AOS OLHOS DE ERNESTO: Finalmente um “Filme Argentino” Feito no Brasil

Há muitas décadas nos perguntamos por que a Argentina nos proporciona tantos filmes maravilhosos enquanto o cinema brasileiro tropeça em suas próprias pernas fazendo filmes pretensiosos e mal sucedidos? (como toda generalização, esta proposição se revela falha em várias situações, seja de filmes portenhos menos bem sucedidos, seja em filmes brasileiros de alto nível).

A fórmula de incontáveis “filmes argentinos”(desde UN INFIERNO TAN TEMIDO, DARSE CUENTA, O FILHO DA NOIVA, A HISTÓRIA OFICIAL, O SEGREDO DOS SEUS OLHOS e muitos outros) remete a dramas urbanos, com pessoas normais vivendo situações da vida cotidiana mostradas com atores e atrizes ótimos e bem dirigidos, dentro de um roteiro bem escrito com cenas e diálogos extraordinários não por sua excepcionalidade, mas por sua excelência.

O público se vê dentro do filme. As pessoas e situações são próximas de nós. A sensação de localismo divide a tela com a universalidade de pessoas e situações que todos vivenciaram e conhecem. Têm familiaridade com o que a pessoa comum vive.

Ontem vi um “filme argentino”feito no Brasil. AOS OLHOS DE ERNESTO, de Ana Luíza Azevedo é um excelente drama sobre a velhice. Ernesto, um septuagenário aposentado fotógrafo quase cego, vive em um pequeno apartamento de bairro em Porto Alegre e, apesar dos esforços do filho para vender o imóvel e levar o pai para São Paulo, resiste a ceder. No prédio há um outro senhor – este argentino – que a filha quer levar para Buenos Aires e também resiste ao lado da esposa.

Para surpresa de todos, Ernesto traz para dentro de casa um mulher (de menos de trinta anos) que vive de biscates, passeios com cachorros (“Isto é um profissão?”), pequenos golpes e vive pelas ruas se envolvendo com marginais (“a carência faz a gente se envolver com pessoas não tão boas assim”) e procurando onde passar cada noite.

Ernesto é o ator uruguaio Jorge Bolani, em seu melhor trabalho (WHISKY). O personagem é tão comum (todos nós somos ou conhecemos pessoas que são um pouco “Ernestos”) quanto excepcional .Sua cultura, experiência, forma de conviver com a deficiência visual, cartas trocadas com uma ex-namorada que casou com seu melhor amigo, o difícil relacionamento com o filho são exercício diário de amadurecimento e resistência.

Ela é Bia (Gabriela Poester), uma jovem diariamente agredida pela vida e pelas pessoas que convive, vítima de incompreensões, que “se apaixona todos os dias, mas ninguém se apaixona de volta por ela”. Formada em direção teatral pela UFRGS, Gabriela esteve em O CORPO, BRUXA DE FÁBRICA (Prêmio de Atriz em Gramado), a versão teatral de CRIME WOYZECK (Luciano Alabarse) e O MAMBEMBE (Zé Adão Barbosa, Graça Nunes, Carlota Albuquerque e Marcelo
Delacroix). O trabalho dela como Bia lembra as comédias dramáticas italianas dos anos sessenta, em que atores e atrizes de aparência comum cresciam, se tornando gigantes, pelo roteiro e pela interpretação de suas personagens.

Ana Luíza Azevedo tem uma longa história no cinema gaúcho. Sócia da CASA DE CINEMA, formada em Artes Plásticas pela Escola Superior de Belas Artes da UFRGS, co-dirigiu com Jorge Furtado o curta metragem BARBOSA e foi Assistente de Direção em ILHA DAS FLORES.

AOS OLHOS DE ERNESTO é um drama maduro, emocionante, duro de se ver, sem concessões, mas com uma humanidade e sensibilidades únicos. Finalmente, alguém conseguiu fazer um “filme argentino” de altíssima qualidade no Brasil. Um filme tão extraordinário e, ao mesmo tempo tão comum, como um “xis-coração”.

For many decades, we have wondered why Argentina provides us with so many wonderful films while Brazilian cinema stumbles on its own legs making pretentious and unsuccessful films? (like any generalization, this proposition proves to be flawed in several situations, whether in less successful Buenos Aires films or in high-level Brazilian films).

The formula of countless “Argentine films” (since UN INFIERNO TAN TEMIDO, DARSE CUENTA, THE SON OF THE BRIDE, THE OFFICIAL STORY, THE SECRET OF THE HER EYES and many others) refers to urban dramas, with normal people living in situations of everyday life shown with great and well-directed actors and actresses, within a well-written script with extraordinary scenes and dialogues not for their exceptionality, but for their excellence.

The audience sees itself within the film. People and situations are close to us. The feeling of localism divides the screen with the universality of people and situations that everyone has experienced and known. They are familiar with what the average person lives.

Yesterday I saw an “Argentine film” made in Brazil. THROUGH ERNESTO’S EYES, by Ana Luíza Azevedo is an excellent drama about old age. Ernesto, a retired and almost blind photographer in his seventies, lives in a small neighborhood apartment in Porto Alegre and, despite his son’s efforts to sell the property and take his father to São Paulo, resists giving in. In the building there is another gentleman – this Argentine – that the daughter wants to take to Buenos Aires and also resists beside his wife.

To everyone’s surprise, Ernesto brings a woman (“less than thirty years old”) into the house, a person who lives on odd jobs, walks with dogs (“Is this a profession?”), small tricks and lives on the streets getting involved with marginals (“lack makes us get involved with not-so-good people”) and looking for where to spend each night.

Ernesto is Uruguayan actor Jorge Bolani, in his best work (WHISKY). The character is as common (we are all or know people who are a little “Ernestos”) as exceptional. His culture, experience, way of living with visual impairment, letters exchanged with an ex-girlfriend who married his best friend, the difficult relationship with the son is a daily exercise in maturity and resistance.

She is Bia (Gabriela Poester), a young woman daily attacked by life and by the people she lives with, victims of misunderstandings, who “fall in love every day, but nobody falls in love with her”. Graduated in theater direction from UFRGS, Gabriela was in THE BODY, BRUXA DE FÁBRICA (Actress Award in Gramado), the theatrical version of CRIME WOYZECK (Luciano Alabarse) and O MAMBEMBE (Zé Adão Barbosa, Graça Nunes, Carlota Albuquerque and Marcelo Delacroix). Her work as Bia recalls the Italian dramatic comedies of the sixties, in which actors and actresses of common appearance grew, becoming giants, for the script and the interpretation of their characters.

Ana Luíza Azevedo has a long history in gaucho cinema. Partner at CASA DE CINEMA, graduated in Plastic Arts at UFRGS, co-directed with Jorge Furtado the short film BARBOSA and was Assistant Director in ILHA DAS FLORES.

THROUGH ERNESTO’S EYES is a mature, emotional drama, several moments hard to see, without easy scenes, but with a unique humanity and sensibilities. Finally, someone managed to make a very high quality “Argentine film” in Brazil. It is a movie so extraordinary and, at the same time, so usual as a chicken heart cheeseburguer.

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