MANK: Um Mergulho Maravilhoso na História do Cinema, em um Filme Icônico e na Vida Pós-Depressão

MANK, o novo filme do cineasta David Fincher estreou na NETFLIX despertando enormes elogios de partes da crítica em todo mundo. Esta reação entusiasmada pelo filme se justifica plenamente, já que a obra de Fincher, a partir do roteiro que seu pai Jack Fincher escreveu décadas atrás, é uma magnífica aula de história do cinema e de um dos seus maiores filmes, CIDADÃO KANE, de Orson Welles.

Não acho que curtir todos os detalhes e sutilezas da história de MANK (o título se refere ao roteirista de CIDADÃO KANE, Herman Mankiewicz, vivido magistralmente por Gary Oldman, sem dúvida um dos melhores atores da atualidade) seja fácil para todo mundo. Há muitos detalhes que somente serão devidamente entendidos e curtidos por quem conheça o filme CIDADÃO KANE, a história de sua realização, as brigas com William Raldolph Hurst e outros elementos da cinematografia.

MANK passa brilhantemente por uma autopsia do sistema vigente na época, onde os mega produtores (donos ou super executivos dos estúdios) ditavam as regras em Hollywood. O pós depressão forjou homens como Louis B. Meyer (Arliss Howard, ótimo), David O. Selznick (Toby Leonard Moore) e Irving Talberg (Ferdinand Kingsley), com poder de vida ou morte sobre filmes e pessoas.

Neste contexto, todos pagam respeito a William Rudoplh Hearst (Charles Dance soturno e misterioso), um magnata da imprensa e mantenedor de estúdios, atores, atrizes e diretores que ele admirava.

Neste cenário, um roteirista brilhante e polêmico, Herman Mankiewicz se junta a um jovem vindo do rádio, o ainda mais genial e briguento Orson Welles ( Tom Burke) louco o bastante para querer fazer um filme profundamente inovador biografando – de forma crítica – o magnata William Hearst. Quando o boato sobre a produção incipiente ( o roteiro está sendo escrito com grande dificuldade por Hank), as tentativas de barrar o filme, das mais sutis às mais explícitas, iniciam com força.

O filme de Fincher – como suas obras mais importantes, SEVEN, ZODÍACO e A REDE SOCIAL – são cheios de detalhes impressionantes. Há dezenas de coisas acontecendo em cada cena, cada diálogo, cada novo personagem que entre na tela. É muito difícil degustar tudo na primeira vez que se vê o filme.

Um aspecto que me fascinou é que Fincher faz questão de mostrar que mesmo sendo aquela uma terra (e uma época) de homens, havia mulheres maravilhosas e poderosas agindo nos bastidores de empresas e famílias, ditando regras e condicionando gestos decisivos da história. Marion Davies (o melhor trabalho até agora de Amanda Seyfried), a vênus platinada de Pops (Hearst), Rita Alexander (Lily Collins, ótima), Sarah Mankiewicz (a excelente atriz inglesa Tuppence Middleton, de A GUERRA DAS CORRENTES), Fraulein Frida (a russa Monika Gossmann), Norma Shearer Talberg (Jessie Cohen), irene Selznick (Desiree Louise) e Mrs. Meyer (Ammie Farrell) têm um papel decisivo no desenvolvimento da história (do cinema e do filme), muito maior que meramente desfilar em roupas glamurosas e sorver drinks com muito charme. As muitas vezes em que elas tomam decisões, direcionam comportamentos ou influenciam os homens poderosos em um ou outro caminho são um ponto chave da trama. “Nunca mais quero ser chamada de a Pobre Sarah”, brada a esposa de Mank em um momento chave do filme. Ou “uma pessoa muito mais inteligente do que parece”, como Mank se refere a Marion Davies em seu discurso sobre um hipotético filme na cena mais espetacular de todas.

