ALLAN STEWART KONIGSBERG, O NOSSO WOODY ALLEN

O CONVIDADO DE HOJE DO CINEMARCO É O PSIQUIATRA PAULO SÉRGIO ROSA GUEDES   

Sempre pensei que a partir dos irmãos Lumière e de Charles Chaplin, Woody Allen seria o maior gênio da história do cinema. Mas ao lembrar de Federico Fellini, Carlos Saura, Ingmar Bergman, entre tantos outros, percebo quanta bobagem que a gente diz.

Meus comentários sobre o grande Allen serão sobre seu filme O Escorpião de Jade, datado do ano de 2001 – claro que poderia escolher praticamente qualquer outro, dadas suas excepcionais magnitudes – visto que esta sua produção muito diz sobre as características da alma humana.

O filme trata de dois funcionários de uma importante companhia de seguros, Briggs e Fitzgerald, que, após festiva reunião com um mágico hipnotizador, passam a conduzir-se de forma particularmente estranha a eles mesmos. E é nesta conduta que o gênio de Woody Allen revela seu profundo conhecimento das vicissitudes de nossa vida.

Neste contexto vejamos uma descoberta essencial de Sigmund Freud: a saúde mental está inteiramente na histeria. Quando sob a condição escondida – chamada dissociada – de um estado “hipnoide ”, torna-se algo central no referido filme. Este estado emocional só aparece sozinho na patologia histérica, nunca junto com o chamado estado normal. Mas é somente quando os dois estados coexistem no indivíduo que a saúde se estabelece com suficiente firmeza.

Sob a negação da existência e da importância do estado hipnoide, que necessita viver junto ao estado chamado normal, o amor “não existe”, os sentimentos tornam-se supérfluos e insignificantes e torna-se necessário roubar as joias, isto é, buscar, pelo furto, a saúde mental que está subjugada dentro do próprio indivíduo. É o que nos mostra este filme ao revelar o furto realizado pelos então hipnotizados, “esquecidos” de suas condutas habituais.

A ideia fantástica de Woody Allen de que “se eu próprio me investigasse estaria perdido” ou “o melhor investigador é o ladrão” está baseada na aceitação do estado “hipnoide” por cada um de nós. Ao aceitar a própria inconsciência, a pessoa não mais necessita buscá-la no furto – pois já a tem – e pode investigar e viver com eficiência. Como diz Allen, “confio muito nos meus instintos” ! (Ángel Garma, eminente psicoanalista espanhol, ensina: “… se ha visto que cuanto más libres se hallan los instintos en un individuo, tanto mayor es su contacto con la realidad.)”

O poema de Fernando Pessoa, (1933),

“A CRIANÇA que fui chora na estrada,

Deixei-a ali quando vim ser quem sou;

Mas hoje, vendo que o que sou é nada,

Quero ir buscar quem fui onde ficou”,

configura expressivamente a busca do estado “hipnoide”. Sem ele não conseguimos viver plenamente. A ideia de que a criança que existe em nós é muito necessária à nossa vida significa: o “estado hipnoide” (a criança) é muito necessário à nossa existência.  

Leia-se na expressão “estado hipnoide ” um estado de certo grau de inconsciência – ou, em outras palavras, o inconsciente, ou ainda em outras palavras, a nossa alma. Na hipnose, e no filme, este estado é acessado pela habilidade do hipnotizador (e pela vontade do hipnotizado, óbvio) ao dizer as palavras Constantinopla e Madagascar. Ao “acordar”, o então hipnotizado não sabe e não lembra do ocorrido; aos poucos, entretanto, com a ajuda de seus colegas de trabalho, vai percebendo as evidências. Na saúde, é essencial que a pessoa saiba da existência de todos os seus possíveis estados d´alma e cultive a convivência com eles. Isto se observa, maravilhosamente, numa das cenas finais do filme, onde Briggs “dialoga” consigo próprio, em silêncio, percebendo simultaneamente seus vários estados emocionais.

  *   *   *   *   *   *

P.S.: Descrevo a seguir trechos de uma pequena carta que enviei ao cineasta no ano de 2002, a respeito de seu belo filme, para talvez melhor esclarecer elementos do comentário que fiz acima.

TRECHOS  DE UMA CARTA MINHA  PARA  WOODY  ALLEN

                                                     (Tradução livre)

Sempre fui um entusiasta da minha profissão. Tenho definido a psicoanalise como a arte de restituir a uma pessoa a alma que ela tem e, como Freud esclareceu amplamente, a “alma” se encontra num estado que ele chamou de “estado hipnoide”. Sem este último, não podemos viver plenamente.

Não considero, prezado cineasta, que o acesso a este estado se obtenha pela forma como a maioria propugna, ou seja, por métodos especiais; ao contrário, penso que este acesso se obtém apenas e exclusivamente pela vontade da própria pessoa, pelo desejo forte de lembrar e conhecer todos os detalhes de sua alma. E com a presença essencial do humor, do chiste, pois sem ele a alma se torna  inacessível.

Fiquei encantado com mais este seu trabalho. Ele é a própria expressão da psicoanalise como eu a entendo, ou seja, tanto C.W.Briggs (você) como Fitz (Helen Hunt) fizeram um esforço enorme para reencontrar suas almas. E reencontraram. Elas – suas almas – é que eram as joias que precisavam ser roubadas enquanto eles viviam como se não a tivessem. Agora, não serão mais ladrões – aliás, nunca o foram – serão, isto sim, amantes da vida e um do outro.

