O CINEMA NA ERA PÓS-C0VID

A CONVIDADA DE HOJE DO CINEMARCO É LAURA MEDEIROS.

Muito se especula sobre o futuro do cinema no mundo pós-pandemia….

Uns dizem que os cinemas vão morrer. Que os serviços de streaming são a nova e a definitiva forma de se assistir filmes. Outros proclamam que o cinema é imortal e imaculado. Que nos forneceu com grandes obras primas e que não será um mero vírus que derrubará um legado de 130 anos.

Dito isso, precisamos primeiro afirmar que não há verdades absolutas sobre o assunto. Mas creio eu, que ambos estes grupos de opiniões precisam dar um passo para trás, diminuir seu embasamento emocional e analisar mais racionalmente os fatos sobre este grande quadro chamado “cinema”.

Primeiramente, devemos deixar algumas coisas mais claras… O que estes grupos de pessoas querem dizer com “cinema”?

Bem, infelizmente nossa língua portuguesa dá a mesma palavra para a arte de fazer filmes como também para o lugar onde se assiste a eles. Portanto, quando nos perguntamos qual o futuro do cinema, devemos ser um pouco mais claros.

Quando falamos de filmes em si – arte do cinema – acredito que não haverá mudanças significativas em sua estrutura causado por estes tempos estranhos. Não teremos menos ou mais filmes, nem melhores nem piores. Quando voltarmos a dias mais normais (e vamos voltar!) os filmes retornaram a sua dinâmica de antes. Apenas vejo que, com este hiato em Hollywood com suas grandes produções – consequente do coronavírus – abriu-se uma janela para os filmes independentes. Estes, que já haviam crescendo de alguns anos para cá, ganharam uma oportunidade para se destacarem em um mercado que, no momento, está menos competitivo. Sem os grandes blockbusters em cartaz, as pequenas produções, que dada sua visibilidade promovida por diversos serviços de streaming, agora colocam-se mais fortemente no mercado. Tornando o cinema mais democrático e versátil, fortalecendo ainda mais a sétima arte.

Agora, quando nos referimos a salas de cinema (movie theaters) sem a menor dúvida, estamos em um divisor de águas.

Não que isto não tenha acontecido antes. No passado, além de diversos vírus com suas respectivas pandemias, o cinema já passou por diversos obstáculos. Nos anos 50 e 60, com a chegada da televisão doméstica, trouxe o fim da exclusividade dos cinemas de exibir produções audiovisuais. E nos anos 80, com o surgimento de do VHS e das vídeo-locadoras, puxou ainda mais seus espectadores para dentro de suas casas, concedendo-lhes o poder de pausar e rebobinar os filmes. Algo que foi emancipado com a chegada dos DVDs e da internet.

E mesmo assim, o cinema continua entre nós. Por meio de adaptações e reformulações, o cinema sempre foi capaz de driblar seus obstáculos e fisgar de volta seu público. Seja criando salas em shoppings em formatos multiplex e em 3D, com inúmeras opções de desconto.

Contudo, devemos reconhecer… As salas de cinema enfrentam um adversário sem precedentes. Que, hoje em dia, se mostraram quase como fundamentais em nossa sociedade consumidora de filmes: os serviços de streaming. Dados seus serviços por assinatura, garantiu ainda mais liberdade e praticidade aos seus usuários, além de fornecer um rico catálogo repleto de filmes e séries clássicas e demais produções originais e exclusivas.

De fato, é um rival de respeito. E não adianta culparmos apenas o vírus chinês… o mercado já estava se movendo para esta direção. A Covid-19 apenas o acentuou o clash entre salas de cinema e serviços de streaming.

Nos últimos anos, produções da Netflix e da Amazon Prime conquistaram críticos. Muitos chegaram a concorrer em premiações de alto prestígio. Roma, de Alfonso Cuarón, foi um dos favoritos do Oscar de 2019 e este ano História de Um Casamento (Noah Baumbach) e O Irlandês (Martin Scorsese) foram igualmente indicados a um punhado de prêmios e festivais.

