PROFISSÃO : REPÓRTER – Um Filmaço de Antonioni com Jack Nicholson

Em 1975, quando eu ainda estava formando meu gosto cinematográfico, o Cine Victória programou o filme do cineasta italiano Michelangelo Antonioni PROFISSÃO : REPÓRTER.

Eu já tinha visto alguns filmes memoráveis do mestre italiano. BLOW UP: DEPOIS DAQUELE BEIJO era para mim uma obra fascinante. Já ZABRIESKE POINT não tinha me tomado de emoção, apesar da cena da explosão da casa no final seja realmente prodigiosa.

Fui disposto a ver outro Antonioni de alto nível. Vale lembrar que na época, as revistas de cinema eram raras e não tínhamos o IMDB ou o MRQE para ler as críticas dos filmes no exterior.

O filme me causou uma forte impressão que segue intacta até hoje.

Jack Nicholson vive Locke um frustrado correspondente de guerra assume a identidade de um contrabandista de armas que ele encontra morto. Maria Schneider (jovem e linda, recém saída da obra prima de Bertolucci, O ÚLTIMO TANGO EM PARIS) faz a personagem sem nome que acompanha os perigos em que Locke se envolve no deserto do Sahara.

Tudo é perfeito em PROFISSÃO : REPÓRTER. Antonioni estava no auge de sua genialidade. O filme tem uma beleza ímpar. A cena final com um movimento de câmera que dura sete minutos é antológica. Um prodígio do Fotógrafo Luciano Tovoli.

O roteiro do filme, escrito por Marc Peploe (autor da história original) e Antonioni tem diálogos inacreditáveis. Apenas para citar um deles:

“The Girl: Não é engraçado como as coisas acontecem? Todas as coisas que fazemos. Não seria terrível ser cego?
David Locke: Eu conheço um homem que era cego. Quando ele tinha quase 40 anos, ele foi operado e recuperou a visão.
The Girl: Como foi?
David Locke: No começo ele estava exultante … muito para cima. Rostos … cores … paisagens. Mas então tudo começou a mudar. O mundo era muito mais pobre do que ele imaginava. Ninguém nunca disse a ele quanta sujeira havia. Quanta feiura. Ele percebeu a feiura em todos os lugares. Quando ele era cego … ele costumava atravessar a rua sozinho com um pedaço de pau. Depois que ele recuperou a visão … ele ficou com medo. Ele começou a viver na escuridão. Ele nunca saiu de seu quarto. Depois de três anos, ele se matou.”

A crítica Manohla Dargis, do New York Times, escreveu sobre o filme:

“Se “O Passageiro” tem as chaves para abrir Locke, é melhor deixar para cada visualizador. Parte do que fez o trabalho de Antonioni parecer tão radical é sua ambigüidade e a recusa do diretor em nos fornecer sinais claros. Quando “L’Avventura” estreou no Festival de Cannes, essa ambigüidade provocou vaias e um prêmio especial; sua ambigüidade encantou, enfureceu, entediou e confundiu o público e ajudou a libertar o filme de uma das convenções mais apreciadas do cinema narrativo clássico, especificamente que temos que saber exatamente o que acontece quando uma história termina (e por quê). Se essa abordagem não parece mais radical, considere o último filme que você assistiu, especificamente o último filme americano, com uma conclusão em aberto que manteve o filme rodando em sua cabeça por muito tempo depois que os créditos finais rolaram.

Em “L’Avventura”, dois personagens percorrem incontáveis ​​quilômetros no que se revela uma busca inútil. Mas quando o filme termina abruptamente, parece que eles não se moveram um centímetro. Em “O Passageiro”, Locke cobre ainda mais terreno e basicamente termina sua jornada trancado em uma sala que parece uma prisão e trancado em um self do qual nunca consegue escapar. Quando “L’Avventura” foi lançado, havia uma sensação de que o que quer que a história significasse, havia algo distintamente novo no ar, algo novo no cinema. Hoje em dia, a anomia flutuante daquele filme parece bastante irrelevante perto da maneira como Antonioni lança uma moldura ao redor do mundo de forma que pareça tão estranho quanto um planeta distante. E, como também é verdade em “O Passageiro”, o que parece mais importante agora é que poucos cineastas revelaram tanta beleza dentro de um fotograma de filme.”

Antonioni foi um gênio do cinema. Eu saí do cinema apaixonado por sua obra.

In 1975, when I was still forming my cinematographic taste, Cine Vitória programmed the film by Italian filmmaker Michelangelo Antonioni, THE PASSENGER.

I had already seen some memorable films by the Italian master. BLOW UP, it was a fascinating work for me. ZABRIESKE POINT, on the other hand, had not touched me deeply, although the scene of the house explosion at the end is really prodigious.

I was willing to see another high-level Antonioni. It is worth remembering that, at the time, cinema magazines were rare and we did not have IMDB or MRQE to read film reviews abroad.

The film made a strong impression on me that remains intact today.

Jack Nicholson plays Locke, a frustrated war correspondent who assumes the identity of an arms smuggler whom he finds dead. Maria Schneider (young and beautiful, fresh from Bertolucci’s masterpiece, THE LAST TANGO IN PARIS) plays the nameless character who follows the dangers in which Locke is involved in the Sahara desert.

Everything is perfect in THE PASSENGER. Antonioni was at the height of his genius. The film has a unique beauty. The final scene with a seven-minute camera movement is anthological. A prodigy by Photographer Luciano Tovoli.

The script for the film, written by Marc Peploe (author of the original story) and Antonioni has unbelievable dialogues. Just to name one of them:

The Girl: Isn’t it funny how things happen? All the shapes we make. Wouldn’t it be terrible to be blind?
David Locke: I know a man who was blind. When he was nearly 40 years old, he had an operation and regained his sight.
The Girl: How was it like?
David Locke: At first he was elated… really high. Faces… colors… landscapes. But then everything began to change. The world was much poorer than he imagined. No one had ever told him how much dirt there was. How much ugliness. He noticed ugliness everywhere. When he was blind… he used to cross the street alone with a stick. After he regained his sight… he became afraid. He began to live in darkness. He never left his room. After three years he killed himself.

The New York Times critic Manohla Dargis wrote about the film:

“Whether “The Passenger” affords the keys with which to open Locke is best left to each viewer. Part of what made Mr. Antonioni’s work seem so radical is its ambiguity and the director’s refusal to furnish us clear signposts. When “L’Avventura” had its premiere at the Cannes Film Festival, that ambiguity provoked both catcalls and a special prize; its ambiguity delighted, enraged, bored and confused audiences and helped liberate film from one of the cherished conventions of classic narrative cinema, specifically that we have to know exactly what happens when a story ends (and why). If that approach no longer seems radical, then consider the last film you watched, specifically the last American film, with an open-ended conclusion that kept the movie playing in your head long after the final credits rolled.

In “L’Avventura,” two characters cover countless miles in what turns out to be a futile search. But when the film abruptly ends, it feels as if they haven’t budged an inch. In “The Passenger,” Locke covers even more ground and basically ends his journey locked in a room that looks like a prison and locked in a self he never manages to escape. When “L’Avventura” was released there was a sense that whatever the story meant there was something distinctly new in the air, something new in cinema. These days, that film’s free-floating anomie seems fairly beside the point next to the way Mr. Antonioni throws a frame around the world so that it looks as alien as a distant planet. And, as is also true of “The Passenger,” what seems to matter most now is that few filmmakers have revealed so much beauty inside a film frame.”

Antonioni was a film genius. I left the movie theater in love with his cinema.

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.