O MUNDO DE LUZ E SOMBRA

O CONVIDADO DE HOJE DO CINEMARCO É O CINÉFILO ERON DUARTE FAGUNDES.

No primeiro momento da ascensão dos militares brasileiros ao poder em 1964, o governo não se preocupou muito com censurar obras de arte, entre elas as produzidas pelo cinema. No Brasil a ação repressiva direta e violenta contra o cinema se deu em 1973. Mais especificamente na sexta-feira de 22 de junho de 1973. Neste dia, uma portaria do governo federal determinou a apreensão de dez filmes que já estavam nas salas: A classe operária vai ao paraíso (1971), de Elio Petri; Sopro no coração (1971), de Louis Malle; Toda nudez será castigada (1973), de Arnaldo Jabor; Sacco e Vanzetti (1971), de Giuliano Montaldo; Mimi, o metalúrgico (1972), de Lina Wertmuller; Os garotos virgens de Ipanema (1973), de Oswaldo Oliveira; Queimada (1969), de Gillo Pontecorvo; A aventura é uma aventura (1972), de Claude Lelouch; A rebelde (1970), de Alberto Bevilacqua; e Cama com música (1970), de John Hilbard.

Misturando preocupações com a instabilidade política com outras de ordem moral (especialmente em relação aos costumes sexuais), os censores nacionais davam o pontapé inicial do circo sombrio e infantilista que volta e meia assombra nosso país.

Na década de 70 o espectador brasileiro adulto foi mantido à distância de filmes como Laranja mecânica (1971), de Stanley Kubrick; O último tango em Paris (1972), de Bernardo Bertolucci; Emmanuelle (1974), de Just Jaeckin; ou Z, de Constantin Costa-Gavras.

Só no final da década os filmes proibidos sem serem proibidos (oficialmente eles não chegavam ao Brasil, embora se soubesse que havia sessões secretas habituais destes filmes para a censura federal) começaram a ser despejados nas telas: as bolas pretas grotescas apostas pelos censores aos genitais nas imagens de Laranja mecânica (a censura gostava de passar a tesoura em certos filmes, mas Kubrick não permitia a exibição de seu filme com cortes) e o sexo anal com manteiga em O último tango em Paris não impediam os assistentes levados ao cinema por essas curiosidades superficiais de se retirar do cinema ante a (então) violência inaudita do filme de Kubrick e de bocejarem ou se irritarem com o existencialismo soturno dos movimentos de câmara da obra-prima de Bertolucci.

Junto com esses filmes, chegou por aqui a enxurrada de obras com sexo explícito, como Garganta profunda (1972), de Gerard Damiano, o que ajudou a sedimentar o fosso de anacronismo das pornochanchadas brasileiras, com as simulações pudicas que incluíam até transas sexuais em que as personagens não retiravam as peças íntimas ao ir para a cama.

Diante da impossibilidade de ver a luz na sombra do túnel, isto é, os filmes proibidos sem serem proibidos não se veriam tão cedo por aqui, os cinéfilos brasileiros, especialmente os do sul ao país, faziam excursões a Montevidéu, no Uruguai, uma espécie de capital cinematográfica que sempre atraiu os espectadores antes e depois da violência da censura dos governos militares, como se vê por um filme gaúcho feito já na abertura política gradual, Inverno (1983), de Carlos Gerbase, onde a personagem chega a sentir os olhos ardendo e a cabeça confusa de tanto ler as legendas em espanhol dos filmes.

Outros cinéfilos, mais aquinhoados pela geografia, bastava que atravessassem uma rua para ver esses filmes, como registra Flávio Balestreri, um homem de fronteira. Foi uma odisseia —nunca a relação entre cinema e viagem foi tão intensa— imposta pela realidade social e política da década de 70.

Alguns (ainda mais raro) chegaram a ver pela primeira vez O último tango em Paris em Paris mesmo, em 1972, como Tuio Becker, que, ao lançamento do filme em Porto Alegre, aludiu ao contraste e à aproximação entre ver a obra de Bertolucci num pequeno cinema do Quartier Latin, na capital francesa, e revê-la, cerca de sete anos depois, no gigantesco Roma da Azenha, na capital gaúcha.

