Uma Guerra Pessoal: O Drama Envolvente de uma Correspondente de Guerra

O CONVIDADO DE HOJE DO CINEMARCO É MARCO AURÉLIO MORSCH.

O clássico escritor Ernest Hemingway e a correspondente de guerra Martha Gellhorn tiveram seus encontros e desencontros amorosos e coberturas de guerra retratados no filme “Hemingway & Martha” (2012), de Phillip Kaufman. Nick Nolte, Gene Hackman e Joanna Cassidy viveram seu triângulo amoroso no excelente “Sob Fogo Cerrado”(1983), de Roger Spottiswoode inspirado em correspondentes de guerra reais que cobriram a Revolução na Nicarágua em 1979.

Agora, mais um novo filme, desta vez a envolvente, perturbadora e inspiradora trama “Uma Guerra Pessoal”(2018), de Matthew Heineman, volta a abordar a vida perigosa dos correspondentes de guerra.

O filme narra a história real da muitipremiada correspondente de guerra Marie Colvin, que trabalhou para o jornal britânico “The Sunday Times.”

Colvin é interpretada por Rosamund Pike, a bondgirl de “007 – Um Novo Dia para Morrer”, de Lee Tamahori (2002). Ela é uma jornalista consciente de seu papel como porta-voz da sociedade, empoderada e corajosa no que faz, e que, para cumprir fielmente seu oficio de informar o que realmente acontece com as vítimas de guerra e revelar o verdadeiro sofrimento dos campos de batalha, coloca sua vida em risco para obter as verdadeiras e melhores reportagens nos campos de guerra ao redor do mundo.

Essa obsessão por estar junto ao fato levará a perda da visão de seu olho esquerdo quando cobria uma batalha no Sri Lanka, e mudou sua vida para sempre. O filme aborda com intensa dramaticidade as repercussões que tal acontecimento teve em sua vida matrimonial, emocional e pública – inclusive o internamento por Transtorno por Estresse Pós-Traumático. Inclusive as brincadeiras que teve que encarar por causa do tapa olho estilo Moshe Dayan que precisou usar e que se se tornava alvo de brincadeiras.

Este alto custo pessoal de seu envolvimento visceral no trabalho é mostrado de forma perturbadora no segundo ato do filme. Se Colvin era uma viciada em cobrir guerras, amante de estar no trabalho de campo, ou se era uma fiel servidora de seu ambicioso editor (Tom Hollander), atrás de uma mesa confortável, o espectador deverá decidir, pois Heineman não toma partido claramente, embora sutilmente ele insinue sua tendência ao mostrar o editor do jornal propondo para Colvin que ela possa mudar para o setor de jardinagem a hora que ela quiser!

Mas tirando as razões psicológicas, que o filme tangencia, como quando Colvin explica  ao fotógrafo seus “traumas” na clínica quando internada, o que marca o espectador é uma personagem idealista e socialmente responsável que se refugia compulsivamente no trabalho para mitigar sua frustração como esposa que não pode consegue ter filhos procura compensação no sexo, cigarro e bebida.

Além da perspectiva biográfica, “Uma Guerra Pessoal” tem também propósito ativista. Isso aparece evidente na personalidade da protagonista ao ver pessoas sofrendo em países como Timor Leste, Líbia, Kosovo, Irã, Iraque: sem comida, sem água e sem medicamentos. E sentia que ela podia, por meia de sua caneta e bloco, fazer a diferença. Em uma frase durante o filme, ela diz: “Eu me importei bastante para ir a esses lugares e escrever de uma forma a fazer alguém se importar com isso.”

Uma das melhores sequências do filme é quando junto com seu fotógrafo, Paul Conroy (Jamie Dornan), ela descobre uma vala comum cheia de corpos perto da fronteira iraquiana, fornecendo encerramento para muitas famílias angustiadas. Esta reportagem e outras, como revelam as imagens dos créditos finais, apareceram várias vezes na capa do diário britânico. Colvin também entrevistou o ditador Muammar Al-Gaddafi e falou direto de Ohms, na Síria, para o mundo via CNN durante o fatídico bombardeio sobre cerca de 28.000 civis.

