A MORTE DEPOIS DA MORTE

O CONVIDADO DE HOJE DO CINEMARCO É O JORNALISTA NÍLSON SOUZA.

Assisti dia desses a um filme de animação que venceu o Oscar na sua categoria e que aborda, de forma sensível e inteligente, um tema dos mais delicados para a espécie humana: a morte física. Coco, no original da Disney/Pixar, ou Viva – A Vida é Uma Festa, na versão brasileira, diverte e emociona adultos e crianças, apesar da temática aparentemente pesada.

Além disso, passa mensagens edificantes e instigantes, entre as quais a de que uma pessoa só morre de verdade quando deixa de ser lembrada pelo último dos seus parentes, amigos ou conhecidos.


Sem adentrar no terreno sempre pantanoso das religiões e da imortalidade do espírito, me parece que a crendice mexicana faz algum sentido na vida real. Quando ninguém mais lembrar que você existiu, você deixa realmente de existir – como memória, como alma penada, como anjo da guarda ou seja lá o que for. Os mexicanos cultuam obstinadamente seus falecidos – com altares, imagens e, às vezes, até as próprias ossadas – porque acreditam que os finados voltam para visitar os vivos no Dia dos Mortos.


Por aqui também reverenciamos a data, mas não chegamos a tanto. Porém, transpondo para a nossa realidade, sempre sinto um certo desconforto quando leio um edital de cemitério avisando que alguns hóspedes involuntários serão despejados de suas sepulturas se os responsáveis não comparecerem à administração no prazo determinado. Fico com a impressão de que o translado para o ossário coletivo, que é como o novo endereço é chamado na linguagem cemiterial, equivale à desintegração cinematográfica dos esqueletos esquecidos.

Não deixa de ser, também, uma morte depois da morte.

Por isso, se você está ainda na sua primeira vida, procure lembrar os seus queridos que já se foram. Se não liga para velas e orações, conte uma história engraçada, recorde algo de bom que a criatura tenha feito, inclua o nome dela nas suas melhores lembranças de convívio pretérito. Quem sabe isso não a ajudará a manter-se ativa no enigmático mundo dos espectros?

Aproveite também essa primeira vida tão preciosa para abraçar os vivos e, se ainda não viu, para ver o filme. É bem legal. Procure ouvir com atenção a canção Remember Me, também contemplada com um Oscar. É inspirado nela que deixo o recado final desta crônica: se você lembrar de uma pessoa amada, ela viverá para sempre em algum lugar do seu coração.

TODAY’S GUEST TO CINEMARCO IS JOURNALIST NÍLSON SOUZA.

The other day I watched an animated film that won the Oscar in its category and that addresses, in a sensitive and intelligent way, a very delicate theme for the human species: physical death. Coco, in the original Disney / Pixar, amuses and thrills adults and children, despite the seemingly heavy theme.

In addition, it sends uplifting and thought-provoking messages, among which is that a person only really dies when he is no longer remembered by the last of his relatives, friends or acquaintances.


Without entering the marshy terrain of religions and the immortality of the spirit, it seems to me that Mexican belief makes some sense in real life. When no one else remembers that you existed, you really cease to exist – as a memory, as a lost soul, as a guardian angel or whatever. Mexicans obstinately worship their deceased – with altars, images and sometimes even the bones themselves – because they believe that the deceased return to visit the living on the Day of the Dead.


Around here we also revere the date, but we haven’t reached that much. However, transposing to our reality, I always feel a certain discomfort when I read a cemetery notice warning that some involuntary guests will be evicted from their graves if those responsible do not show up to the administration within the specified time. I get the impression that the transfer to the collective ossuary, which is what the new address is called in cemetery language, is equivalent to the cinematic disintegration of forgotten skeletons.

It is also a death after death.

So if you are still in your first life, try to remember your loved ones who are already gone. If you don’t care about candles and prayers, tell a funny story, remember something good that the creature has done, include her name in your best past memories. Who knows, maybe it will help you stay active in the enigmatic world of specters?

Also take advantage of that precious first life to embrace the living and, if you haven’t seen it, to see the film. It’s pretty cool. Try to listen carefully to the song Remember Me, also awarded an Oscar. It is inspired by her that I leave the final message of this chronicle: if you remember a loved one, he will live forever somewhere in your heart.

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