O contexto social da época é outro elemento impressionante de MANK. A abissal diferença entre os ambientes luxuosos, as mansões opressivas e os jantares suntuosos dos magnatas e os milhares de desempregados implorando por uma nota de um dólar ou as percursoras das fake news em campanhas de difamação de pessoas capazes de pela via certa ou não verem a real situação da vida é quase um personagem nada invisível e onipresente no filme de Fincher. Incômodo e real.

MANK faz justiça à importância única de CIDADÃO KANE. Acho que é o maior elogio que se pode fazer ao excelente novo trabalho deste fascinante David Fincher.

MANK, the new film by filmmaker David Fincher premiered on NETFLIX, garnering huge praise from critics around the world. This enthusiastic reaction to the film is fully justified, since Fincher’s work, based on the script that his father Jack Fincher wrote decades ago, is a magnificent lesson in the history of cinema and one of his greatest films, CITIZEN KANE, by Orson Welles.

I don’t think enjoying all the details and subtleties of MANK‘s story (the title refers to CITIZEN KANE screenwriter, Herman Mankiewicz, lived masterfully by Gary Oldman, undoubtedly one of the best actors today) is easy for everyone. There are many details that will only be properly understood and enjoyed by those who know the film CITIZEN KANE, the story of its realization, the fights with William Raldolph Hurst and other elements of movie history.

MANK brilliantly undergoes an autopsy of the system of that time, where mega producers (owners or super executives of the studios) dictated the rules in Hollywood. Post-depression forged men like Louis B. Meyer (Arliss Howard, great), David O. Selznick (Toby Leonard Moore) and Irving Talberg (Ferdinand Kingsley), with life and death power over films and people .

In this context, everyone pays respect to William Rudoplh Hearst (dark and mysterious Charles Dance), a press mogul and maintainer of the studios, actors, actresses and directors he admired.

In this scenario, a brilliant and controversial screenwriter, Herman Mankiewicz joins a young man coming from the radio, the even more brilliant and quarrelsome Orson Welles (Tom Burke) crazy enough to want to make a deeply innovative film biographing – critically – the tycoon William Hearst. When the rumor about incipient production (the script is being written with great difficulty by Hank), attempts to stop the film, from the most subtle to the most explicit, start with force.

Fincher’s film – like his most important works, SEVEN, ZODIAC and THE SOCIAL NETWORK – is full of impressive details. There are dozens of things happening in each scene, each dialogue, each new character that enters the screen. It is very difficult to taste everything the first time you see the film.

One aspect that fascinated me is that Fincher is keen to show that even though it was a land (and an age) of men, there were wonderful and powerful women acting behind the scenes of companies and families, dictating rules and conditioning decisive gestures in history. Marion Davies (Amanda Seyfried‘s best work so far), Pops’ platinum venus (Hearst), Rita Alexander (Lily Collins, great), Sarah Mankiewicz (excellent English actress Tuppence Middleton, from THE CURRENT WAR), Fraulein Frida (the Russian Monika Gossmann), Norma Shearer Talberg (Jessie Cohen), Irene Selznick (Desiree Louise) and Mrs. Meyer (Ammie Farrell) have a decisive role in the development of the story (of the cinema and the film), much greater than merely parading in glamorous clothes and sipping drinks with lots of charm. The many times when they make decisions, direct behavior or influence powerful men in one way or another are a key plot point. “I never want to be called Poor Sarah again,” Mank’s wife cries at a key moment in the film. Or “a much smarter person than she looks”, as Mank refers to Marion Davies in his speech about a hypothetical film in the most spectacular scene of all.

The social context of the time is another impressive element of MANK. The abysmal difference between the luxurious environments, the oppressive mansions and the sumptuous dinners of the tycoons and the thousands of unemployed people begging for a dollar bill or the precursors of fake news in smear campaigns of people capable of right or wrong way seeing the the real situation in life is almost an invisible and omnipresent character in Fincher’s film. Cumbersome and real.

MANK does justice to the unique importance of CITIZEN KANE. I think it is the greatest compliment that can be given to the excellent new work of this fascinating David Fincher.

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