TENET: Nolan Faz (Outro) Filme Difícil (Muito) e Visualmente Arrebatador

Palíndromo, do grego palin (novo) e dromo (percurso), é toda palavra ou frase que pode ser lida de trás pra frente e que, independente da direção, mantém o seu sentido. Também chamadas de anacíclicas, elas devem ser lidas considerando-se apenas as letras.

Meu primeiro contato com o cinema de Christopher Nolan foi em AMNÉSIA (MEMENTO), um thriller sobre um sujeito que acorda sem memória e com o corpo todo tatuado com mensagens ininteligíveis. O filme é narrado de trás para diante, explicando a síndrome que faz o protagonista perder a memória de acontecimentos recentes. O espectador vai sendo informado do que ocorreu exatamente na mesma medida em que o mocinho vai sabendo o que houve com ele. Ali ficou claro que o cinema de Nolan não facilita as coisas para o espectador.

Está certo que na brilhante e curta carreira dele (16 filmes até agora), há a trilogia THE DARK KNIGHT, na minha opinião de longe a melhor expressão da história de BATMAN que o cinema já fez. Nos três filmes com o Homem Morcego, Nolan conseguiu contar a história com um visual arrebatador, um ritmo alucinante e uma profundidade típica dos filmes autorais.

Também gosto muito de INSÔNIA e DUNQUERQUE, outros dois filmes de Christopher Nolan cinematograficamente brilhantes e com roteiro capazes de serem entendidos por espectadores mortais.

Na gaveta dos filmes difíceis, há INCEPTION, INTERSTELLAR (o melhor dos difíceis)e agora TENET. O mesmo visual e forma inovadoras de filmar estão presentes. Ao ver um filme de Nolan, é impossível não se deslumbrar pelo visual de suas cenas extraordinariamente belas. Mais do que isto, nestes tempos de home cinema, Nolan certamente é hoje o diretor dos filmes para ser vistos na maior tela possível. Um diretor de cinema. Não à toa, Nolan foi a principal voz a se levantar contra o contrato da Warner (seu estúdio) com o streaming anunciando que em 2021 todos seus maiores títulos entram simultaneamente nos cinemas e no streaming.

TENET inicia complicado no título. Trata-se de um palíndromo de múltiplos significados que são dados ao espectador no decorrer das duas horas e meia do filme. A história conta a luta de agentes secretos (seria este um filme de 007 com a assinatura de Christopher Nolan?) para salvar o mundo que está para ser destruído por um bilionário russo através de uma explosão regrada por um algoritmo que vem de sete lugares diferentes do passado. At;e aí, 80% dos espectadores já desistiu de entender o filme.

A narrativa é tão complexa que há cenas em que o mesmo personagem se agarra a socos tentando matar ele mesmo em outro tempo. Esta coexistência do mesmo personagem com ele mesmo no passado (ou no futuro) dá ideia da complexidade da trama. Você jamais fica sabendo quem está em que tempo. Muito complicado.

Nolan rodou seu filme em IMAX 70mm, dizendo ser essencial que ele seja visto nas melhores salas de IMAX existentes. Mesmo em uma tela de TV (o filme está disponível nos serviços de streaming) é impossível não se encantar pela grandiosidade das cenas de TENET. O início do filme, com a cena do atentado na Ópera, já é visualmente arrebatador.

John David Washington (INFILTRADO NA KLAN) é o “protagonista” (nome pelo qual o personagem é referido todo o filme). A ótima Elizabeth Debicki é Kat, uma heroína meio submissa meio determinante dos rumos da história. Robert Pattinson (o eterno vampiro Edward) é Neil, o sidekick (será mesmo) do protagonista. Kenneth Branagh é o assustador milionário russo Sator, o homem com o dedo no botão para destruir o mundo, marido abusivo e contrabandista de armas. É bastante? Um dos melhores papeis do filme é uma participação do ótimo Michael Caine, uma peça chave da trama que é procurado pelo protagonista para obter informações. Almoçando em um restaurante de luxo londrino, ele diz:

Michael Crosby: Olha, sem ofensa, mas neste mundo, onde alguém afirma ser um bilionário, a Brooks Brothers não vai dar certo. O Protagonista: Presumo que estou dentro de um orçamento. Michael Crosby: Salve o mundo, então vamos equilibrar os livros. Posso recomendar um alfaiate? O Protagonista: Vou administrar. Vocês, britânicos, não têm o monopólio do esnobismo, sabem. Michael Crosby: Bem, não é um monopólio. Mais de um controle acionário.

