AS COISAS CONTIDAS NO INTERIOR DE PIERRE RIVIÈRE

O CONVIDADO DE HOJE DO CINEMARCO É ERON DUARTE FAGUNDES.

Antes do escrito: Em 1835, em Aunay, no interior da França, um jovem camponês, Pierre Rivière, degola sua mãe, sua irmã e seu irmão. Em seus depoimentos alega basicamente que o fizera por amor a seu pai, que tinha problemas com as brigas de sua mãe. 179 anos depois, em Albi, um bucólico lugarejo da mesma França, se vê outro estranho crime. Noticia o jornal francês, enquanto no Brasil se desenrolava a Copa do Mundo: “Uma educadora de 34 anos foi apunhalada até à morte pela mãe dum aluno, nesta sexta-feira, 4 de julho, em Albi”. Dizem que ouviram a assassina gritar: “Eu não sou uma ladra!” Que caminho da mente francesa vai do parricida à matadora da mulher que educava?

O desconhecimento por aqui de boa parte da obra do cineasta francês René Allio não impede a grandeza de seu cinema. Eu, Pierre Rivière, que degolei minha mãe, minha irmã e meu irmão (Moi, Pierre Rivière, ayant  égorgé ma mère, ma soeur et mon frère…; 1976) é uma grande reflexão cinematográfica sobre a instalação sofisticada da loucura numa mente primitiva, um jovem camponês que amava tanto a seu pai que se sentiu instado a matar sua mãe, sua irmã e seu irmão, crime que chocou uma pequena cidade francesa na primeira metade do século XIX. O ponto de partida do filme de Allio é um “estudo coletivo” do pensador francês Michel Foucault, um especialista nas relações entre psiquiatria e justiça penal na França. Foucault ajudou o realizador a roteirizar seu filme. Para a carga de veracidade da narrativa, Allio filmou tudo onde, mais de um século antes, ocorrera o crime de Pierre e utilizou atores não-profissionais catados no lugarejo e provavelmente muitos deles descendentes das mesmas criaturas que assistiram às sanguinárias ações do protagonista em 1835.

O primeiro filme de Allio, A velha dama indigna (1965), já apaixonava os que tratavam o cinema como algo maior do que banalidades comerciais. Eu, Pierre Rivière leva adiante o processo de desglamurização do cinema por parte de Allio. A fotografia é despida de artifícios, contenta-se mesmo com uma iluminação precária: evita-se a beleza fácil, os quadros parecem produzir uma opacidade relativa. Os gestos dos atores seguem um ritual desdramático, porém sem perder de vista a construção do drama. Como se, no século XIX, um documentário cinematográfico estivesse sendo rodado, mas impossivelmente: é chegada a narrativa que mimetiza o documento. O documento, na verdade, está em Foucault, que todavia também é um ponto-de-vista de escritor, pois, como um diretor de cena, monta o material encontrado. Pierre Rivière parece ter existido para que Allio e Foucault expressassem suas artes.

Para se entender melhor o lado complexo da simplicidade narrativa de Eu, Pierre Rivière,é bom olhar para algumas frases espalhadas pelo cineasta em suas notas sobre a realização. Diz ele, inicialmente: “Eu, Pierre Rivière deveria responder, numa só vez, às necessidades de um filme documental e de uma ficção dramática.” Responde, de fato: funde as coisas. E sobre a escolha dos intérpretes amadores: “A filmagem com os atores não-profissionais de Eu, Pierre Rivière foi para nós uma experiência apaixonante.” Explicitando o processo: “Há duas escolas principais de atores não-profissionais, a bressoniana: o não-profissional é uma forma vaga, interiormente investida pelo realizador e pelo espectador, e a escola documentarista, do tipo do cinema-verdade. Mas aqui, com a distância do tempo, da ficção, nós trabalhamos precisamente como se lidássemos com profissionais. É isto que foi formidável, é esta a cumplicidade à qual chegamos com os atores.”

