ASSIM CAMINHA A HUMANIDADE: Isaac Menda Revisita um Clássico Imortal

O CONVIDADO DE HOJE DO CINEMARCO É ISAAC MENDA.

Existem filmes que marcam a nossa vida e muitas pessoas têm seus favoritos. Eu, por exemplo, tenho diversos, mas existe um que se sobressai. Trata-se de Assim Caminha a Humanidade, Giant no original, baseado no livro de mesmo nome de Edna Ferber. Nunca gostei da tradução do nome do filme e parabenizo nossos irmãos de Portugal, pois lá se chamou Gigante. Este ano completa 65 anos. 

Ainda me lembro dos meus dez ou onze anos de idade quando assisti pela primeira vez e desde lá já foram quase cinco dezenas vezes, pois não me canso do filme, apesar de mais de três horas de projeção. 

Trata-se da história de três gerações de texanos e seus conflitos de interesses. Tudo começa em 1923, quando Bick Benedict (Rock Hudson), um rancheiro, vai comprar um cavalo premiado e se apaixona por Leslie (Elizabeth Taylor), a filha do proprietário da fazenda. 

Eles se casam e ela retorna com o marido para o Rancho Reata, no Texas. Na fazenda, Leslie passa a conviver também com Luz Benedict (Mercedes McCambridge), irmã do seu marido, uma mulher rude e solteirona que não vê com simpatia a chegada da cunhada. Jett Rink (James Dean) é um peão alcoólatra que tem certa rivalidade com Bick e é responsável por cuidar das propriedades da família. 

Após a morte de sua irmã, Bick se surpreende ao saber que no seu testamento Luz deixara uma parte de suas terras para o rebelde e beberrão Jett. Bick então propõe comprar de volta a parte dela, mas Jett se recusa. Em uma das cenas mais memoráveis do cinema, após tomar um banho de petróleo, Jett vai com seu carro velho e amassado até o Rancho Reata para falar uns desaforos e mostrar ao seu antigo patrão que agora ele também seria rico. 

O petróleo é o principal tema do filme. Jett fica rico com sua companhia JETTEXAS e tem o mundo a seus pés. James Dean domina as cenas em que aparece, seja indo coberto de petróleo esnobar a família Benedict ou afundando no alcoolismo com o passar dos anos. 

Neste filme George Stevens retratou plenamente o espírito de transformação social que sobreveio sobre a sociedade após a Segunda Guerra Mundial, que abriu chagas no mito do sonho americano de viver no glamour na década de 40, além de traduzir toda a dimensão do realismo norte-americano no cinema. 

Outro tema é o preconceito com relação aos mexicanos. Na propriedade dos “Benedicts” trabalham muitos deles. Em contraste com a opulência dos patrões, eles vivem em condições precárias em uma vila próxima ao rancho. Isso decepciona Leslie, uma mulher forte e decidida. Ela se preocupa com os imigrantes, chegando a apadrinhar Angel Obregon (interpretado por Sal Mineo, quando adulto). 

A tensão só aumenta quando Jordy, filho do casal protagonista (Dennis Hopper), decide se casar com uma mexicana para desespero do pai. O caminho não é fácil para o casal. Será com a aceitação de Bick e a luta pela igualdade da nora e dos netos que Leslie afirmará que ela o respeita e que a família deles é um orgulho. Isso encerra esta odisseia cinematográfica. 

Assim Caminha a Humanidade é um filme longo, de aproximadamente 3hs20min, mas que prende a atenção do início ao fim. É uma reconstrução precisa do período entre guerras em um local quase inóspito e muito conservador, feito em uma época em que os movimentos pela igualdade de direitos civis ainda caminhavam muito lentamente. Isso viria a explodir nos anos 60, com a liderança de Martin Luther King em relação aos negros. 

Além de interpretações magistrais de Rock Hudson e Elisabeth Taylor este filme tornou-se um Cult com a morte de James Dean, logo após o término das filmagens. 

Ele terminou de filmar suas cenas na sexta-feira, 23 de setembro de 1955. Na noite do dia 30 de setembro de 1955, George Stevens e membros do elenco estavam projetando as primeiras cópias na sala de projeção da Warner Brothers. De repente o telefone tilintou e o diretor atendeu. 

Stevens recolocou o telefone no gancho, parou de rodar a filmagem e acendeu as luzes da sala de projeção e disse: “Acabaram de me dar a notícia de que James Dean morreu”. Ninguém acreditava que o ator de 24 anos e que havia conquistado o estrelato em “Vidas amargas” havia partido. 

James Dean, a mais espetacular descoberta cinematográfica desde Marlon Brando, tinha batido violentamente seu Porsche Spyder prateado contra a lateral de um outro carro perto de Paso Robles, na Califórnia. Elisabeth Taylor, inclusive, lhe havia dado de presente um gatinho siamês como presente de despedida. 

