O TINTO BRASS PERDIDO

O CONVIDADO DE HOJE DO CINEMARCO É FLÁVIO BALESTRERI

Saber da proibição de algum filme, peça de teatro, livro ou música era o que bastava para a obra vetada virar objeto de desejo. Passava a ser prioridade para o que queria ver, ler ou escutar. Pelo menos para mim, era a forma encontrada para tirar proveito da ação da censura que vigorou no país durante o período do Regime Militar (1964-1985).

No dia 7 de novembro, lendo no Cinemarco o texto O Mundo de Luz e Sombra, do Eron Duarte Fagundes, recordando os dez filmes retirados de cartaz pela portaria do governo federal de 22 de junho de 1973, lembrei de outros que os censores nos obrigaram a esperar uns bons anos para ver. Os demônios (1971), de Ken Russell; Zabriskie Point (1970), de Michelangelo Antonioni; Joe Hill (1971), de Bo Widerberg; O Porteiro da Noite (1974), de Liliana Cavani; O Império dos Sentidos (1976), de Nagisa Ôshima; Morangos Amargos (1970), de Stuart Hagmann, são alguns deles.

Triste é lembrar que a censura não se limitou somente aos filmes. Desde o trabalho informativo até culturais, como teatro, literatura e música também sofreram com aquele modelo implementado pela ditadura militar.  O episódio mais famoso envolvendo uma canção ocorreu com Pra não dizer que não falei de flores, de Geraldo Vandré, que, apesar de ser a favorita disparada do público e ter recebido nota máxima de alguns jurados, entre eles Bibi Ferreira e Ziraldo, ficou em segundo lugar no Festival Internacional da Canção (FIC) de 1968, promovido pela Rede Globo.  Em 1991, Walter Clark, que era diretor-geral da Globo na época, revelou em sua autobiografia que a direção da emissora recebeu ordens do comando do 1º Exército para que a canção, considerada extremamente crítica ao governo, não  vencesse o festival. E ainda acabou tendo sua execução proibida durante anos. Tive um amigo felizardo que obteve um compacto em vinil com a música antes da proibição. Acho que ele nunca gravou tantas fitas cassetes como naquela época.

Ao trazer à baila o assunto dos filmes retirados em cartaz em 1973, o texto do Eron me fez lembrar de um episódio ocorrido em 1971 num cinema de Rivera envolvendo um filme praticamente desconhecido, assim como seus atores e o diretor, talvez por isso não chegando a despertar muita atenção.

Mas o sinal de alerta foi ligado quando correu a notícia pela “rede social” da época (boca a boca) que o filme estaria sendo retirado de cartaz por que espectadores estavam saindo no meio da sessão incomodados pelo seu conteúdo erótico. Logo, porém, veio outra informação de que o filme voltaria para uma última exibição. O motivo, segundo comentários na época, teria sido atender solicitação de funcionários de um frigorífico que havia na cidade. Foi a deixa para que, naquela noite, num Gran Rex praticamente lotado, a plateia assistisse a uma viagem psicodélica do final dos anos 60: passeando sozinha por Londres, uma italiana casada se entrega às mais inusitadas fantasias eróticas, enquanto é seguida de perto por um homem afro-americano. O filme traz mensagem anti-Vietnã e um erotismo não muito comum de se ver naquela época. Mas nada demais. Hoje passaria tranquilamente depois das 22 horas na TV aberta. Por desconhecer os atores só fiquei com a lembrança de seu título uruguaio: Negro sobre blanco.

Na época, ainda reconheci uma foto do filme em uma revista, Manchete ou O Cruzeiro, não lembro ao certo, numa matéria sobre filmes proibidos no país.

Há pouco tempo, navegando pela Internet, casualmente encontrei o filme: Nerosubianco, realizado em 1969 nada menos que por Tinto Brass, de quem eu só fui ouvir falar quando seu nome apareceu como um dos diretores de Calígula (1979). E com produção do grande Dino de Laurentiis.  O erotismo era bem menos sofisticado do que aquele consagrado em filmes posteriores de Brass, como Salão Kitty (1976) ou A chave (1983), por exemplo.

