A MARCA DA MALDADE: Orson Welles Rodou Seu Último Filme nos EUA Brigando com a Warner. Saiu um Filme Grandioso.

Os filmes em que o diretor e o estúdio se desentendem antes do final, gerando várias versões são histórias clássicas de Hollywood. O campeão deve ser BLADE RUNNER, de Ridley Scott que tem seis ou sete versões. A MARCA DA MALDADE, de Orson Welles é assim. A primeira versão lançada pela Warner nos cinemas, em 1958 era completamente fora do que o Diretor Welles queria.

Ao vê-la nas telas, Orson Welles escreveu um memorando de 57 páginas dizendo o que gostaria de alterar no filme. É esta versão “reconstruída” de acordo com a vontade de Welles que está em DVD e disponível nos serviços de streaming.

A MARCA DA MALDADE é um filme maravilhoso por tudo que contém. Narra a história de um policial mexicano, Ramon Miguel “Mike”Vargas (Charlton Heston espetacular) que é forçado a interromper sua lua de mel com a lindíssima Susan Vargas (Janeth Leigh deslumbrante) quando um empreiteiro americano é morto na explosão de uma bomba. O crime leva o policial a enfrentar uma rede de corrupção, sequestro, drogas e assassinatos, em que a principal figura é o corrupto policial americano Capitão Hank Quinlan (vivido por um enorme Orson Welles já no final da vida).

O elenco de apoio tem somente Marlene Dietrich, Akim Tamiroff, Zsa Zsa Gabor Joseph Calleia, Joanna Moore e um jovem e iniciante Denis Weaver (anos depois intérprete do Xerife McCloud na série OS DETETIVES).

Tudo é impecável em A MARCA DA MALDADE. O roteiro, baseado no livro THE BADGE OF EVIL, de Whit Masterson é primoroso. Apenas para citar um entre tantos diálogos memoráveis, escolho aquele em que o policial corrupto se dirige à cartomante. “Leia as cartas. Qual é o meu futuro?” “Você não tem nenhum.”, responde ela (papel maravilhoso de Marlene Dietrich).

A fotografia em preto e branco de Russel Metty é espetacular. Os ângulos de câmera de Welles são de tirar o fôlego. A trilha sonora – com música incidental de Henry Mancini – é um arraso. Tanto a cena inicial quanto a final são exemplares da melhor arte do cinema.

Fred Camper, crítico do Chicago Reader, escreveu sobre o filme: “Mas, por mais magistral que seja a filmagem de Welles, o que faz de Touch of Evil uma obra-prima impressionante é a qualidade global de seu estilo, que faz com que todas as imagens ecoem em quase todas as outras no filme. O uso de uma lente grande angular proporciona foco profundo – tanto o primeiro plano quanto o fundo são nítidos – e parece esticar ou curvar o espaço. A abordagem intensamente física de Welles faz com que as imagens sejam colagens de superfícies sensuais. Juntas, sua câmera móvel, iluminação complexa e perspectivas instáveis ​​parecem parte da busca do cineasta em estabelecer um contato íntimo com todos os objetos do mundo. Cada rua fracamente iluminada, cada esquina de cada quarto, parece sondada por uma câmera que quer não apenas ver, mas tocar tudo à vista. O roteiro de Welles também reflete esse desejo quase polimorfo-perverso de incorporar tudo. O desejo de Quinlan até se estende à vida sexual de outras pessoas: ele torce as palavras de Vargas para fazer parecer que Susan foi a um encontro com um dos lacaios de Grandi, e ele mostra um interesse voyeurista semelhante no caso entre a filha de Sanchez e Linnekar.
… Na extraordinária cena final, a câmera desiste de unificar o espaço. Em vez disso, passamos por formas disjuntivas – pontes, canais, torres de petróleo, valas de drenagem, lixo – todas que parecem metáforas para o colapso da mente de Quinlan. Uma torre de óleo absurdamente fálica vista de baixo, por exemplo, é o sinal perfeito de suas ambições fracassadas ao enfrentar o iminente desenlace de sua identidade como um policial honesto. Uma busca apaixonada por uma unidade perdida com o mundo sensual – acompanhada quase desde o início com o reconhecimento da impossibilidade dessa busca, espelhando os temas mais amplos do amor e sua perda, vida e morte – é o verdadeiro e exagerado assunto de filme de crime orçamentário, ironicamente rotulado por uma crítica contemporânea da Variety “não é um ‘grande’ filme”.