O filme só foi lançado nos cinemas em 1956 e James Dean havia se tornado um herói, cujo culto ia além do túmulo. Com o seu gesto rebelde de sacudir os ombros tornou-se um símbolo para os adolescentes dos anos 50. Faço aqui uma interrupção na análise do filme. Quando assisti pela primeira vez, insisti para meu pai para me comprar uma calça jeans, na época se chamava calça faroeste (far-west), pretendendo imitar James Dean. Saia nas ruas com a calça e luvas de couro nos bolsos traseiros e me sentia o rei do petróleo. 

O desempenho de James Dean, como o capataz mal-humorado, que se transforma no bêbado rei do petróleo hipnotizou a crítica. “É James Dean que tem o papel mais marcante na história texana de Edna Ferber, ele cria com o seu Jett Rink o mais memorável personagem do filme”, escreveu o “New York Times”. 

A película é extremamente envolvente em sua novela dramática familiar, mas igualmente cativante por sua manipulação sutil de importantes temas sociais. A excelente direção de fotografia de William Melor e o design de produção são consistentemente bonitos. 

As paisagens austeras do Texas (filmadas principalmente na cidade de Marfa) não poderiam ter mais impacto. Entre muitas cenas que me impressionaram está a casa de Benedict que tem um estilo gótico meio estranho, um pouco misteriosa em seu exterior, mas é exuberantemente linda e vitoriana por dentro. Assisti um documentário sobre o filme que mostrava a fachada da casa construída se degradando aos poucos ao final da produção. No início era uma atração turística. 

O filme foi indicado ao Oscar de melhor filme, ator (Hudson, sua única indicação, e Dean, postumamente), atriz coadjuvante (Mercedes McCambridge), direção de arte, figurino, montagem, trilha musical e roteiro. Mas foi George Stevens que ganhou o único prêmio, como melhor diretor. 

Stevens (1904-1974) foi um diretor de cinema norte americano muito romântico e classicista por excelência e ficou muito famoso pelo rigor e na demora de suas produções. 

Era um técnico perfeito, sabia tudo sobre cinema e montagem de filmes. Ele não tinha pressa em acaba-los, nem tinha gênero preferido. Era bom em tudo, de musicais de Fred Astaire e Ginger Rogers (“Ritmo louco“, 1936) a faroestes (“Os brutos também amam“, 1953), e nunca nenhum ator fez uma má interpretação numa fita sua. Todas as estrelas o adoravam e trabalharam com ele mais de uma vez. 

Alguns filmes de Stevens beiram a perfeição. Os dois anos que ele levou para montar “Um lugar ao sol” (1951) ficam patentes no resultado brilhante. Stevens estava no auge da carreira e prestígio quando aceitou produzir e dirigir “Assim caminha a humanidade” para a Warner (pelo qual não teve salário), que não interferiu no resultado. 

Ele tinha liberdade total de ação e na escolha do elenco. Stevens preferiu colocar jovens e envelhecê-los. Elizabeth Taylor e James Dean tinham apenas 24 anos, Rock Hudson, 29. O papel de Jett Rink, que completa o triângulo amoroso com o casal Taylor e Hudson, foi antes oferecido para Alan Ladd, amigo de Stevens desde “Os brutos também amam”, mas sua esposa o desaconselhou. 

Assim Caminha a Humanidade é um épico e passou um ano inteiro nas salas de edição da Warner. Originalmente orçado em apenas US$ 2 milhões, este filme acabou custando mais de US$ 5 milhões. Apesar das preocupações do chefe do estúdio, Jack L. Warner, tornou-se o maior sucesso da Warner Brothers até então. 

Com um elenco de apoio estelar, incluindo Mercedes McCambridge, Sal Mineo, Carroll Baker. Dennis Hopper e Rod Taylor (nos créditos ele aparece como Rodney Taylor) transformou-se em um dos grandes clássicos da história do cinema. Entrou na lista dos 100 melhores filmes de todos os tempos. Além de ganhar o Oscar de Melhor Direção e ser indicado em mais oito categorias, o filme também foi a maior bilheteria da Warner por 22 anos. James Dean estava tão completamente imerso no seu personagem que ele raramente tirava o figurino. 

Depois que James Dean morreu, já no final da produção deste filme, Nick Adams forneceu a voz do personagem Rink para algumas cenas. 

O personagem Jett Rink foi inspirado na vida de Glenn McCarthy (1908 – 1988), imigrante irlandês que se tornou um dos principais petroleiros no Texas. 

Tem uma cena que é memorável. Rock Hudson e Elizabeth Taylor saíram uma noite para tomar um drink para se conhecerem, ainda no início da produção. Ambos ficaram muito bêbados, terminando a noitada às 3h da manhã. Eles deveriam trabalhar às 5h30. 