Rosamund Pike, mais uma vez, tem uma ótima interpretação, que foi indicada ao Golden Globe 2019. Ela tem se revelado, nos últimos anos, não só uma bonita ex-bondgirl, mas uma excelente atriz. Entre vários papéis de destaque em sua cada vez mais prolífica atuação – faz de 3 a 4 filmes por ano atualmente saliento : “Garota Exemplar” (2014), “7 Dias em Entebbe” (2018) e “Sede de Vingança” (2015).

Em uma de suas melhores cenas, Pike entrevista os moradores de Ohms, escondidos num Bunker. Ali, em duas sequências contínuas, na qual o diretor procura expor a crueldade da Guerra na Síria, Pike, com a ajuda do camera man, a atriz consegue manter o olho esquerdo imóvel, e sofre emocionada junto com uma entrevistada. Depois, corre desesperada ante os bombardeios, fica histérica… e, finalmente, diz ao fotógrafo, que não vai abandonar as vítimas, fazendo sua transmissão histórica.

O diretor Matthew Heineman contribui para a vigorosa e empática dramatização de Pike, mostrando-se um maestro sensível na condução do drama pessoal de uma jornalista que é apaixonada, zelosa e ao mesmo tempo influenciada emocionalmente pelo seu trabalho. Ele dá ritmo dinâmico ao filme, com tom documental nas imersões de guerra (retomando suas origens, ele dirigiu “City of Ghost’, indicado ao Emmy de Melhor Documentário 2017 – e reflexivo nas tragédias das vítimas, ao mesmo tempo que nos emociona no drama pessoal da protagonista.

A história narrada na primeira pessoa é baseada no artigo de Marie Brenner “Marie Colvin´s Private War”, publicado na Vanity Fair. https://www.vanityfair.com/news/politics/2012/08/marie-colvin-private-war. Brenner também inspirou os filmes “O Informante” de Michael Mann (1999) e “O Caso Richard Jewell” de Clint Eastwood (2019).

Por fim, cabe ressaltar a edição dinâmica entrecortada no tempo de algumas cenas, dando velocidade a história, e a bela fotografia, que mostra uma Síria, com cidades devastadas, por exemplo, onde cerca de 500.000 civis morreram desde 2012.

“Uma Guerra Pessoal” é uma produção esmerada, uma história dinâmica e envolvente, e principalmente uma inspiração para quem estuda ou se interesse por Jornalismo Investigativo e correspondência de Guerra, pois educa sobre a responsabilidade social da profissão e sobretudo ao mostrar os perigosos desafios deste ofício e dos impactos que provoca na vida pessoal.

TODAY’S CINEMARCO GUEST IS MARCO AURÉLIO MORSCH.

The classic writer Ernest Hemingway and the war correspondent Martha Gellhorn had their romantic encounters and mismatches and war coverage portrayed in the film “Hemingway & Martha” (2012), by Phillip Kaufman. Nick Nolte, Gene Hackman and Joanna Cassidy lived their love triangle in Roger Spottiswoode‘s excellent “Under Fire” (1983), inspired by real war correspondents who covered the 1979 Revolution in Nicaragua.


Now, another new film, this time the engaging, disturbing and inspiring plot “A Private War” (2018), by Matthew Heineman, returns to address the dangerous lives of war correspondents.

The film tells the real story of the award-winning war correspondent Marie Colvin, who worked for the British newspaper “The Sunday Times.


Colvin is played by Rosamund Pike, the bondgirl from “007 – A New Day to Die”, by Lee Tamahori (2002). She is a journalist aware of her role as a spokesperson for society, empowered and courageous in what she does, and who, in order to faithfully fulfill her craft of informing what really happens to war victims and revealing the real suffering of the battlefields , puts his life on the line to get the real best reports in war camps around the world.


