A GUERRA NÃO ACABOU; A GUERRA NA MEMÓRIA ÉTNICA

O CONVIDADO DE HOJE DO CINEMARCO É MEU AMIGO ERON DUARTE FAGUNDES.

Denis Villeneuve é um diretor canadense de 53 anos. Seu filme Incêndios (Incendies; 2010) é uma de suas narrativas mais complexas na sua estrutura formal, buscando relações temporais e étnicas que aprofundam a natureza das personagens e as relações das personagens entre si; usando de imagens cinematográficas de rara expressividade (a fotografia de André Turpin, com seus enquadramentos, cores e movimentos, é um dos trunfos da realização), Villeneuve não abdica, todavia, dos tons pesados e violentos com que ele tem exercitado sua mão em filmes, produzindo algo tão fascinante quanto difuso em Incêndios, tão plástico quanto duro em seu olhar para seu tema, as obscuras guerras no Oriente Médio, especificamente no Líbano.

Quando vi o filme nos cinemas há dez anos, confesso que ele não me atraiu. Os jogos de tempos usados por Villeneuve me pareceram mais confusos que hipnóticos. Lendo as notas de meu amigo Marco Antonio Bezerra Campos em seu blog, ao deparar com o filme na internet, fui buscá-lo: Marco endossava com seu entusiasmo, sempre precioso em suas observações, minha revisão. Passada uma década, o reencontro com Incêndios me provoca outra sensação: seus jogos de tempo me hipnotizam mesmo em seu perambular cinematográfico impreciso, divagante. E a mão pesada de Villeneuve faz algum sentido para o universo que ele filma, torpe e impiedoso. No seu vaivém entre o passado e o presente, apesar da inusitada complexidade, Villeneuve está longe de ser um Alain Resnais. Mas, pensando em alguns de seus trabalhos mais recentes (caberia também rever para reavaliar), como Sicário, terra de ninguém (2015) e Blade Runner 2049 (2017), este uma visita a um mundo outrora filmado por Ridley Scott, Villeneuve avançou bastante para a busca da densidade dentro duma ação cinematográfica de proposta mais comercial. Villeneuve vem por aí com uma nova adaptação do romance Duna, um mundo que quase decapitou o cinema do genial cineasta americano David Lynch nos anos 80. Na contramão de algumas coisas que pulam aos olhos no cinema de Villeneuve, Incêndios é uma obra de meditação, desde sua construção plástica até sua torturada visão de mundo para personagens cujo passado (existencial, étnico) está em cenários e vivências distantes daqueles de sua atualidade.

Incêndios começa de maneira aparentemente simples. Numa das cenas iniciais, um movimento lateral da câmara surpreende um homem de pé junto a uma estante onde depois um plano próximo mostrará um arquivo de documentos; o fim do movimento lateral é um estacionar da câmara na ponta do corredor que dá para a estante, a câmara fica a uma certa distância do homem mas é possível vê-lo parado, de olhos fechados, como cochilando. Depois de alguns segundos desta imagem, a câmara corta para a conversa do homem (um notário) com um jovem casal (de irmãos, logo sabemos), o homem à mesa lê para eles o testamento da mãe recém-falecida. A partir deste testamento, os irmãos vão ao Líbano, atrás do outro irmão, referido pela mãe, e na viagem a descoberta das agruras da mãe, que na prisão foi estuprada e ali engravidara deles, os irmãos que agora ouvem o testamento e seguem viagem. Incêndios surpreende: por suas ousadias formais e temáticas; e surpreende-me também porque, há dez anos, sua inquietante forma de expressão cinematográfica, me passou ao largo. Nada como acompanhar as aventuras fílmicas de amigos como Marco e estar disposto a recuperar o que, talvez, num mau dia (ou noite) meu azedume não soube ver. Incêndios é um filme bastante acima da média e abre créditos para que eu possa repensar minhas relações com o cinema de Villeneuve.

CINEMARCO’S GUEST TODAY IS MY FRIEND ERON DUARTE FAGUNDES.

Denis Villeneuve is a 53-year-old Canadian director. His film Incendies (2010) is one of his most complex narratives in its formal structure, seeking temporal and ethnic relationships that deepen the nature of the characters and the relationships between the characters among themselves; using cinematographic images of rare expressiveness (André Turpin‘s photography, with its framing, colors and movements, is one of the achievements of the film), Villeneuve does not, however, abdicate the heavy and violent tones with which he has exercised his hand in films , producing something as fascinating as it is diffused in INCENDIES, as plastic and hard in its look at its subject, the dark wars in the Middle East, specifically in Lebanon.

When I saw the movie in theaters ten years ago, I confess that it didn’t appeal to me. The time games used by Villeneuve seemed to me more confusing than hypnotic. Reading the notes of my friend Marco Antonio Bezerra Campos on his blog, when I came across the film on the internet, I went to look for it: Marco endorsed my review with his enthusiasm, always precious in his observations. A decade later, the reunion with INCENDIES gives me another feeling: their time games hypnotize me even in their imprecise, rambling cinematic wandering. And Villeneuve’s heavy hand makes some sense for the universe he films, clumsy and merciless. In his swing between past and present, despite the unusual complexity, Villeneuve is far from being an Alain Resnais. But, thinking about some of his more recent works (it would also be necessary to review to reassess), such as SICARIO (2015) and Blade Runner 2049 (2017), this one a visit to a world formerly filmed by Ridley Scott, Villeneuve went a long way towards the search for density within a cinematographic action with a more commercial proposal. Villeneuve comes around with a new adaptation of the novel Dune, a world that almost decapitated the cinema of the genius American filmmaker David Lynch in the 80s. Incendios is a work of meditation, from its plastic construction to its tortured view of the world for characters whose past (existential, ethnic) is in scenarios and experiences far from those of its present time.

INCENDIES starts off apparently simple. In one of the opening scenes, a lateral movement of the camera surprises a man standing at a shelf where later a close shot will show a file of documents; the end of the lateral movement is a parking of the camera at the end of the corridor that leads to the bookcase, the camera is at a certain distance from the man but it is possible to see him standing still, eyes closed, as if in a nap. After a few seconds of this image, the camera cuts to the man’s conversation (a notary) with a young couple (of siblings, we soon know), the man at the table reads to them the will of the recently deceased mother. From this will, the brothers go to Lebanon, after the other brother, referred to by the mother, and on the journey to discover the plight of their mother, who was raped in prison and became pregnant there, the brothers who now hear the will and continue their journey . INCENDIES surprises: for its formal and thematic boldness; and it also surprises me because, ten years ago, its disquieting form of cinematographic expression passed me by. There’s nothing like following the filmic adventures of friends like Marco and being willing to recover what, perhaps, on a bad day (or night) my bitterness could not see. INCENDIES is a film well above the average and opens credits so that I can rethink my relationship with the cinema of Villeneuve.

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