Acredito que não chegou a ser exibido comercialmente no Brasil. Por todo esse tempo, sempre tive o filme como um troféu. Nunca soube de mais alguém conhecido que o tivesse assistido.

Fico imaginando o efeito que causaria na época se tivesse sido exibido com o sugestivo título de A atração do sexo, como acabou sendo batizado por aqui e disponibilizado nas plataformas de streaming.

TODAY’S GUEST OF CINEMARCO IS FLÁVIO BALESTRERI

Knowing about the prohibition of any film, theater play, book or song was all that was needed for the banned work to become an object of desire. It became a priority for what I wanted to see, read or listen to. At least for me, it was the way found to take advantage of the action of censorship that prevailed in the country during the period of the Military Regime (1964-1985).

On November 7, reading at Cinemarco the text The World of Light and Shadow, by Eron Duarte Fagundes, recalling the ten films removed from the poster by the federal government decree of June 22, 1973, I reminded others that the censors forced us to wait a good few years to see. The Demons (1971), by Ken Russell; Zabriskie Point (1970), by Michelangelo Antonioni; Joe Hill (1971), by Bo Widerberg; O Porteiro da Noite (1974), by Liliana Cavani; The Empire of the Senses (1976), by Nagisa Ôshima; Bitter Strawberries (1970), by Stuart Hagmann, are some of them.

It is sad to remember that censorship was not limited to movies. From informative work to cultural ones such as theater, literature and music also suffered from that model implemented by the military dictatorship.  The most famous episode involving a song occurred with Geraldo Vandré’s Not to say I didn’t mention flowers, who, despite being the public’s favorite shot and having received top marks from some judges, among them Bibi Ferreira e Ziraldo, took second place at the 1968 Festival Internacional da Canção (FIC), promoted by Rede Globo.  In 1991, Walter Clark, who was Globo’s general director at the time, revealed in his autobiography that the station’s management received orders from the command of the 1st Army so that the song, considered extremely critical of the government, should not  won the festival. And it ended up having its execution banned for years. I had a lucky friend who got a vinyl single with the song before the ban. I don’t think he recorded as many cassette tapes as he did back then.

In bringing up the subject of films taken from the movie theaters in 1973, the Eron’s text reminded me of an episode that took place in 1971 in a movie theater in Rivera involving a virtually unknown film, as well as its actors and director, maybe that’s why it didn’t attract much attention.

But the warning signal was turned on when the news spread through the “social network” of the time (word of mouth) that the film was said to be withdrawn from the poster because spectators were leaving mid-session annoyed by its erotic content. Soon, however, came another information that the film would return for one last screening. The reason, according to comments at the time, would have been to meet the request of employees of a slaughterhouse in the city. It was the cue that, that night, in a practically crowded Gran Rex, the audience could watch a psychedelic journey from the late 60s: walking alone through London, a married Italian gives herself to the most unusual of erotic fantasies while being closely followed by an African-American male. The film brings an anti-Vietnam message and an eroticism not very common to see at that time. But not too much. Today would pass quietly after 22 hours on open TV. Because I don’t know the actors, I only got the memory of their Uruguayan title: Negro sobre blanco.

At the time, I still recognized a photo of the film in a magazine, O Cruzeiro, I don’t remember for sure, in an article about films banned in the country.

Not long ago, browsing the Internet, I happened to find the film: Nerosubianco, made in 1969 by none other than Tinto Brass, who I only heard about when his name appeared as one of the directors of Caligula (1979). And produced by the great Dino de Laurentiis. The eroticism was far less sophisticated than that enshrined in Brass’s later films, such as Salão Kitty (1976) or The Key ( 1983), for example.

I believe it was not shown commercially in Brazil. For all that time, I’ve always had the movie as a trophy. I never knew of anyone else I knew who had seen it.

I wonder what effect it would have had at the time if it had been shown under the suggestive title of Sex Attraction, as it ended up being named around here and made available on streaming platforms

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