JULIO RICARDO DA ROSA: O FILME QUE MUDOU A MINHA VIDA.

O CONVIDADO DE HOJE DO CINEMARCO É JÚLIO RICARDO DA ROSA.

Eu ainda não completara dezesseis anos naquele início de primavera. Meu amigo Ronald Schwantes, que infelizmente nos deixou muito cedo, me falou sobre um filme que estrava no Cinema UM— Sala Vogue, uma sala que formou cinéfilos durante os anos setenta e oitenta, precursora de outro templo lendário, o cine Bristol.

Era Depois Daquele Beijo (Blow Up), dirigido na Inglaterra por Michelangelo Antonioni. Era uma reprise especial.

Sim, naqueles dias, os filmes eram reprisados nos cinemas. Uma noite de sábado, lá fomos nós. Havia uma novidade naquela sessão. A meia-noite teríamos uma apresentação de um clássico do cinema mudo — “O Águia” com Rodolfo Valentino.

“Blow Up” era diferente de tudo que eu assistira até então. A história do fotógrafo de moda que descobre um crime enquanto tirava fotos em um parque na “swinging London” do final dos sessenta era impactante.

A trama era baseada em um conto do escritor argentino Julio Cortázar e o filme revelou o autor para o mundo.

Obra-prima gigantesca, a fita tem sequências únicas, como a luta pelo pedaço da guitarra que Jeff Back despedaça no palco ao final de um concerto e, após tanto esforço do protagonista para consegui-la, é jogada no lixo, a descoberta da arma entre os arbustos após sucessivas ampliações das fotos (daí o título original em inglês), o cadáver que desaparece e a misteriosa modelo vivida por Vanessa Redgrave, ou o olhar perdido do fotógrafo ao ver que os negativos dos filmes foram roubados.

Mas nenhuma delas supera as imagens finais.

Em uma quadra de tênis vazia, uma troupe de mímicos, com os rostos pintados e roupas estilizadas, interpretam uma partida, sem raquetes ou bola.

O fotógrafo, que chega a duvidar de sua sanidade, pois não consegue alguém que acredite no crime que ele afirma ter captado, observa aqueles movimentos sem saber o que fazer. Até que um dos mímicos pretende que a bola foi jogada para fora da quadra e olha para o fotógrafo.

Ele hesita por um momento, depois vai até um ponto do gramado, se abaixa, faz gestos demonstrando que encontrou a bola e a joga para o mímico que retoma a partida fictícia.

A câmera se afasta e a cena vai se perdendo até ser transformada em uma imagem estática.

Pouco lembro do “Águia.” Saímos do cinema e fomos comer um croquete e tomar guaraná no bar Líder, que ficava próximo.

Disse ao meu amigo: — Alguma coisa mudou.

E mudou mesmo.

A partir daquele filme o cinema passou a ser essencial para mim.

Logo depois assisti na mesma sala “Quatro Devem Morrer,”de Peter Collison, um drama de guerra existencialista e filmado a maneira de Antonioni e “O Satyricon,” de Federico Fellini.

Foi o suficiente.

Continuei gostando dos “Dráculas” interpretados por Christopher Lee que fascinaram meus primeiros anos de cinemeiro, mas uma porta foi aberta por Antonioni.

Vi quase todos os seus filmes, mas “Blow Up” segue meu preferido.

Há alguns anos, o filme voltou ao cinemas graças a um ato de coragem da distribuidora ARTEPLEX.

Fui revê-lo, e junto estavam minha esposa e nossa filha.

Quis apresentar a elas o filme que mudou a minha vida e, de uma certa forma, me trouxe até onde estou.

I was not yet sixteen that early spring. My friend Ronald Schwantes, who unfortunately left us very early, told me about a film that was featured at Cinema UM – Sala Vogue, a theater that trained film buffs during the seventies and eighties, the precursor to another legendary temple, the Bristol cinema.

It was Blow Up, directed in England by Michelangelo Antonioni. It was a special rerun.

Yes, in those days, films were reissued in theaters. One Saturday night, we went. There was something new in that session. At midnight we would have a presentation of a classic silent film, THE EAGLE with Rodolfo Valentino.

BLOW UP was unlike anything I had seen so far. The story of the fashion photographer who discovers a crime while taking photos in a park in “swinging London” in the late sixties was striking.

The plot was based on a short story by Argentine writer Julio Cortázar and the film revealed the author to the world.

Gigantic masterpiece, the movie has unique sequences, such as the fight for the piece of guitar that Jeff Back shatters on stage at the end of a concert and, after so much effort by the protagonist to get it, it is thrown in the trash, the discovery of the weapon among the bushes after successive enlargements of the photos (hence the original title in English), the corpse that disappears and the mysterious model lived by Vanessa Redgrave, or the lost look of the photographer when seeing that the negatives of the films were stolen.

But none of them surpasses the final images.

On an empty tennis court, a troupe of mimes, with painted faces and stylized clothes, play a game, without rackets or a ball.

The photographer, who comes to doubt his sanity, because he cannot find someone who believes in the crime he claims to have captured, observes those movements without knowing what to do. Until one of the mimes pretends that the ball was thrown out of the court and looks at the photographer.

He hesitates for a moment, then goes to a point on the pitch, bends down, makes gestures that he has found the ball and throws it to the mime player who resumes the fictitious match.

The camera moves away and the scene is lost until it is transformed into a still image.

I hardly remember THE EAGLE. We left the cinema and went to eat a croquette and drink guarana at the Líder bar, which was nearby.

I said to my friend: “Something has changed”.

And it really changed.

From that film on, cinema became essential for me.

Soon after, I watched in the same room “THE LONG DAYS DYING” by Peter Collison, an existentialist war drama and filmed in the manner of Antonioni and SATYRICON, by Federico Fellini.

It was enough.

I continued to like the “Draculas” played by Christopher Lee that fascinated my early years as a cinephile, but a door was opened by Antonioni.

I’ve seen almost all of his films, but BLOW UP is still my favorite.

A few years ago, the film returned to theaters thanks to an act of courage by the distributor ARTEPLEX.

I went to see him again, and there were my wife and our daughter.

I wanted to introduce them to the film that changed my life and, in a way, brought me to where I am.

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