HUNTERS: Como é Difícil Terminar uma História

Eu brinquei certa vez de que se fosse escrever o roteiro de um filme, iniciaria pela última cena. O final da história é talvez mais importante que sua ideia e seu desenvolvimento. Quantos filmes a gente conhece que colocaram tudo a perder por um final ruim, frouxo ou mal pensado. E não estou me referindo a finais felizes ou infelizes. CASABLANCA, meu filme favorito tem o final “infeliz” mais romântico, perfeito e inteligente da história do cinema.

Cito sempre como exemplo, o filme OS ESQUECIDOS, de Joseph Rubem, um drama de 2004, estrelado pela excelente Juliane Moore. A trama envolve uma mulher e seu marido que subitamente tem um filho desaparecido e começam a lutar para descobrir o que houve e convencer seus amigos de que a criança existia. A trama – complexa ao extremo e muito tensa – subitamente tem uma guinada (desculpem o spoiler!) quando em determinada cena uma personagem é sugada para o espaço e se vê que tudo era um complô de seres extra terrestres. Foi certamente um dos piores encaminhamentos de final de filme que vi em minha vida, uma coisa próxima do patético.

A maravilhosa série de TV LOST, em minha opinião também padeceu da “síndrome do fim do filme”. Quando iniciou (e se tornou um fenômeno mundial de audiência), a maioria das versões sobre o final da história previa que os personagens estariam mortos e nada daqueles fatos teria acontecido (ao menos neste mundo). Os produtores da série deram dezenas de entrevistas garantindo que tal não era a hipótese e que o final seria diferente. Último capítulo da oitava temporada, se vê que todos estavam mortos desde o acidente. Pelo menos eu me senti ludibriado.

É muito difícil conceber o final de uma história complexa e cheia de personagens e acontecimentos, porque tudo tem que “fechar”nos mínimos detalhes. Neste particular, o filme O SEXTO SENTIDO, de M.Knight Shyamalan é uma obra prima. O final absolutamente surpreendente resiste ao reexame de todo o filme e de todas as cenas. E o pior é que o roteiro dava várias pistas do final (“I see dead people”) que a gente teimou em não ver.

A série HUNTERS da Amazon Prime Video tem uma história complexa e brilhantemente concebida. Por isto, não há como deixar de se decepcionar com o último capítulo. As duas “surpresas” do final da série foram, a meu ver, muito mal pensadas e impactaram muito no resultado. Fora que deixaram inúmeros “buracos” na história dando a impressão de ter sido precipitadamente decididas. O jornalista Evan Romano, da Revista ESQUIRE fez uma bela analogia: “Em essência, é como se Luke tirasse o capacete de Darth Vader no final de O Retorno dos Jedi, e visse Obi-Wan por baixo.” Uma pena.

É muito difícil terminar bem um filme ou série.

I joked once that if I were to write a movie script, I would start with the last scene. The end of the story is perhaps more important than its idea and development. How many films do we know that have put everything to lose by a bad, loose or badly thought-out ending. And I’m not referring to happy or unhappy endings. CASABLANCA, my favorite film has the most romantic, perfect and intelligent “unhappy” ending in the history of cinema.

I always cite as an example, the film THE FORGOTTEN, by Joseph Rubem, a 2004 drama, starring the excellent Juliane Moore. The plot involves a woman and her husband who suddenly have a missing child and begin to struggle to find out what happened and to convince their friends that the child existed. The plot – complex and very tense – suddenly takes a turn (sorry for the spoiler!) when in a certain scene a character is sucked into space and it turns out that everything was a plot of extraterrestrials. It was certainly one of the worst end-of-film I’ve seen in my life, something close to pathetic.

The wonderful LOST TV series, in my opinion, also suffered from the “end of film syndrome”. When it started (and became a worldwide audience phenomenon), most versions about the end of the story predicted that the characters would be dead and none of those facts would have happened (at least in this world). The series’ producers gave dozens of interviews ensuring that this was not the case and that the ending would be different. Last chapter of the eighth season, it is seen that everyone was dead since the accident. At least I felt cheated.

It is very difficult to conceive the end of a complex story full of characters and events, because everything has to “close” in the smallest details. In this regard, the film THE SIXTH SENSE, by M.Knight Shyamalan is a masterpiece. The absolutely surprising ending resists reexamination of the entire film and all scenes. And the worst thing is that the script gave several clues to the end (“I see dead people”) that we insisted on not seeing.

The Amazon Prime Video HUNTERS series has a complex and brilliantly designed story. Therefore, there is no way to not be very disappointed with the last chapter. The two “surprises” at the end of the series were, in my view, very poorly thought out and had a great bad impact on the result. They left numerous “holes” in history, giving the impression that they were hastily decided. The ESQUIRE journalist Evan Romano said about the “twist”: “In essence, it’s like if Luke took off Darth Vader’s helmet at the end of Return of the Jedi, and instead saw Obi-Wan underneath.” A pity.

It is very difficult to finish a film (or a series) well.

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