ESTAMOS TODOS BEM

A CONVIDADA DE HOJE DO CINEMARCO É A JORNALISTA SORAIA HANNA.

No último dia 6 de julho, perdemos o grande maestro, compositor e arranjador Ennio Morricone. E num tributo saudosista de uma entusiasmada fã desse gênio musical, revisitei algumas de suas trilhas que demarcaram ainda mais o sucesso de vários filmes. Para citar alguns: os aclamados The Good, the Bad and the Ugly (1966), Cinema Paradiso (1988) e The Mission (1986).

Mas o tema que me toca profundamente do oscarizado maestro não foi um grande sucesso de bilheteria, apesar de ter arrematado alguns leões em Cannes. Falo de Stanno Tutti Bene (1990), estrelado pelo maravilhoso Marcello Mastroianni, com direção de um costumeiro parceiro de Morricone: o diretor Giuseppe Tornatore.

No álbum musical da película, destaque para a composição “Viaggio” – que, como a própria tradução diz, permite uma viagem melancólica para além das cidades visitadas por Matteo Scuro. Funcionário público aposentado e viúvo, ele percorre a Itália para matar a saudade dos filhos. Cada nota transcende com doçura, intensidade, tristeza, paixão e beleza uma busca interior da essência que nos faz gente – vivendo dores, alegrias e se conectando com o que somos, sem sombras.

Já na estação siciliana, onde o protagonista começa sua epopeia, a mistura de drama, comédia e, principalmente, poesia desperta a atenção dos telespectadores com os primeiros acordes que se misturam com a partida do trem.

A cena que Don Matteo pede para que o ferroviário o pergunte para onde ele iria é de uma ternura, de uma simbologia e de uma interpretação tão límpida que se você não quiser assistir os mais de 100 minutos que seguem a obra, já terá valido a pena.

Mas, se continuar, terá a oportunidade de assistir algo longe da performance hollywoodiana, com mesclas cotidianas simplórias, um realismo fantástico por vezes tosco, mas calando firme na essência, nas relações de pais e filhos e nas imposições sociais. Aprofunda também como encaramos a solidão, o tratamento com os idosos, até quando protegemos com a mentira, até quando amamos com as verdades. É intenso, puro, doce, divertido e, ao mesmo tempo, desconcertante.

Nem sempre quando muita gente boa se junta há a garantia de bons resultados. Assim como na gastronomia – e na riquíssima culinária italiana, mais ainda – e nas relações humanas, química é tudo.

O trio Tornatore, Mastroianni e Morricone acertou os temperos e nos proporcionaram uma experiência singular, intensa (como o gosto por óperas de Scuro) e verdadeiramente muito humana.

Por tudo isso recomendo assistir à versão original de Stanno Tutti Bene (1990).

Last July 6th, we lost the great conductor, composer and arranger Ennio Morricone. And in a nostalgic tribute from an enthusiastic fan of this musical genius, I revisited some of its tracks that further marked the success of several films. To name a few: the acclaimed The Good, the Bad and the Ugly (1966), Cinema Paradiso (1988) and The Mission (1986).

But the theme that touches me deeply about the oscarized conductor was not a big box office success, despite having won some palms in Cannes. I speak of Stanno Tutti Bene (1990), starring the wonderful Marcello Mastroianni, directed by Morricone’s usual partner: director Giuseppe Tornatore.

In the film’s musical album, the composition “Viaggio” stands out – which, as the translation itself says, allows for a melancholy journey beyond the cities visited by Matteo Scuro. A retired civil servant and widower, he travels through Italy to see again his children. Each note transcends with sweetness, intensity, sadness, passion and beauty an inner search for the essence that makes us people – experiencing pain, joy and connecting with what we are, without shadows.

At the Sicilian station, where the protagonist begins his epic, the mixture of drama, comedy and, mainly, poetry arouses the attention of viewers with the first chords that mix with the departure of the train.

The scene that Don Matteo asks the railwayman to indague him where he would go is of a tenderness, a symbology and a interpretation so clear that if you do not want to watch the more than 100 minutes that follow, it will have already been worth it.

But, if you continue, you will have the opportunity to watch something far from the Hollywood performance, with simple everyday mixes, a fantastic realism at times crude, but remaining firm in essence, in the relationships of parents and children and in social impositions. It also deepens how we face loneliness, treatment with the elderly, even when we protect with lies, even when we love with truths. It is intense, pure, sweet, fun and, at the same time, disconcerting.

Not always when a lot of good people get together there is a guarantee of good results. As in gastronomy – and in the richest Italian cuisine, even more – and in human relations, chemistry is everything.

The Tornatore, Mastroianni and Morricone trio got the spices right and gave us a unique, intense experience (like Scuro’s taste for operas) and truly very human.

For all these reasons I recommend watching the original version of Stanno Tutti Bene (1990).

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