Jessica Kiang, no THE NEW YORK TIMES escreveu em sua crítica sobre TENET:

“O tão aguardado “Tenet”, lançado em 26 de agosto em alguns territórios internacionais e em 3 de setembro nos Estados Unidos, é reconfortantemente maciço em todos os sentidos – exceto tematicamente. Idealmente apresentado em Imax de 70 milímetros, a proporção de aspecto elevada e preferida de Nolan, alinhada com as faces telegênicas de um elenco de superestrelas incipientes, maravilhosamente filmadas em vários locais globais e girando em um conceito elástico e flexível (mais sobre isso mais tarde / mais cedo ), o filme é inegavelmente agradável, mas sua grandiosidade vertiginosa serve apenas para destacar a fragilidade de sua suposta inteligência. Isso dificilmente seria uma crítica a qualquer outro blockbuster. Mas Nolan é, por vários campos de futebol em explosão, o principal autor do “intelectacle”, que combina engenhosidade visual de cair o queixo com todas as satisfações calmas de um Sudoku de nível médio. Dentro do contexto dessa marca autocriada de entretenimento cerebral, “Tenet” atende a todas as expectativas, exceto a expectativa de que as superará. Perdoe a circularidade deste argumento: é um efeito colateral de observar o “Princípio” desafiadoramente circular. …

Mas, nossa, ele explode bem. E isso não é nada, agora, quando provavelmente se trata de escala, explosões e acrobacias complexas, em vez de Significado Profundo, que será o que levará os cinéfilos tímidos a enfrentar o multiplex. Talvez “Tenet” possa até fornecer um vislumbre nostálgico de quem éramos, apenas alguns meses atrás, do outro lado de nosso estranho experimento no tempo. Em um ponto, o iate de Sator está ancorado na Costa Amalfitana, perto de Pompéia – uma cidade petrificada no auge de sua decadência por uma explosão vulcânica que ela não podia prever. Assim parece “Tenet”, o tipo de espetáculo extremamente caro e felizmente vazio que é difícil imaginar sendo feito em um futuro próximo ao médio, agora um artefato fascinante de uma civilização adorável sem noção do desastre que se esconde ao virar da esquina. Procure-o, nem que seja para maravilhar-se com a glória divertida e fútil do que já tivemos e corremos o risco de nunca mais ter. Bem, isso e os ternos.”

Minha opinião sobre TENET. Não se inscreve entre os melhores filmes de Christopher Nolan (DUNQUERQUE e os DARK KNGHT são bem superiores), mas inquestionavelmente é um filme cheio de ideias (talvez até demais) e visualmente deslumbrante. Acho que perde bastante em telas pequenas.

Goste-se ou não, Christopher Nolan segue sendo um cineasta diferenciado e muito original.

Palindrome, from the Greek palin (new) and dromo (route), is every word or phrase that can be read backwards and that, regardless of direction, maintains its meaning. Also called anacyclic, they should be read considering only the letters.

My first contact with Christopher Nolan‘s cinema was in MEMENTO, a thriller about a guy who wakes up without memory and with his body tattooed with unintelligible messages. The film is narrated backwards, explaining the syndrome that makes the protagonist lose the memory of recent events. The spectator is being informed of what happened exactly to the same extent that the guy knows what happened to him. There, it became clear that Nolan’s cinema does not make things easier for the viewer.

It is certain that in his brilliant and short career (16 films so far), there is the THE DARK KNIGHT trilogy, in my opinion by far the best expression in the history of BATMAN that cinema has ever made. In the three films with the Bat Man, Nolan managed to tell the story with a breathtaking look, a mind-boggling rhythm and a depth typical of authorial films.

I also really like INSOMNIA and DUNKIRK, two other Christopher Nolan films that are cinematographically brilliant and scripted to be understood by mortal viewers.

In the drawer of difficult films, there is INCEPTION, INTERSTELLAR (the best one of this group) and now TENET. The same visual and innovative way of filming are present. When watching a Nolan film, it is impossible not to be dazzled by the look of his extraordinarily beautiful scenes. More than that, in these times of home cinema, Nolan is certainly the director of the films to be seen on the largest screen possible. A film director. Not by chance, Nolan was the main voice to stand up against Warner’s (his studio) contract with streaming, announcing that in 2021 all of biggest titles will enter theaters and streaming simultaneously.

