OS URRROS DE CASANOVA ENTRE OS URROS DE FELLINI

O CONVIDADO DE HOJE DO CINEMARCO É MEU AMIGO E CINÉFILO ERON DUARTE FAGUNDES.

APORTE AO ESCRITO: Um dia destes, ao ler a frase inicial duma bela crônica de Juremir Machado da Silva “Memória líquida” (Correio do Povo, 04.02.2019), pensei numa cena de Casanova de Fellini, aquela em que a personagem, o escritor Giacomo Casanova, recita seus poemas escritos na velhice para algumas mulheres jovens, que riem dele. A frase de Juremir: “Quando foi que passamos a ter vergonha da poesia e a rir dos poetas?”. É a indagação que abre a crônica “Memória líquida”, a qual traz um poema cujo terceto inicial assim diz: “Entre as minhas alegrias / Uma das últimas iguarias / Está olhar a chuva.” É uma bela crônica, um belo poema. Me remetem a um belo filme. A última vez em que vi Casanova de Fellini foi em 2004, seu relançamento nos cinemas brasileiros; o que segue são algumas anotações em torno do filme de Fellini.

Casanova de Fellini (Il Casanova di Federico Fellini; 1976) tem atravessado as décadas estabelecendo discussões contraditórias entre os cinemaníacos. O cineasta espanhol Luis Buñuel confessou, em seu livro de memórias, que saiu da sala muito antes do fim da projeção. Buñuel não está sozinho: pode-se dizer que para muitos espectadores, alguns até fellinianos apaixonados, a versão cinematográfica do realizador italiano Federico Fellini para as memórias do escritor e conquistador sexual veneziano Giacomo Casanova são enfadonhas e beiram o ridículo. Na verdade esta realização iniciava uma fase meio complicada da relação de Fellini com seus analistas; depois da perfeição poética de Amarcord (1973), Fellini nunca mais foi o mesmo e deixou o trem de sua fantasia descarrilar. Casanova de Fellini é este estranho ponto de inflexão: o exagero e a demência tomam inteiramente conta do universo retratado, impedindo uma aproximação mais consequente àquilo que o cineasta quer expor.

Mesmo assim, para o felliniano nato, a narrativa apresenta exuberâncias barrocas, enlevantes. Inquestionavelmente, uma sensibilidade apropriada à Fellini permite que se assista em êxtase a muitas cenas da trajetória de Casanova na ótica grotesca e satírica do diretor peninsular. A abertura da fita já se revela extremamente rica em suas formas e cores: a festa de Vênus na Veneza natal da personagem-título. Fellini transforma o cotidiano repetitivamente sexual de Casanova num circo cinematográfico criativo, cheio de achados; sua sátira impiedosa aos urros animalescos do aventureiro quando copula topa nos urros de linguagem de Fellini um correspondente notável. Talvez as características agudamente sombrias e uma constante fragmentação dos episódios façam com que Casanova de Fellini adquira conceitos experimentais de cinema dos anos 70, o que explicaria o incômodo provocado na maioria dos assistentes diante de sua visão.

O filme de Fellini é um repertório de sensações diversas. O ridículo duma competição sexual a que se submete Casanova é tragicômico, ou ridículo mesmo, e só é salva a sequência pela intensidade visual de Fellini. A cena em que Casanova dança com uma boneca, depois vindo a transar com ela, tem uma beleza poética equiparável aos melhores momentos de toda a sua filmografia. Aquele pássaro fálico estranho que aparece seguidamente espiando os desempenhos eróticos da personagem é um achado narrativo e plástico.

O que fica evidente em Casanova de Fellini é a genialidade de formas e aparições do cineasta para expor os conflitos de um homem que gostaria de ser reverenciado por sua inteligência e no mundanismo em que vive é solicitado em seu lado animal (Fellini filma os sexos quase sem ternura, à exceção da cena da boneca, salientando sempre os urros de forma propositadamente ridícula). A velhice da personagem vai acentuar o problema: falido sexualmente, ao declamar seus poemas para um grupo de mulheres (que antes o aplaudiam e procuravam pelo sexo) elas riem dele.