Ademais, as salas de cinema não estão mais em seus anos de auge. Sinto em dizer isso, mas é verdade. Se durante seus dias de glória eram famosos por serem nas ruas, com uma apresentação pomposa, marcados por baleiros-balas e lanterninhas, com cerca de 400 assentos ocupados, hoje localizam-se em shoppings (apagando seu antigo glamour), com salas menores e com serviços menos sofisticados. Além de terem sido apropriadas por uma nova geração de espectadores que não consegue desligar a porcaria do celular quando a sessão inicia, tendo zero zelo pelo momento (sim, isso foi um desabafo).

Entretanto, não podemos julgar. Estas mudanças são apenas um reflexo do que o cinema teve que passar, a fim de melhor se adaptar a sociedade e sua cultura vigente. Por mais que sentimos saudades das salas clássicas, devemos compreender que se não fossem certas adaptações, muitos cinemas não iriam conseguir se sustentar nos dias de hoje.

O que é algo natural. As salas de cinema não são as mesmas de 30, 50 nem de 100 anos atrás. O que começou em pequenos cafés de rua e circos na França, passou por palcos de teatro, prédios e agora, shoppings centers.

Contudo, o mundo mudou muito em questão de poucos meses.

Estamos a mais de meio ano sem lançamentos no cinema. E estúdios estão começando a investir em exibir seus filmes em plataformas de streaming, diretamente na casa de seus usuários. Se antes os donos de salas de cinema se sentiam pressionados sobre diminuir a janela de exibir filmes em cinemas e online, hoje se acentua mais do que nunca. Foi o caso da Disney com seu remake em live action de Mulan e de demais animações infantis como Trolls 2 e Scooby! No entanto, apenas o tempo dirá o quanto essa tática é rentável, visto que Mulan, por exemplo, teve um orçamento de mais de 200 milhões de dólares.

Outro fator preocupante sobre as salas de cinema é que neste mês de agosto, os EUA aboliu a lei, de mais de setenta anos, chamada The Paramount Decrees. Esta lei, impedia estúdios de abrirem suas próprias salas de cinema e praticar atos como block booking (um estúdio venderia seus filmes em pacotes para na base de tudo ou nada – geralmente exigindo que os cinemas terceiros comprassem vários filmes medíocres para cada um de sucesso). Agora, com esta abolição, muitas salas de cinema podem ser prejudicadas, além de dificultar a entrada de produções mais independentes.

Em resumo, ocorrerão mudanças drásticas. E devemos estar abertos para tais transformações. Os streamings vieram para ficar e não podemos negar a praticidade e acessibilidade que nos fornecem.

Mas ainda sim, acredito fortemente que as salas de cinemas não vão morrer. Assim como demais formas de arte, como teatro, música e ópera, o cinema sobreviverá a estes tempos sombrios e qualquer outra coisa que o futuro nos aguarda. Ele provavelmente não será o mesmo, estará mais fortalecido e, quem sabe, mais inovador com experiências mais diferenciadas. Um exemplo seria um revival do modelo drive-in, que se mostrou como um ótimo substituto das salas de cinema durante os dias de isolamento social.

Vamos ver o que acontece até lá.

“Na natureza, nada se perde, nada se cria, tudo se transforma.”

THE GUEST OF CINEMARCO TODAY IS LAURA MEDEIROS.

Much is speculated about the future of cinema in the post-pandemic world….

Some say theaters are going to die. That streaming services are the new and definitive way to watch movies. Others claim that cinema is immortal and immaculate. That has provided us with great masterpieces and that it will not be a mere virus that will bring down a legacy of 130 years.

That said, we must first state that there are no absolute truths on the subject. But I believe that both of these opinion groups need to take a step back, lessen their emotional base and analyze more rationally the facts about this big picture called “cinema”.

First of all, we must make some things clearer… What do these groups of people mean by “cinema”?

Well, unfortunately our Portuguese language gives the same word for the art of making films as for the place where you watch them. Therefore, when we ask ourselves what the future of cinema is, we must be a little clearer.