Cumprimentos afetuosos, prezado Allen. Se as pessoas pudessem dar importância maior a este e outros filmes seus, e os aplicassem a suas vidas diárias, o mundo certamente seria muito melhor.

TODAY’S CINEMARK GUEST IS PSYCHIATRIST PAULO SÉRGIO ROSA GUEDES

I always thought that from the Lumière brothers and Charles Chaplin, Woody Allen would be the greatest genius in the history of cinema. But when I remember Federico Fellini, Carlos Saura, Ingmar Bergman, among many others, I realize how much nonsense we say.

My comments about the great Allen will be about his film The Curse of the Jade Scorpion, dated 2001 (of course I could choose practically any other, given his exceptional magnitudes ) since its production says a lot about the characteristics of the human soul.

The film deals with two employees of a major insurance company, Briggs and Fitzgerald, who, after a festive meeting with a hypnotist magician, begin to conduct themselves in a particularly strange way to themselves. And it is in this conduct that Woody Allen‘s genius reveals his deep knowledge of the vicissitudes of our lives.

In this context let us see an essential discovery by Sigmund Freud: mental health is entirely in hysteria. When under the hidden condition – called dissociated – of a “hypnoid” state, it becomes something central in that film. This emotional state appears only in hysterical pathology, never together with the so-called normal state. But it is only when the two states coexist in the individual that health is established with sufficient firmness.

Under the denial of the existence and importance of the hypnoid state, which needs to live together with the state called normal, love “does not exist”, feelings become superfluous and insignificant and it becomes necessary to steal the jewels, that is, to seek, by theft, mental health that is subjugated within the individual. This is what this film shows us by revealing the theft carried out by the then hypnotized people, “forgotten” about their usual behavior.

Woody Allen’s fantastic idea that “if I investigated myself I would be lost” or “the best investigator is the thief” is based on the acceptance of the “hypnoid” state by each of us. By accepting his own unconsciousness, the person no longer needs to search for him in the theft – because he already has it – and can investigate and live efficiently. As Allen says, “I trust my instincts a lot”! (Ángel Garma, an eminent Spanish psychoanalyst, teaches: “… since there are so many libres that instincts occur in an individual, both are more in touch with reality.” ”

Fernando Pessoa’s poem (1933),

“THE CHILD

I was crying on the road,
I left it there when I came to be who I am;
But today, seeing that what I am is nothing,
I want to pick up who went where I stayed “,

expressively configures the search for the “hypnoid” state. Without it, we cannot live fully. The idea that the child in us is very necessary for our life means: the “hypnoid state” (the child) is very necessary for our existence.

In the expression “hypnoid state” we read a state of a certain degree of unconsciousness – or, in other words, the unconscious, or in other words, our soul. In hypnosis, and in the film, this state is accessed by the skill of the hypnotist (and the will of the hypnotist, of course) when saying the words Constantinople and Madagascar. Upon “waking up”, the then hypnotized person does not know and does not remember what happened; little by little, however, with the help of his co-workers, he realizes the evidence. In health, it is essential that the person knows the existence of all his possible states of soul and cultivates living with them. This is observed, wonderfully, in one of the final scenes of the film, where Briggs “dialogues” with himself, in silence, simultaneously perceiving his various emotional states.

P.S .: I describe below excerpts from a short letter that I sent to the filmmaker in 2002, about his beautiful film, to perhaps better clarify elements of the comment I made above.

PATTERNS OF A LETTER MY TO WOODY ALLEN
(Free translation)
I have always been an enthusiast in my profession. I have defined psychoanalysis as the art of restoring to a person the soul that he has and, as Freud has explained widely, the “soul” is in a state he called the “hypnoid state”. Without the latter, we cannot live fully.

I do not consider, dear filmmaker, that access to this state is obtained by the way that the majority advocates, that is, by special methods; on the contrary, I think that this access is obtained only and exclusively by the will of the person himself, by the strong desire to remember and know all the details of his soul. And with the essential presence of humor, of the joke, because without it the soul becomes inaccessible.

I was delighted with this work of yours. It is the very expression of psychoanalysis as I understand it, that is, both C.W.Briggs (you) and Fitz (Helen Hunt) made a huge effort to rediscover their souls. And they found it again. They – their souls – were the jewels that needed to be stolen while they lived as if they didn’t have it. Now, they will no longer be thieves – indeed, they never were – they will be lovers of life and of each other.

Affectionate regards, dear Allen. If people could give greater importance to this and other films of yours, and apply them to their daily lives, the world would certainly be much better.

2 Replies to “ALLAN STEWART KONIGSBERG, O NOSSO WOODY ALLEN”

  1. Ei, Marco, bonita publicação de meu pai. Ele sempre dá um colorido humorado e simples às questões que costuma-se jogar facilmente para debaixo do tapete, costumeiramente bem vestidas pelas justificativas verborrágicas e religiosas, que cegam a humanidade há séculos. Não por acaso, Woody Allen é um apaixonado por várias delas e mergulha, feito um delator do comportamento paradoxal e de detalhes absolutamente reais, neste oceano da vida, fazendo submergir aquilo que precisa vir aos olhos, claro, apenas de quem quer ver. Beijo para você,
    Lu

    1. Lu
      Amei o texto. Um gênio falando sobre outro gênio. Só podia sair um texto apaixonante. Beijos.

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