TRAPPED É CHEIO DE ARMADILHAS PARA LEVAR A GENTE À ISLÂNDIA

A CONVIDADA DE HOJE DO CINEMARCO É A JORNALISTA CATIA BANDEIRA.


Ter levado uma multa por estacionar em frente a um hidrante era o típico motivo para telefonar e reclamar aos policiais da delegacia de uma cidadezinha ao norte da Islândia. Pudera. A população do país de 360 mil habitantes e há décadas sem Exército desfruta de uma das taxas de homicídio mais baixas do mundo, de apenas 1,8 por ano. Em 2017, registrou o menor índice de roubos desde 1999.

Desde 2008, lidera o ranking do Índice Global de Paz, que organiza os países por seus níveis de criminalidade, entre outros indicadores. A surpresa por um corpo sem cabeça e membros ser “pescado” do mar gelado intriga os três únicos agentes da lei e assusta os até então pacatos moradores. E só piorou, porque, depois, o prefeito foi assassinado e o suspeito do crime se suicida ao se atirar de um helicóptero.

A série “Trapped”, cujas duas temporadas estão disponíveis na Netflix, submergiu com a pandemia. Sorte de quem ainda não a tinha notado, apesar de ter estreado em 2015, e pôde explorar esta ilha do Atlântico Norte.

Como um viking, o protagonista é o chefe da polícia local Andri Olaffson, que também lembra um urso. Com 1m89cm, o ator e roteirista Ólaff Darri Ólafsson, nascido nos EUA e de ascendência islandesa, encarna este urso triste. E dominou as cenas não pelo tamanho. Foi por ter feito tudo na medida do personagem, gestual contido, quase contrito e mais grunhidos do que frases longas. Vestiu praticamente o mesmo figurino nas duas temporadas e abriu um sorriso somente no primeiro episódio. Ainda assim, é admirado e respeitado, o detetive certo para este Noir Nórdico.

Em “Trapped”, a Islândia, ilha de 103 mil metros quadrados, representa, em formato de microcosmos, o que acontece no planeta, com todas as nuances da controversa natureza dos seres humanos. Tem a ganância e a maldade escondida no tráfico e na prostituição de mulheres africanas; a sordidez em provocar incêndio criminoso para sacar o dinheiro do seguro – situações que dominam a primeira temporada –, e a indiferença e o desrespeito ao meio ambiente no descarte ilegal de resíduos tóxicos de uma usina – na segunda temporada.


Os personagens se percebem enredados, animais em uma armadilha, como o “Trapped” do título. Há dor pela perda precoce de uma filha; violência doméstica, divórcio mal resolvido – neste caso, realidade do policial Andri e da ex-mulher Agnes, vivida pela atriz islandesa Nína Dögg Filippusdóttir, de “O Assassino de Valhala”, outro expoente do Noir Nórdico –; filha vítima de estupro que engravida do próprio pai; relação homoafetiva inter-racial…É esta parte da segunda temporada, na qual se manifestam o nacionalismo de extrema direita e uma certa xenofobia bem marcados, que a Islândia contemporânea e os seus desafios são desnudados. Ainda que a terra do gelo seja uma das nações mais ricas e igualitárias da Europa, os estrangeiros têm se sentido meio apartados pelos islandeses nos últimos anos. Em 2017, chegaram 15 mil imigrantes, 50% a mais do que em 2016.

Ok, se as dificuldades do país são mostradas sem concessōes, da mesma forma, a cultura sem distinçōes de gênero configura um alívio mental. É até divertido, para nós, brasileiros, ver o gerente de uma loja de conveniência pedir desculpas a Andri e a sua parceira Hinrika pela bagunça no escritório porque ele estava fazendo tricô.

“Trapped” traz as mulheres à frente da prefeitura, da polícia nacional, de ministérios…Compreensível, considerando que a Islândia, em janeiro de 2018, foi o primeiro o país do mundo a obrigar empresas a demonstrarem que remuneram homens e mulheres de forma igualitária e onde a licença paternidade dura três meses (e 90% dos pais usam o benefício). E um dos momentos mais ternos da produção mostram pai e filha.

Ao utilizar com sensibilidade a paisagem contrastante, o criador Baltasar Kormákur, também roteirista e um dos diretores e produtores da série, soube marcar bem a identidade das duas temporadas. Enquanto, na primeira, dominou a neve, que cobre vulcōes, gêiseres e fiordes durante seis meses do ano, a segunda já revela uma discreta e tímida primavera, quando é possível ver o verde da grama e das árvores, terra e pedras no seus tons originais sem a cobertura nevada e até poeira nas estradas.