When we talk about films themselves – art of cinema – I believe that there will be no significant changes in their structure caused by these strange times. We will not have fewer or more films, neither better nor worse. When we go back to more normal days (and we will be back!) The films have returned to their former dynamics. I can only see that, with this hiatus in Hollywood with its great productions – consequent to the coronavirus – a window was opened for independent films. These, which had been growing for some years now, have gained an opportunity to stand out in a market that, at the moment, is less competitive. Without the big blockbusters on display, small productions, which given their visibility promoted by various streaming services, now place themselves more strongly on the market. Making cinema more democratic and versatile, further strengthening the seventh art.

Now, when we refer to movie theaters, we are at a watershed.

Not that this hasn’t happened before. In the past, in addition to several viruses with their respective pandemics, cinema has gone through several obstacles. In the 50s and 60s, with the arrival of domestic television, it brought an end to the exclusivity of cinemas to show audiovisual productions. And in the 1980s, with the emergence of VHS and video rental companies, it pulled its viewers even further into their homes, granting them the power to pause and rewind films. Something that was emancipated with the arrival of DVDs and the internet.

And yet, cinema is still with us. Through adaptations and reformulations, cinema has always been able to circumvent its obstacles and hook its audience back. Whether creating rooms in shopping malls in multiplex and 3D formats, with numerous discount options.

However, we must recognize … The movie theaters face an unprecedented adversary. Which, nowadays, have been shown to be almost fundamental in our film consuming society: streaming services. Given its subscription services, it guaranteed even more freedom and practicality to its users, in addition to providing a rich catalog full of classic films and series and other original and exclusive productions.

In fact, it is a respectable rival. And it is useless to blame only the Chinese virus… the market was already moving in this direction. Covid-19 only accentuated the clash between movie theaters and streaming services.

In recent years, Netflix and Amazon Prime productions have won over critics. Many even competed in highly prestigious awards. Alfonso Cuarón’s Roma was a favorite of the 2019 Oscars and this year History of a Wedding (Noah Baumbach) and The Irishman (Martin Scorsese) were also nominated for a handful of awards and festivals.

Furthermore, movie theaters are no longer in their prime. I’m sorry to say that, but it’s true. If during their glory days they were famous for being on the streets, with a pompous presentation, marked by ballet-takers and lanterns, with about 400 seats occupied, today they are located in shopping malls (erasing their former glamour), with smaller rooms with less sophisticated services. In addition to being appropriated by a new generation of viewers who cannot turn off the damn cell phone when the session starts, having zero zeal for the moment (yes, that was an outburst).

However, we cannot judge. These changes are just a reflection of what cinema had to go through, in order to better adapt to society and its current culture. As much as we miss the classic theaters, we must understand that if there were certain adaptations, many cinemas would not be able to sustain themselves today.

Which is something natural. Movie theaters are not the same as 30, 50 or 100 years ago. What started in small street cafes and circuses in France, went through theater stages, buildings and now, shopping malls.

However, the world has changed a lot in the last few months.

We haven’t been in the cinema for more than half a year. And studios are starting to invest in showing their films on streaming platforms, directly at their users’ homes. If before the owners of movie theaters felt pressured to reduce the window of showing films in cinemas and online, today it is accentuated more than ever. This was the case with Disney with its remake in live action by Mulan and other children’s animations such as Trolls 2 and Scooby! However, only time will tell how profitable this tactic is, since Mulan, for example, had a budget of more than $ 200 million.

Another worrying factor about movie theaters is that this August, the USA abolished the more than seventy-year-old law called The Paramount Decrees. This law prevented studios from opening their own movie theaters and performing acts like block booking (a studio would sell its films in packages for everything or nothing – usually requiring third-party cinemas to buy several mediocre films for each successful one) . Now, with this abolition, many movie theaters can be harmed, in addition to making it more difficult for independent producers to enter.

In short, there will be drastic changes. And we must be open to such changes. Streamings are here to stay and we cannot deny the practicality and accessibility they provide us.

But still, I strongly believe that movie theaters are not going to die. Like other forms of art, such as theater, music and opera, cinema will survive these dark times and anything else that the future awaits. It will probably not be the same, it will be more strengthened and, who knows, more innovative with more differentiated experiences. An example would be a revival of the drive-in model, which proved to be a great replacement for movie theaters during days of social isolation.

Let’s see what happens until then.

“In nature, nothing is lost, nothing is created, everything is transformed.”


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