This obsession with being close to the fact will lead to loss of vision in her left eye when covering a battle in Sri Lanka, and changed her life forever. The film addresses with intense drama the repercussions that such an event had on her matrimonial, emotional and public life – including hospitalization for Post-Traumatic Stress Disorder. Including the games he had to face because of the Moshe Dayan-style eye patch that he had to use and that became the target of games.


This high personal cost of her visceral involvement at work is shown disturbingly in the second act of the film. Whether Colvin was a war addict, a lover of fieldwork, or a loyal servant of his ambitious editor (Tom Hollander), behind a comfortable table, the viewer must decide, as Heineman doesn’t take sides clearly, although he subtly hints at his tendency to show the newspaper’s editor proposing to Colvin that she move to the gardening business whenever she wants!


But apart from the psychological reasons that the film touches, such as when Colvin explains to the photographer his “traumas” in the clinic when admitted, what marks the viewer is an idealistic and socially responsible character who takes refuge compulsively at work to mitigate his frustration as a wife who cannot manage to have children seeks compensation for sex, smoking and drinking.


In addition to the biographical perspective, “A Private War” also has an activist purpose. This is evident in the protagonist’s personality when she sees people suffering in countries like East Timor, Libya, Kosovo, Iran, Iraq: without food, without water and without medicines. And I felt that she could, by means of her pen and pad, make a difference. In a sentence during the film, she says: “I cared enough to go to these places and write in a way that would make someone care about it.”


One of the best sequences in the film is when together with her photographer, Paul Conroy (Jamie Dornan), she discovers a mass grave full of bodies near the Iraqi border, providing closure for many anguished families. This report and others, as the images of the final credits reveal, appeared several times on the cover of the British daily. Colvin also interviewed dictator Muammar Al-Gaddafi and spoke directly from Ohms, Syria, to the world via CNN during the fateful bombing of about 28,000 civilians.


Rosamund Pike, once again, has a great interpretation, which was nominated for the Golden Globe 2019. She has proved, in recent years, not only a beautiful ex-bondgirl, but an excellent actress. Among several prominent roles in his increasingly prolific performance – he currently makes 3 to 4 films a year I make a special mention to: “Gone Girl” (2014), “7 Days in Entebbe” (2018) and “Sede de Vingança” (2015).

In one of her best scenes, Pike interviews the residents of Ohms, hiding in a bunker. There, in two continuous sequences, in which the director seeks to expose the cruelty of the Syrian War, Pike, with the help of the camera man, the actress manages to keep her left eye immobile, and suffers emotionally together with an interviewee. Then, she runs desperate in the face of the bombings, gets hysterical … and, finally, tells the photographer, that she will not abandon the victims, making her historical transmission.

Director Matthew Heineman contributes to Pike’s vigorous and empathetic dramatization, showing himself to be a sensitive conductor in conducting the personal drama of a journalist who is passionate, zealous and at the same time emotionally influenced by his work. He gives a dynamic rhythm to the film, with a documentary tone in the immersions of war (resuming its origins, he directed “City of Ghost ‘, nominated for the Emmy for Best Documentary 2017 ) and reflective on the tragedies of the victims, at the same time that thrills us in the drama personal of the protagonist.

The story narrated in the first person is based on Marie Brenner‘s article “Marie Colvin´s Private War”, published in Vanity Fair. https://www.vanityfair.com/news/politics/2012/08/ marie-colvin-private-war . Brenner also inspired the films “The Informant” by Michael Mann (1999) and “The Richard Jewell Case” by Clint Eastwood (2019).

Finally, it is worth mentioning the dynamic editing interrupted in time by some scenes, giving the story speed, and the beautiful photograph, which shows a Syria, with devastated cities, for example, where about 500,000 civilians have died since 2012.

“A Private War” is a painstaking production, a dynamic and engaging story, and especially an inspiration for anyone studying or interested in Investigative Journalism and War correspondence, as it educates about the social responsibility of the profession and especially when showing the dangerous challenges of this profession and the impacts it has on personal life.

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