1917: Filme de Sam Mendes é um Prodígio Tecnológico Mas o Destaque é o Ser Humano e sua Vontade Interminável

1917 é, além de um ótimo filme dirigido por um cineasta que domina de forma completa a linguagem cinematográfica, um prodígio tecnológico. Acho que a única vez em que me senti “dentro da guerra”como vendo 1917 foi na sequência de O RESGATE DO SOLDADO RYAN, de Steven Spielberg. Somente por trazer isto ao gênero dos filmes de guerra, 1917 já teria valido muito a pena.

Só que a obra cinematográfica de Sam Mendes importa (homenageia) outro elemento clássico dos filmes de guerra, este bem mais comum nos filmes clássicos: mostrar o nonsense da guerra, a destruição generalizada, a violência pela violência e a que ponto pode chegar o ser humano cego por uma “causa”.

Curiosa e talentosamente, em 1917 isto vem de inúmeros elementos indiretos, independentes das cenas de ação propriamente dita do filme. É a placa na trincheira alertando para os soldados manterem a cabeça abaixada por causa dos franco-atiradores, os animais mortos ou vivos pelo caminho (cavalos, vacas, urubus, moscas e afins), um bebê sem pai nem mãe passando fome, e por aí vai. Claro que o auge do descabimento da guerra vem do enredo propriamente dito: dois soldados ingleses da Primeira Guerra Mundial, integrantes de um batalhão estacionado na França próximo ao final do conflito (o exército alemão está em retirada) recebem a missão suicida de atravessar uma longa extensão de terra para avisar outro batalhão que eles vão ser massacrados se atacarem na manhã seguinte.

Claro que o fato do irmão mais velho de um deles integrar o batalhão à beira da morte acresce um elemento dramático maior à missão. Morrer para salvar o irmão. Belo enredo.

O prodígio técnico da narrativa (simular que o filme foi feito em um longuíssimo e ininterrupto plano sequência) praticamente o tempo todo com “a câmera na mão” traz cenas inacreditáveis, em que Sam Mendes nos coloca no olhar dos protagonistas (as cenas em que são alvo de tiros do inimigo ficam incríveis com a gente abaixando a cabeça no cinema), no olhar dos inimigos e como observadores neutros (?) dentro do campo de batalha.

Muitas críticas afirmaram que esta obsessão pelo tecnicismo da filmagem assumiu o papel de protagonista do filme, colocando o enredo em segundo plano. Concordo e não concordo. Realmente, em determinados momentos parece que o ângulo de câmera ficou mais importante que o filme. Mas o resultado é tão espetacular que confesso que gostei muito mais do que me incomodou.

Para agregar ainda mais qualidade, há uma verdadeira seleção de ótimos atores que se soma aos excelentes protagonistas Dean-Charles Chapman (Game of Thrones) e George McKay (do excepcional filme PRIDE): Benedict Cumberbatch (SHERLOCK da BBC), Mark Strong, Colin Firth e Andrew Scott.

O melhor do filme, no entanto, é mostrar que o elemento humano ainda sobrevive e se impõe mesmo neste cenário totalmente caótico; na linha dos clássicos GLÓRIA FEITA DE SANGUE e APOCALIPSE NOW, 1917 traz este elemento de esperança (“a esperança é a pior notícia”) na vontade férrea e indestrutível do personagem principal em cumprir sua missão, na proteção ao bebê, na permanência das lembranças de família, na solidariedade onde nada mais de positivo resta. Claro que a maioria dos personagens somente pensa em destruir e matar, afinal estamos em uma guerra. Mas ainda existem momentos de dar a mão ao parceiro em nome de algo maior ou ver uma prece de um Reverendo com um olhar no futuro. O gênero humano é feito de sobreviventes esperançosos por algo maior.

1917 is, besides a great film directed by a filmmaker who completely dominates the cinematographic language, a technological prodigy. I think the only time I felt “inside the war” as seeing 1917 was in the prologue of SAVING PRIVATE RYAN, by Steven Spielberg. Just by bringing this to the genre of war films, 1917 would have been worth it.

But Sam Mendes‘ cinematographic work imports (pays homage) another classic element of war films, this much more common in classic films: showing the nonsense of war, widespread destruction, violence by violence and the point that being can reach human blind for a “cause”.

Curiously and talented, in 1917 this comes from countless indirect elements, independent of the action scenes in the film itself. It is the sign in the trench warning soldiers to keep their heads down because of snipers, animals dead or alive along the way (horses, cows, vultures, flies and other), a baby without a father or mother starving. Of course, the height of the outbreak of the war comes from the plot itself: two English soldiers of the First World War, members of a battalion stationed in France near the end of the conflict (the German army is in retreat) receive the suicide mission to cross a long extension of land to warn another battalion that they will be slaughtered if they attack the next morning.

Of course, the fact that the older brother of one of them is in the battalion on the verge of death adds a greater dramatic element to the mission. Die to save your brother. Nice plot.

The technical prodigy of the narrative (simulating that the film was made in a very long and uninterrupted sequence) practically all the time with “the camera in hand” brings unbelievable scenes, in which Sam Mendes puts us in the eyes of the protagonists (the scenes in which they are shot at by the enemy look incredible with us ducking our heads in the theater), in the eyes of enemies and as neutral observers (?) within the battlefield.

Many critics said that this obsession with the technicality of filming took on the role of the film’s protagonist, putting the plot in the background. I agree and I don’t agree at the same time. Indeed, at certain times it seems that the camera angle has become more important than the film. But the result is so spectacular that I confess that I liked it much more than it bothered me.

To add even more quality, there is a real selection of great actors that bring excellence to the outstanding protagonists Dean-Charles Chapman (Game of Thrones) and George McKay (from the exceptional film PRIDE): Benedict Cumberbatch (BBC SHERLOCK), Mark Strong, Colin Firth and Andrew Scott.

The best part of the film, however, is to show that the human element still survives and imposes itself even in this totally chaotic scenario; in line with the classics PATHS OF GLORY and APOCALYPSE NOW, 1917 brings this element of hope (“hope is the worst news”) in the iron and indestructible will of the main character in fulfilling his mission, in protecting the baby, in the permanence of family members, in solidarity where nothing more positive remains. Of course, most characters only think of destroying and killing, after all we are in a war. But there are still moments to give your partner a hand in the name of something bigger or see a Reverend’s prayer with a look to the future. The human race is made up of survivors hopeful for something greater.

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