À Beira do Caminho

A CONVIDADA DO CINEMARCO DE HOJE É A BRILHANTE JORNALISTA LEA PENTEADO.

Em 2005, recém-chegada ao sul da Bahia onde me dera de presente um semestre sabático, o destino me pregou uma surpresa e acabei sendo convidada a prestar consultoria para uma enorme fábrica de celulose da região, que estava se preparando para ser inaugurada. “A 2ª. maior do mundo”, assim anunciavam. Para fazer celulose é preciso muito eucalipto, as plantações se estendiam por terras em 10 municípios no entorno e alguma ação deveria ser feita com as comunidades para fixar a marca e iniciar um diálogo com boas relações.

Criei o projeto de uma caravana itinerante, que aconteceria a cada fim de semana em uma cidade, e para realizar viajei bastante em uma área de 300 kms. Era um outro Brasil que eu não tinha qualquer intimidade.

O litoral sempre é rico, mas o interior tem suas pobrezas gritantes. E foi numa dessas viagens que parei num posto de gasolina para abastecer e ao meu lado estava um caminhão tipo baú, com a porta aberta onde pude ver espalhado em cima do banco do carona cds do Roberto Carlos.

Tentei puxar conversa com o caminhoneiro, mas nem me respondeu. Além dos CDs, consegui ver na boleia um cachorro, algumas roupas penduradas. Cenário padrão de quem vive nas estradas. Saí do posto e restou na minha memória o olhar triste, meio que perdido no tempo, do homem ainda jovem, o cachorro e a trilha sonora que o acompanharia.

Viajei dias com aquela cena na mente, tentando construir a história desse homem que não tinha aparência física de nordestino, imaginando do que ele estaria “fugindo”. Este foi o sentimento que tive.

Fui mentalmente construindo um enredo até que um dia, daquelas coisas que só se culpa o destino, recebi um telefonema do Lula Buarque da Conspiração Filmes querendo fazer contato com o Dody Sirena para propor um filme sobre o Roberto Carlos.

Não era eu a pessoa mais adequada para esse link, mas teorizar sobre o Rei e sua importância no inconsciente coletivo do brasileiro é sempre uma boa conversa e comentei sobre o caminhoneiro solitário, sobre quantos iguais estariam rodando as estradas do país. “Escreve este argumento e me manda…” falou Lula antes de desligar.

E foi assim que começou a nascer “À Beira do Caminho”, filme dirigido por Breno Silveira com João Miguel, Dira Paes, Angelo Antonio, Vinicius Nascimento, Ludmila Rosa e Denise Weinberg. Escrevi o argumento e o roteiro foi feito pela Patrícia Andrade.

O texto, com pouco mais de 1 lauda, saiu fácil do computador mas foi um longo caminho até o filme chegar nas telas. Além do processo de autorização para uso das músicas, um trabalho meticuloso, olhar exigente e profissional do Roberto, no percurso Breno teve um problema familiar que o obrigou a se afastar do projeto por quase dois anos.

Em agosto de 2012 o filme foi para as telas e confesso que chorei muito… Uma emoção que não se explica, um sentimento mágico … Foi indizível a sensação de assistir aquela cena do dia a dia, tocante, que não durou mais do 5 minutos, se transformar no filme À Beira do Caminho através da sensibilidade do Breno. As oportunidades surgem quando menos se espera, é só estar com o coração e a mente abertos…

TODAY’S CINEMARK GUEST IS LEA PENTEADO, A BRILLIANT JOURNALIST.

In 2005, recently arrived in the south of Bahia where I had been given a sabbatical semester as a gift, destiny gave me a surprise and I ended up being invited to consult a huge pulp mill in the region, which was preparing to be opened. “The 2nd. largest in the world ”, they announced. To make cellulose, a lot of eucalyptus is needed, the plantations spread over land in 10 surrounding municipalities and some action should be taken with the communities to fix the brand and start a dialogue with good relations.

I created the project for an itinerant caravan, which would take place every weekend in a city, and to travel I traveled extensively in an area of ​​300 km. It was another Brazil that I had no intimacy with.

The coast is always rich, but the interior has its stark poverty. And it was on one of those trips that I stopped at a gas station to refuel and next to me was a trunk truck, with the door open where I could see Roberto Carlos’ CDs seated on the passenger seat.

I tried to start a conversation with the truck driver, but he didn’t even answer me. In addition to the CDs, I could see a dog on the ride, some clothes hanging. Standard scenario for those who live on the roads. I left the station and the sad look, kind of lost in time, of the still young man, the dog and the soundtrack that would accompany him remained in my memory.

I traveled for days with that scene in mind, trying to build the story of this man who did not have the physical appearance of a Northeasterner, wondering what he was “running from”. This was the feeling I had.

I was mentally constructing a plot until one day, of those things that only fate blames, I received a call from Lula Buarque da Conspiration Films wanting to make contact with Dody Sirena to propose a film about Roberto Carlos.

I was not the most suitable person for this link, but theorizing about the King and his importance in the collective unconscious of the Brazilian is always a good conversation and I commented on the lone truck driver, about how many of the same would be driving the country’s roads. “Write this argument and send me …” said Lula before hanging up.

And that was how “À Beira do Caminho” began, a film directed by Breno Silveira with João Miguel, Dira Paes, Angelo Antonio, Vinicius Nascimento, Ludmila Rosa and Denise Weinberg. I wrote the argument and the script was done by Patrícia Andrade.

The text, with just over 1 page, came out easily from the computer but it was a long way until the film reached the screens. In addition to the authorization process for using the songs, meticulous work, Roberto’s demanding and professional look, on the way Breno had a family problem that forced him to leave the project for almost two years.

In August 2012 the film went to the screens and I confess that I cried a lot … An emotion that cannot be explained, a magical feeling … It was unspeakable the feeling of watching that everyday scene, touching, that didn’t last any longer do 5 minutes, transform into the film À Beira do Caminho through Breno’s sensitivity. Opportunities arise when you least expect them, just with an open heart and mind …

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