Para quem tem TOC e nota detalhes insignificantes, o jeito de a policial Hinrika prender o cabelo farto é outro indicativo. Na primeira, ela, displicentemente, o amarra na base da nuca e passa quase todo o tempo escondido sob a enorme toca. Na segunda, o rabo-de-cavalo está sempre arrumado. Sintomático, pois ela pede o divórcio do marido que planta maconha em vasos e passa parte do tempo chapado.


“Trapped” vira aquela armadilha boa que a gente quer ficar enredado mesmo.

TODAY’S GUEST FROM CINEMARCO IS JOURNALIST CATIA BANDEIRA.

Having been fined for parking in front of a fire hydrant was the typical reason for calling and complaining to police officers in a small town in northern Iceland. Ok. The country’s population of 360,000 and for decades without an Army has enjoyed one of the lowest homicide rates in the world, just 1.8 per year. In 2017, it registered the lowest rate of thefts since 1999.

Since 2008, it leads the ranking of the Global Peace Index, which organizes countries by their levels of crime, among other indicators. The surprise that a headless body and limbs are “caught” from the icy sea intrigues the only three law enforcement officers and scares the until then calm residents . It only got worse, because the mayor was later murdered and the crime suspect committed suicide by throwing himself from a helicopter.

The “Trapped” series, whose two seasons are available on Netflix, has plunged into the pandemic. Lucky for those who had not yet noticed it, despite having debuted in 2015, and was able to explore this North Atlantic island.

As a Viking, the protagonist is local police chief Andri Olaffson, who also resembles a bear. At 1m89cm, actor and screenwriter Ólaff Darri Ólafsson, born in the USA and of Icelandic descent, embodies this sad bear. And he dominated the scenes not by their size. It was because he did everything to the extent of the character, a restrained gesture, almost contrite and more grunting than long sentences. He wore practically the same costume for both seasons and smiled only in the first episode. Still, he is admired and respected, the right detective for this Nordic Noir.

In “Trapped”, Iceland, an island of 103 thousand square meters, represents, in a microcosm format, what happens on the planet, with all the nuances of the controversial nature of human beings. There is greed and evil hidden in the trafficking and prostitution of African women; the sordidness in causing arson to withdraw money from insurance – situations that dominate the first season – and the indifference and disrespect for the environment in the illegal disposal of toxic waste from a plant – in the second season.

The characters perceive themselves as entangled, animals in a trap, like the “Trapped” of the title. There is pain at the early loss of a daughter; domestic violence, poorly resolved divorce – in this case, the reality of police officer Andri and ex-wife Agnes, experienced by Icelandic actress Nína Dögg Filippusdóttir, from “The Assassin of Valhalla”, another exponent of Nordic Noir -; daughter victim of rape who becomes pregnant by her own father; interracial racial relationship… It is this part of the second season, in which extreme right nationalism and a certain well-marked xenophobia are manifested, that contemporary Iceland and its challenges are exposed. Even though the land of ice is one of the richest and most egalitarian nations in Europe, foreigners have been feeling somewhat separated by Icelanders in recent years. In 2017, 15,000 immigrants arrived, 50% more than in 2016.

Ok, if the country’s difficulties are shown without concessions, in the same way, culture without gender distinctions is a mental relief. It is even fun for us Brazilians to see the manager of a convenience store apologize to Andri and his partner Hinrika for the mess in the office because he was knitting.

“Trapped” brings women ahead of the city hall, the national police, ministries… Understandable, considering that Iceland, in January 2018, was the first country in the world to compel companies to demonstrate that they pay men and women equally and where paternity leave lasts three months (and 90% of parents use the benefit). And one of the most tender moments of the production show father and daughter.

Using sensitively the contrasting landscape, the creator Baltasar Kormákur, also a screenwriter and one of the series’ directors and producers, was able to clearly mark the identity of the two seasons. While, in the first, snow dominated, which covers volcanoes, geysers and fjords for six months of the year, the second already reveals a discreet and timid spring, when it is possible to see the green of the grass and trees, earth and stones in their tones without snow cover and even dust on the roads.

For those who have OCD and notice insignificant details, the way in which police officer Hinrika locks her thick hair is another indication. At first, she carelessly ties him to the base of the neck and spends most of his time hiding under the huge den. In the second, the ponytail is always tidy. Symptomatic, as she asks for a divorce from her husband who plants pot in pots and spends part of his time stoned.

“Trapped” becomes that good trap that we really want to be caught in.

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