TENET starts complicated in the title. It is a palindrome with multiple meanings that are given to the viewer during the two and a half hours of the film. The story tells of the struggle of secret agents (was this a 007 film signed by Christopher Nolan?) to save the world that is about to be destroyed by a Russian billionaire through an explosion ruled by an algorithm that comes from seven different places from past. At that point, 80% of the viewers have already given up on understanding the film.

The narrative is so complex that there are scenes in which the same character clings to punches trying to kill himself at another time. This coexistence of the same character with himself in the past (or in the future) gives an idea of ​​the complexity of the plot. You never know who is at what time. Very complicated.

Nolan shot his film on IMAX 70mm, saying it is essential that it be seen in the best existing IMAX theatres. Even on a TV screen (the film is available on streaming services) it is impossible not to be enchanted by the grandeur of the TENET scenes. The beginning of the film, with the scene of the attack at the Opera, is already visually overwhelming.

John David Washington (THE BLACKKLANSMAN) is the “protagonist” (name by which the character is referred to throughout the film). The great Elizabeth Debicki is Kat, a somewhat submissive heroine who determines the direction of the story. Robert Pattinson (the eternal vampire Edward) is Neil, the sidekick (will be?) of the protagonist. Kenneth Branagh is the scary Russian millionaire Sator, the man with the finger on the button to destroy the world, abusive husband and arms smuggler. Is it enough? One of the best roles in the film is a participation by the iconic Michael Caine, a key part of the plot that is sought by the protagonist for information. Having lunch at a luxury London restaurant, he says:

Michael Crosby: Look, no offense, but in this world, where someone is claiming to be a billionaire, Brooks Brothers won’t cut it.
The Protagonist: I’m assuming I’m on a budget.
Michael Crosby: Save the world, then we’ll balance the books. Can I recommend a tailor?
The Protagonist: I’ll manage. You British don’t have a monopoly on snobbery, you know.
Michael Crosby: Well, not a monopoly. More of a controlling interest.

Jessica Kiang, at THE NEW YORK TIMES wrote in her review about TENET:

“The hotly anticipated “Tenet,” opening Aug. 26 in some international territories and Sept. 3 in the United States, is reassuringly massive in every way — except thematically. Ideally presented in 70-millimeter Imax, Nolan’s preferred, towering aspect ratio, arrayed with the telegenic faces of a cast of incipient superstars, gorgeously shot across multiple global locations and pivoting on an elastic, time-bending conceit (more on that later/earlier), the film is undeniably enjoyable, but its giddy grandiosity only serves to highlight the brittleness of its purported braininess. This would hardly be a criticism of any other blockbuster. But Nolan is, by several exploding football fields, the foremost auteur of the “intellectacle,” which combines popcorn-dropping visual ingenuity with all the sedate satisfactions of a medium-grade Sudoku. Within the context of this self-created brand of brainiac entertainment, “Tenet” meets all expectations, except the expectation that it will exceed them. Forgive the circularity of this argument: it’s a side effect of watching the defiantly circular “Tenet.”


But gosh, does he blow stuff up good. And that’s not nothing, right now, when it is probably scale and explosions and complex stunts, rather than Deep Meaning, that will be what gets corona-shy moviegoers to brave the multiplex. Perhaps “Tenet” can even provide a nostalgic glimpse of who we were, just months ago on the other side of our own weird experiment in time. At one point, Sator’s yacht is moored off the Amalfi Coast near Pompeii — a city petrified at the height of its decadence by a volcanic explosion it could not see coming. So seems “Tenet,” the kind of hugely expensive, blissfully empty spectacle it is difficult to imagine getting made in the near-to-medium future, now a fascinating artifact of a lovably clueless civilization unaware of the disaster lurking around the corner.

Seek it out, if only to marvel at the entertainingly inane glory of what we once had and are in danger of never having again. Well, that and the suits.”

My opinion about TENET. It is not among the best films by Christopher Nolan (DUNKIRK and DARK KNGHT are far superior), but unquestionably it is a film full of ideas (maybe too much) and visually stunning. I think it loses a lot on small screens.

Like it or not, Christopher Nolan remains a distinguished and original filmmaker.

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