Depois, no título em francês (do livro e do filme) há um andamento verbal que escapa ao título dado em português. Há as reticências, e antes dela, aquele particípio passado composto, “ayant égorgé”, tudo indicando que a degola dos familiares é somente o começo dum processo mental que existirá mesmo nos interrogatórios, no automemorial, na fuga pela floresta. Pierre Rivière, saído da vida real do século XIX, convertido em livro por um filósofo do insocial, é uma das grandes personagens do cinema no século XX. E a atualidade de seu gesto é cada vez mais assustadora, neste pórtico do século XXI, como se vê pelos noticiários criminais internacionais.

TODAY CINEMARCO’S GUEST IS ERON DUARTE FAGUNDES

Before writing: In 1835, in Aunay, in the countryside of France, a young peasant, Pierre Rivière, beheaded his mother, his sister and his brother. In his statements, he basically claims that he did it out of love for his father, who had problems with his mother’s fights. 179 years later, in Albi, a bucolic village in the same France, another strange crime is seen. The French newspaper reports, while the World Cup was taking place in Brazil: “A 34-year-old educator was stabbed to death by the mother of a student, this Friday, July 4th, in Albi”. They say they heard the killer scream, “I am not a thief!” Which path of the French mind goes from the parricide to the killer of the woman he educated?

The lack of knowledge here of a good part of the work of the French filmmaker René Allio does not prevent the greatness of his cinema. Moi, Pierre Rivière, ayant égorgé ma mère, ma soeur et mon frère… (Me, Pierre Rivière, who beheaded my mother, my sister and my brother – 1976) is a great cinematic reflection on the sophisticated installation of madness in a mind primitive, a young peasant who loved his father so much that he felt compelled to kill his mother, sister and brother, a crime that shocked a small French town in the first half of the 19th century. The starting point of Allio’s film is a “collective study” by French thinker Michel Foucault, an expert on the relationship between psychiatry and criminal justice in France. Foucault helped the director to script his film. For the veracity of the narrative, Allio filmed everything where, more than a century before, Pierre’s crime had occurred and used non-professional actors from the village and probably many of them descendants of the same creatures who watched the protagonist’s bloody actions in 1835 .

Allio’s first film, The Unworthy Old Lady (1965), was already in love with those who treated cinema as something greater than commercial platitudes. Me, Pierre Rivière takes the process of deglamurization of cinema on the part of Allio. Photography is devoid of artifice, it is content even with poor lighting: easy beauty is avoided, the paintings seem to produce relative opacity. The actors’ gestures follow a dramatic ritual, but without losing sight of the construction of the drama. As if, in the 19th century, a cinematographic documentary was being made, but it is impossible: the narrative that mimics the document has arrived. The document, in fact, is in Foucault, which however is also a writer’s point of view, as, as a stage director, he assembles the material found. Pierre Rivière seems to have existed for Allio and Foucault to express their arts.

In order to better understand the complex side of Eu narrative simplicity, Pierre Rivière, it is good to look at some phrases spread by the filmmaker in his notes on the realization. He says, initially: “I, Pierre Rivière should respond, in one go, to the needs of a documentary film and dramatic fiction.” He answers, in fact: he merges things. And about the choice of amateur performers: “Filming with non-professional actors from Eu, Pierre Rivière was a passionate experience for us.” Explaining the process: “There are two main schools of non-professional actors, the Bressonian one: the non-professional is a vague form, internally invested by the director and the viewer, and the documentary school, of the type of true cinema. But here, with the distance of time, of fiction, we work precisely as if dealing with professionals. This is what was formidable, this is the complicity to which we arrived with the actors. ”

Then, in the French title (of the book and the film) there is a verbal movement that escapes the title given in Portuguese. There is the reticence, and before that, that past participle, “ayant égorgé”, all indicating that the sticking of the family is only the beginning of a mental process that will exist even in the interrogations, in the automemorial, in the escape through the forest. Pierre Rivière, out of the real life of the 19th century, converted into a book by a philosopher of the insocial, is one of the great characters of cinema in the 20th century. And the actuality of his gesture is more and more frightening, in this portico of the 21st century, as seen in international criminal news.

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