DANÇANDO COM A ANARQUISTA

O CONVIDADO DE HOJE DO CINEMARCO É O CINEASTA, PUBLICITÁRIO E MEU AMIGO JOSÉ PEDRO GOULART.

Corria o ano de 1986. O Brasil, sob novos ventos, procurava consertar alguns desacertos com os vizinhos. Entre eles, Cuba. Depois de mais de quinze anos nas sombras da clandestinidade, a relação entre cubanos e brasileiros recebia os eflúvios solares da nova ordem que se anunciava.

Brindemos, pois. Cerca de trinta brasileiros quebram seus cofrinhos de moedas, alguns fizeram até rifa (posso afirmar) e se bandearam até a ilha famosa para participar do festival del cine, tradicional e importante antro de intelectuais de esquerda. Iam no grupo o Jorge Furtado e eu, carregando as latas do nosso curta-metragem, O dia em que Dorival encarou a guarda. Havia uma única cópia com legendas, mas estava na Espanha. Na dúvida se chegaria a tempo é que levamos essa outra, sem legendas mesmo.

De modo que fomos parar em Cuba, antes do fax, celular ou internet, dependendo da burocracia de um país comunista, o que equivale a depender do Gerald Thomas para uma palestra com nexo. E enquanto alguns se ocupavam das ruas de Havana com seus paradoxos de beleza e dureza, o Jorge e eu ficávamos ligando obsessivamente para a organização do festival para sabermos se a cópia tinha chegado: “No, y no, e hoy también no”.

Não chegou. Nunca chegaria Mas tínhamos ido até lá! Algo precisava ser feito. Invadimos uma festa com gente como o Gregory Peck, o Sidney Pollack e o Gabriel Garcia Marquez. Também no lugar, os membros do júri do festival e o seu presidente, Jorge Amado. Atencioso, ele nos disse que a reunião do júri havia recém terminado e os vencedores escolhidos. Inconformados, invocamos até o espírito do Che. Milagre! Jorge Amado convenceu o júri a se reunir novamente.

Mas havia outro problema, a maldita cópia sem legendas. A maioria do júri era formada por latino-americanos que não entendiam nada de português. Nossa conquista já estava prestes a se perder, quando alguém (uma fada?) se interpôs ao destino: “eu traduzo”. Nos viramos e vimos que foi a escritora Zélia Gattai, ao lado de Jorge Amado, quem falou.

Dorival então foi exibido assim, com uma nobríssima tradução ao vivo, e acabou ganhando o primeiro prêmio do festival que foi entregue por quem? Quem? Francis Ford Coppola – sim, eu sei que parece mentira…

 Essa história, inclusive, está no livro de memórias da Zélia – A casa do rio vermelho – já a contei muitas vezes e eu mesmo me surpreendo com ela nas vezes que a recordo. (Como recentemente num almoço com dois grandes amigos, Paulo Sérgio Guedes e o Marco Antônio Campos – este, um cinéfilo admirável, que me pediu que a escrevesse para seu blogue de aventuras, lembranças, teses…cinematográficas).

Volta e meia me imagino de volta a Cuba em 1986. Tivesse essa possibilidade, com a devida licença de Jorge Amado, eu tiraria Zélia Gattai para dançar e, entre encantado e comovido, lhe daria um beijo em agradecimento e diria ao pé do seu ouvido, à maneira de Bogart:

“Olha, aconteça o que acontecer, sempre teremos Havana.”

TODAY’S GUEST OF CINEMARCO IS THE FILMMAKER, ADVERTISER AND MY FRIEND JOSÉ PEDRO GOULART.

It was 1986. Brazil, under new winds, was trying to fix some mistakes with its neighbors. Among them, Cuba. After more than fifteen years in the shadows of secrecy, the relationship between Cubans and Brazilians received the solar effluvia of the new order that was announced.

Let’s toast, then. About thirty Brazilians break their coin piggy banks, some even held raffles (I can say) and flocked to the famous island to participate in the festival del cine, a traditional and important den of left-wing intellectuals. Jorge Furtado and I were in the group, carrying the cans of our short film, The day Dorival faced the guard. There was a single copy with subtitles, but it was in Spain. In doubt if it would arrive in time, we took this other one, without subtitles.

So we ended up in Cuba, before fax, cell phone or internet, depending on the bureaucracy of a communist country, which is equivalent to depending on Gerald Thomas for a lecture with nexus. And while some occupied the streets of Havana with their paradoxes of beauty and hardness, Jorge and I were obsessively calling the festival organization to find out if the copy had arrived: “No, y no, e hoy también no.”

Did not arrive. It would never make it But we had gone there! Something needed to be done. We crashed a party with people like Gregory Peck, Sidney Pollack and Gabriel Garcia Marquez. Also in place, the members of the festival’s jury and its president, Jorge Amado. Attentive, he told us that the jury meeting had just ended and the winners chosen. Dissatisfied, we even invoked the spirit of Che. Miracle! Jorge Amado convinced the jury to meet again.

But there was another problem, the damn copy without subtitles. The majority of the jury was made up of Latin Americans who did not understand any Portuguese. Our conquest was already about to be lost, when someone (a fairy?) got in the way of fate: “I translate”. We turned around and saw that it was the writer Zélia Gattai, alongside Jorge Amado, who spoke.

Dorival so it was shown like this, with a very noble live translation, and ended up winning the first prize at the festival, which was given by whom? Who? Francis Ford Coppola – yes, I know it sounds like a lie…

This story is even in Zélia’s memoir – The house of the red river – I’ve told it many times and I myself am surprised by it every time I remember it. (Like recently at lunch with two great friends, Paulo Sérgio Guedes and Marco Antônio Campos – the latter, an admirable cinephile, who asked me to write it for his blog about cinematographic adventures, memories, theses…).

Every now and then I imagine myself back in Cuba in 1986. If I had that possibility, with the due permission of Jorge Amado, I would ask Zélia Gattai to dance and, between enchanted and moved, I would kiss her in gratitude and say in her ear , in the manner of Bogart:

“Look, whatever happens, we’ll always have Havana.”

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