A MARCA DA MALDADE é uma obra cinematográfica perfeita. Só um gênio com Orson Welles poderia criar algo assim.

The films in which the director and the studio disagree before the end, generating several versions are classic Hollywood stories. The champion must be Ridley Scott‘s BLADE RUNNER who has six or seven versions. TOUCH OF EVIL, by Orson Welles is one of this troubled movies. The first version released by Warner in theaters in 1958 was completely outside of what Director Welles wanted.

Seeing it on the screen, Orson Welles wrote a 57-page memo saying what he would like to change in the film. It is this version “reconstructed” according to Welles’ will that is on DVD and available on streaming services.

TOUCH OF EVIL is a wonderful film for everything it contains. It tells the story of a Mexican policeman, Ramon Miguel “Mike” Vargas (a spectacular Charlton Heston) who is forced to interrupt his honeymoon with the beautiful Susan Vargas (stunning Janeth Leigh) when an American contractor is killed in a bomb explosion. The crime leads the cop to face a network of corruption, kidnapping, drugs and murders, in which the main figure is the corrupt American policeman Captain Hank Quinlan (lived by a huge Orson Welles at the end of his life).

The supporting cast has only Marlene Dietrich, Akim Tamiroff, Zsa Zsa Gabor, Joseph Calleia, Joanna Moore and a young beginner Denis Weaver (years later Sheriff McCloud).

Everything is impeccable in TOUCH OF EVIL. The script, based on the book THE BADGE OF EVIL, by Whit Masterson is exquisite. Just to mention one among so many memorable dialogues, I choose the one in which the corrupt police officer addresses the fortune teller. “Read the letters. What is my future?” “You don’t have any,” she replies (wonderful role by Marlene Dietrich).

Russel Metty’s black and white photograph is spectacular. Welles’ camera angles are breathtaking. The soundtrack – with incidental music by Henry Mancini – is a hit. Both the initial scene as the last one are top examples of the cinematic art.

Fred Camper, a critic of the Chicago Reader, wrote about the film: “But as masterful as Welles’s filming is, what makes Touch of Evil a staggering masterpiece is the global quality of his style, which causes every image to echo almost every other in the film. Using a wide-angle lens both affords deep focus–foreground and background alike are sharp–and seems to stretch or curve the space. Welles’s intensely physical approach makes one feel the images to be collages of sensuous surfaces. Together his roving camera, complex lighting, and shifting perspectives seem parts of the filmmaker’s quest to forge an intimate contact with every object in the world. Each faintly lit street, every corner of every room, seems plumbed by a camera that wants not only to see but to touch everything within view. Welles’s script also reflects this almost polymorphous-perverse desire to incorporate everything. Quinlan’s desire even extends to others’ sex lives: he twists Vargas’s words to make it seem as if Susan has gone on a date with one of Grandi’s lackeys, and he shows a similar voyeuristic interest in the affair between Sanchez and Linnekar’s daughter.
…In the extraordinary final scene, the camera gives up its striving to unify space. Instead we proceed past disjunct shapes–bridges, canals, oil derricks, drainage ditches, garbage–all of which seem metaphors for the breakdown of Quinlan’s mind. An absurdly phallic oil derrick seen from below, for example, is the perfect sign of his failed ambitions as he’s faced with the imminent unraveling of his identity as an honest cop. A passionate quest for a lost unity with the sensual world–accompanied almost from the beginning with an acknowledgment of that quest’s impossibility, mirroring the larger themes of love and its loss, life and death–is the outsize true subject of a low-budget crime film, ironically labeled by a contemporary Variety review “not a ‘big’ picture.”

TOUCH OF EVIL is a perfect cinematographic work. Only a genius as Orson Welles could create such a thing.

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