Felizmente, a cena filmada naquela manhã foi uma de casamento, sem diálogos, então ao invés de falar, tudo o que tinham que fazer era olhar amorosamente um para o outro. Os dois atores estavam tão concentrados em não passarem mal que ficaram surpresos quando algumas das pessoas no set começaram a chorar, convencidos de seus supostos olhares de adoração um para o outro. 

Por ironia do destino, durante a produção, James Dean apareceu em um comercial de TV informal preto-e-branco no qual ele respondia perguntas feitas pelo ator Gig Young. Ironicamente Dean estava promovendo a direção segura e informou aos telespectadores: “As pessoas dizem que a corrida é perigosa, mas eu prefiro me arriscar na pista qualquer dia do que na estrada”. Antes de sair do estúdio, ele adicionou um conselho: “Dirija com cuidado, porque a vida que você salva pode ser a minha”. Dean estava usando o mesmo chapéu e a mesma roupa que ele usou para o filme ao longo do comercial. Ele morreu algumas semanas depois em um acidente de carro. 

Assim Caminha a Humanidade foi o filme de maior bilheteria da história da Warner Bros. até o lançamento de Superman – o filme em 1978. 

Se o isolamento social persistir vou assisti-lo mais uma vez e assim caminha a humanidade.

TODAY’S CINEMARCO GUEST IS ISAAC MENDA.

There are films that mark our lives and many people have their favorites. I, for example, have several, but there is one that stands out. This is Giant, based on the book of the same name by Edna Ferber. I never liked the translation of the title of the film and I congratulate our brothers in Portugal, because it was called “Gigante”. This year marks the 65th anniversary of the movie.

I still remember my ten or eleven years of age when I watched it for the first time and since then it has been almost five dozen times, because I can’t get enough of the film, despite more than three hours of projection.

It is the story of three generations of Texans and their conflicts of interest. It all starts in 1923, when Bick Benedict (Rock Hudson), a rancher, goes to buy a prize horse and falls in love with Leslie (Elizabeth Taylor), the farm owner’s daughter.

They get married and she returns with her husband to Rancho Reata, Texas. On the farm, Leslie also lives with Luz Benedict (Mercedes McCambridge), sister of her husband, a rude and spinster woman who does not sympathize with the arrival of her sister-in-law. Jett Rink (James Dean) is an alcoholic pawn who has a certain rivalry with Bick and is responsible for taking care of the family properties.

After his sister’s death, Bick is surprised to learn that in her will Luz had left part of his land to the rebel and will drink Jett. Bick then proposes to buy back her part, but Jett refuses. In one of the most memorable scenes in the cinema, after taking a bath in oil, Jett goes with his old and wrecked car to Rancho Reata to talk some insults and show his former boss that now he too would be rich.

Oil is the main theme of the film. Jett gets rich with his company JETTEXAS and has the world at his feet. James Dean dominates the scenes in which he appears, whether going covered in oil to snub the Benedict family or sinking into alcoholism over the years.

In this film, George Stevens fully portrayed the spirit of social transformation that came over society after the Second World War, which opened wounds on the myth of the American dream of living in glamor in the 1940s, in addition to translating the whole dimension of North American realism in the cinema.

Another theme is prejudice against Mexicans. Many of them work on the Benedicts’ property. In contrast to the opulence of the bosses, they live in precarious conditions in a village close to the ranch. This disappoints Leslie, a strong and determined woman. She cares about immigrants, even sponsoring Angel Obregon (played by Sal Mineo as an adult).

The tension only increases when Jordy, son of the protagonist couple (Dennis Hopper), decides to marry a Mexican woman to her father’s despair. The road is not easy for the couple. It will be with Bick’s acceptance and the fight for equality for her daughter-in-law and grandchildren that Leslie will claim that she respects him and that their family is a pride. That ends this cinematic odyssey.

GIANT is a long film, of approximately 3h20min, but that holds attention from beginning to end. It is an accurate reconstruction of the interwar period in an almost inhospitable and very conservative place, carried out at a time when movements for the equality of civil rights were still moving very slowly. This would explode in the 1960s, with Martin Luther King’s leadership in relation to blacks.

In addition to masterful interpretations of Rock Hudson and Elizabeth Taylor this film became a Cult with the death of James Dean, shortly after the end of filming.

He finished filming his scenes on Friday, September 23, 1955. On the night of September 30, 1955, George Stevens and cast members were projecting the first copies in the Warner Brothers screening room. Suddenly the phone rang and the director answered.

Stevens replaced the phone, stopped shooting and turned on the projection room lights and said, “They just gave me the news that James Dean died.” No one believed that the 24-year-old actor who had achieved stardom in “Bitter Lives” was gone.

