O OUVINTE LARANJA

O CONVIDADO DE HOJE DO CINEMARCO É ISAAC MENDA.

Lembro-me de um programa chamado Turfe e Boa Música, da antiga Rádio Itaí. O apresentador Aurélio Câmara comandava, nas tardes de sábados e domingos, esse programa, que consistia em transmissão das corridas de cavalos do Hipódromo do Cristal. No intervalo das provas, recebia telefonemas dos ouvintes, que pediam músicas e ganhavam ingressos de cinema.

Recordo de dois participantes assíduos daquele programa: eu e meu primo Moisés Eli. Para participar do programa, tinha de telefonar imediatamente após o apresentador ter falado com outro ouvinte. Assim, começava a discagem rápida. Não existiam telefones com teclas e nem redial. Se fôssemos rápidos, logo éramos atendidos, fora do ar.

Nesse momento o apresentador perguntava qual a música que se queria ouvir. Eu e meu primo sempre pedíamos a mesma música. Um dia, o apresentador nos disse que a tal música não tocaria mais, porque o disco havia estragado. Sabíamos que não era verdade.

O importante, naquelas ligações, era que sempre ganhávamos ingresso para cinema. Assim, eu tinha garantidas umas seis ou sete entradas de graça na semana. As primeiras ligações da tarde eram as melhores, pois escolhíamos os cinemas do Centro e os porteiros já me conheciam. No meio da tarde, sobravam apenas os de bairro. Em uma oportunidade, ao entrar no cinema, o porteiro se virou e falou com uma pessoa, dizendo: “Esse é aquele rapaz que consegue ingressos de graça.” Mal ele sabia a trabalheira que era ficar discando o telefone aos sábados e domingos.

Certa vez o apresentador nos comunicou que eu e meu primo não poderíamos participar mais do que duas vezes por programa, para dar oportunidade a outros ouvintes. Claro que continuamos a telefonar. Eu mudava a voz e dava o nome de um amigo. Acho que foi a primeira vez que ouvi a expressão “laranja”.

Assim eram as tardes de sábados e domingos nos anos 60.

TODAY’S GUEST TO CINEMARK ISAAC MENDA.

I remember a program called Turfe e Boa Música, from the old Itai Radio. Presenter Aurélio Câmara commanded, on Saturday and Sunday afternoons, this program, which consisted of broadcasting the horse racing at the Hipódromo do Cristal. In between races, it received calls from listeners, who asked for music and won movie tickets.

I remember two regular participants in that program: me and my cousin Moises Eli. To participate in the program, I had to call immediately after the presenter had spoken to another listener. So, speed dialing started. There were no phones with keys or redial. If we were quick, we were soon taken care of, out of breath.

At that moment, the presenter asked what song he wanted to hear. Me and my cousin always asked for the same song. One day, the host told us that the song would not play anymore, because the record had broken. We knew it wasn’t true.

The important thing, on those calls, was that we always won movie tickets. So I was guaranteed about six or seven free tickets a week. The first calls of the afternoon were the best, as we chose the downtown movie theatres and the porters already knew me. In the middle of the afternoon, only those from the neighborhood were left. On one occasion, upon entering the cinema, the doorman turned and spoke to a person, saying: “This is that guy who gets tickets for free.” He did not know the hassle of dialing the phone on Saturdays and Sundays.

The radio show presenter once told us that my cousin and I could not participate more than twice per program, to give opportunity to other listeners. Of course, we continue to call. I changed the voice and gave the name of a friend. I think it was the first time that I heard the expression “orange”.

That was Saturday and Sunday afternoons in the 1960s.

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