how Hiroshima would have looked the next moment.

And the superhero who – after attacking his peers – declares herself frustrated at not being able to fall in love, have children and… die? Beautiful scene. And the superhero who rides through the fields like a real Cowgirl?

In summary, ETERNAL doesn’t have perfect, infallible superheroes. As you’d expect from Chloé Zhao, her superheroes have more problems than solutions. More doubts than certainties.

No need to praise the film’s production. The Canary Islands form an ever-dazzling backdrop. London looks as beautiful as ever. The interior of the United States is shown as a beautiful environment to be preserved. Chloé’s film has a very true and up-to-date environmentalist beat.

But it’s diversity that Zhao bets her cards. Heroes are black, oriental, Indian, Latino. Fat. One is openly gay and is married to another man whom he kisses (in a quick scene, it’s true). But protecting his family and their future child makes him face the villains and defy the gods. Women make the decisions. Like in real life.

Gemma Chen, Salma Hayek, Angelina Jolie (beautiful and luminous as always), Richard Madden, Kit Harington, Kumail Nanjiani, Lia McHugh, Brian Tairy Henri, Lauren Ridloff (a deaf-mute superhero), Barry Kheogan and Ma Dong-seok cast a lot beyond great.

ETERNALS, at least in my opinion, did very well in the challenge of the first film. Introducing the characters before hitting the story is always a challenge.

But I think Chloé Zhao held the bar. She made a MARVEL movie where the dilemmas of humanity are more important than the colorful uniforms and flights of superheroes. Eternals, but not much. Superheroes but with doubts and insecurities.

The Eternals are much more like us than one might suppose.

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