James Dean, the most spectacular film discovery since Marlon Brando, had slammed his silver Porsche Spyder against the side of another car near Paso Robles, California. Elizabeth Taylor had even given her a Siamese kitten as a parting gift.

The film was only released in theaters in 1956 and James Dean had become a hero, whose cult went beyond the grave. With his rebellious gesture of shaking his shoulders, he became a symbol for the teenagers of the 50s. Here I interrupt the analysis of the film. When I watched it for the first time, I urged my father to buy me a pair of jeans, then called far-west pants, intended to imitate James Dean. I went out on the streets with jeans and leather gloves in the back pockets and I felt like the king of oil.

James Dean’s performance as the grumpy foreman who becomes the drunk king of oil mesmerized the critics. “It is James Dean who has the most striking role in Edna Ferber’s Texas history, he creates with his Jett Rink the most memorable character in the film,” wrote the New York Times.

The film is extremely immersive in its dramatic family novel, but equally captivating due to its subtle manipulation of important social themes. William Melor’s excellent photography direction and production design are consistently beautiful.

Texas’ austere landscapes (filmed mainly in the city of Marfa) could not have more impact. Among many scenes that impressed me is Benedict’s house, which has a strange Gothic style, a little mysterious on the outside, but is exuberantly beautiful and Victorian on the inside. I watched a documentary about the film that showed the façade of the built house gradually degrading at the end of production. In the beginning it was a tourist attraction.

The film was nominated for an Oscar for best film, actor (Hudson, his only nomination, and Dean, posthumously), supporting actress ( Mercedes McCambridge ), art direction, costume design, editing, soundtrack musical and script. But it was George Stevens who won the only award, as best director.

Stevens (1904-1974) was a very romantic and classicist North American film director par excellence and became very famous for the rigor and delay in his productions.

he was a perfect technician, he knew everything about cinema and film editing. He was in no hurry to finish them, nor did he have a favorite gender. He was good at everything from Fred Astaire and Ginger Rogers musicals (SWING TIME, 1936) to Westerns (SHANE, 1953), and no actor has ever acted badly in one of his movies. All the stars loved him and worked with him more than once.

Some Stevens films are close to perfection. The two years it took him to assemble A PLACE IN THE SUN (1951) are evident in the brilliant result. Stevens was at the height of his career and prestige when he agreed to produce and direct GIANT for Warner (for which he had no salary), which did not interfere in the result.

He had complete freedom of action and choice of cast. Stevens preferred to put young people and age them. Elizabeth Taylor and James Dean were only 24 years old, Rock Hudson, 29. The role of Jett Rink, who completes the love triangle with the couple Taylor and Hudson, was previously offered to Stevens’ friend Alan Ladd (since SHANE), but his wife advised against it.

GIANT is an epic and spent an entire year in Warner’s editing rooms. Originally budgeted at just $ 2 million, this film ended up costing more than $ 5 million. Despite the concerns of studio head Jack L. Warner, it became Warner Brothers’ biggest success so far.

With a stellar support cast, including Mercedes McCambridge, Sal Mineo, Carroll Baker . Dennis Hopper and Rod Taylor (in the credits he appears as Rodney Taylor) became one of the great classics in the history of cinema. It entered the list of the 100 best films of all time. In addition to winning the Academy Award for Best Director and being nominated in eight more categories, the film was also Warner’s top box office for 22 years. James Dean was so completely immersed in his character that he rarely took off his costume.

After James Dean died, towards the end of the production of this film, Nick Adams provided the voice of the character Rink for some scenes.

The character Jett Rink was inspired by the life of Glenn McCarthy (1908 – 1988), an Irish immigrant who became one of the main oil tankers in Texas.

There is a scene that is memorable. Rock Hudson and Elizabeth Taylor went out one night to have a drink to get to know each other, even at the beginning of production. Both were very drunk, ending the night at 3 am. They were supposed to work at 5:30 am.

Fortunately, the scene filmed that morning was one of wedding, without dialogue, so instead of talking, all you had to do was look lovingly at each other. The two actors were so focused on not feeling sick that they were surprised when some of the people on the set started crying, convinced of their supposed adoring looks at each other.

Ironically, during the production, James Dean appeared in an informal black-and-white TV commercial in which he answered questions asked by actor Gig Young. Ironically Dean was promoting safe driving and informed viewers: “People say the race is dangerous, but I prefer to risk myself on the track any day than on the road.” Before leaving the studio, he added a piece of advice: “Drive carefully, because the life you save could be mine.” Dean was wearing the same hat and the same clothes he wore for the film throughout the commercial. He died a few weeks later in a car accident.

GIANT was the highest grossing film in the history of Warner Bros, until the release of Superman in 1978.

If social isolation persists, I will see GIANT once again and that is the way humanity walks.

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