Eu, embora apaixonado por viagens e cinema, não tenho a experiência uruguaia de muitos amigos excursionistas da época; vi Laranja mecânica e O último tango em Paris misturado ao público majoritário que inundava as salas de cinema de Porto Alegre naquele fim de década em que a luz apontava na sombra.

TODAY’S CINEMARCO GUEST IS CINEFILO ERON DUARTE FAGUNDES.

In the first moment of the rise of the Brazilian military to power in 1964, the government was not very concerned with censoring works of art, including those produced by the cinema. In Brazil, the direct and violent repressive action against cinema took place in 1973. More specifically on Friday, June 22, 1973. On that day, a federal government decree ordered the seizure of ten films that were already in theaters: The working class goes to paradise (1971), by Elio Petri; Murmur of the the Heart (1971), by Louis Malle; All nudity will be punished (1973), by Arnaldo Jabor; Sacco and Vanzetti (1971), by Giuliano Montaldo; Mimi the Metallurgist(1972), by Lina Wertmuller; The virgin boys of Ipanema (1973), by Oswaldo Oliveira; Queimada (1969), by Gillo Pontecorvo; Adventure is an Adventure (1972), by Claude Lelouch; The Rebel (1970), by Alberto Bevilacqua; and Bed with Music(1970) by John Hilbard.

Mixing concerns about political instability with others of a moral nature (especially in relation to sexual mores), the national censors kick-started the somber and childish circus that has haunted our country every now and then.

In the 70s, the adult Brazilian spectator was kept at a distance from films such as Clockwork Orange (1971), by Stanley Kubrick; Last Tango in Paris (1972), by Bernardo Bertolucci; Emmanuelle (1974), by Just Jaeckin; or Z, by Constantin Costa-Gavras.

It wasn’t until the end of the decade that banned movies without being banned (officially they didn’t make it to Brazil, although it was known that there were usual secret sessions of these movies for the federal censorship) began to be dumped on the screens: the grotesque black balls bet by genital censors in A Clockwork Orange (censors liked to scissors in certain films, but Kubrick did not allow the showing of his film with cuts) and anal sex with butter in Last Tango in Paris did not prevent the spectators driven to the cinema by these superficial curiosities from withdrawing from the cinema in the face of the (then) unheard of violence in Kubrick’s film and from yawning or irritated by the grim existentialism of the camera’s movements. Bertolucci’s masterpiece.

Along with these films, the flood of works with explicit sex arrived here, such as Deep Throat(1972), by Gerard Damiano, which helped to sediment the anachronism gap of Brazilian pornochanchadas, with the prudish simulations that even included sex acts in which the characters did not remove their intimate pieces when going to bed.

Faced with the impossibility of seeing the light in the shadow of the tunnel, that is, prohibited films without being prohibited would not be seen so soon here, Brazilian film buffs, especially those from the south of the country, made excursions to Montevideo, Uruguay , a kind of cinematographic capital that has always attracted spectators before and after the violence of military government censorship, as seen in a film from Rio Grande do Sul made in the gradual political opening, Winter (1983), by Carlos Gerbase, where the character can feel her eyes burning and her head confused from reading the Spanish subtitles for the films.

Other moviegoers, more favored by geography, they only had to cross a street to see these films, as noted by Flávio Balestreri, a frontier man. It was an odyssey —the relationship between cinema and travel was never so intense— imposed by the social and political reality of the 70s.

Some (even rarer) came to see for the first time Last tango in Paris in Paris, in 1972, like Tuio Becker, who, at the release of the film in Porto Alegre, alluded to contrast and the approximation between seeing Bertolucci’s work in a small cinema in the Latin Quarter, in the French capital, and seeing it again, around seven years later, in the gigantic Roma da Azenha, in the our state capital.

I, although passionate about travel and cinema, do not have the Uruguayan experience of many excursionist friends at the time; I saw A Clockwork Orange and Last tango in Paris mixed with the majority public that flooded the movie theaters of Porto Alegre at the end of the decade where the light pointed in the shadow.

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