O ator norte-americano Donald Sutherland tem talvez a mais característica interpretação de sua carreira; a voz que lhe empresta o italiano Luigi Proietti parece completamente sua, imagem e som casam-se na criação duma personagem extraordinária, lado a lado com as mais belas invenções de Fellini. Injustamente colocado como um passo em falso do cineasta, Casanova de Fellini é um notável feito da fantasia felliniana, com uma pintura de época muito própria e aqueles mares de plástico que se enovelam oniricamente na mente do observador. Acresce ainda que as cópias que relançaram em 2004 o filme no país são muito boas, contrastando com aquelas cópias feias e foscas que circularam por aqui ao cabo da década de 70 do século passado.

TODAY’S CINEMARCO’S GUEST IS MY FRIEND AND CINEPHILE ERON DUARTE FAGUNDES.

SUPPORT TO THE WRITING: One of these days, while reading the opening sentence of a beautiful chronicle by Juremir Machado da SilvaLiquid Memory” (Correio do Povo, 02.04.2019), I thought of a scene from Fellini’s Casanova, the one in which the character, the writer Giacomo Casanova, recites his poems written in his old age to some young women, who laugh at him. Juremir’s phrase: “When did we become ashamed of poetry and laugh at poets?”. It is the question that opens the chronicle “Liquid memory”, which brings a poem whose initial triplet says: “Among my joys / One of the last delicacies / Is looking at the rain.” It’s a beautiful chronicle, a beautiful poem. They remind me of a beautiful movie. The last time I saw Fellini’s Casanova  was in 2004, its re-release in Brazilian cinemas; what follows are some notes around Fellini’s film.

FELLINI’S CASANOVA(Il Casanova di Federico Fellini; 1976) has crossed the decades establishing contradictory discussions among cinematics. Spanish filmmaker Luis Buñuel confessed, in his memoir, that he left the room long before the end of the projection. Buñuel is not alone: ​​it can be said that for many viewers, some even passionate Fellinians, Italian filmmaker Federico Fellini‘s film version of the memoirs of Venetian writer and sexual conqueror Giacomo Casanova is boring and verging on ridicule. In fact, this achievement began a somewhat complicated phase in Fellini’s relationship with his analysts; after the poetic perfection of Amarcord (1973), Fellini was never the same again and let the train of his fantasy derail. Fellini’s Casanova is this strange inflection point: exaggeration and dementia take over entirely the portrayed universe, preventing a more consequential approach to what the filmmaker wants to expose.

Even so, for the native Fellinian, the narrative presents baroque exuberances, uplifting. Unquestionably, a sensitivity appropriate to Fellini allows one to watch in ecstasy many scenes of Casanova’s trajectory in the grotesque and satirical optics of the peninsular director. The opening of the tape already reveals itself extremely rich in its shapes and colors: the feast of Venus in the birthplace of Venice of the title character. Fellini transforms Casanova’s repetitively sexual daily life into a creative cinematic circus, full of findings; his ruthless satire of the adventurer’s animalistic roars when copulation finds in Fellini’s roars of language a notable correspondent. Perhaps the sharply somber characteristics and constant fragmentation of the episodes make Fellini’s Casanova acquire experimental concepts of cinema from the 70s, which would explain the discomfort caused in most viewers by his vision.

Fellini’s film is a repertoire of different sensations. The ridicule of a sexual competition that Casanova undergoes is tragicomic, or even ridiculous, and the sequence is only saved by the visual intensity of Fellini. The scene in which Casanova dances with a doll, later having sex with her, has a poetic beauty comparable to the best moments of her entire filmography. That strange phallic bird that appears again and again spying on the character’s erotic performances is a narrative and plastic find.

What is evident in Fellini’s Casanova is the genius of forms and appearances of the filmmaker to expose the conflicts of a man who would like to be revered for his intelligence and the worldliness in which he lives is requested in its animal side (Fellini films the sexes almost without tenderness, with the exception of the doll scene, always stressing the howls in a purposefully ridiculous way). The character’s old age will accentuate the problem: sexually bankrupt, when he recites his poems to a group of women (who used to applaud him and look for sex) they laugh at him.

American actor Donald Sutherland has perhaps the most characteristic interpretation of his career; the voice that the Italian Luigi Proietti lends him seems completely his, image and sound marry in the creation of an extraordinary character, side by side with the most beautiful inventions of Fellini. Wrongly placed as a filmmaker’s misstep, Fellini’s Casanova is a remarkable feat of Fellini fantasy, with a period painting all its own and those plastic seas that twist dreamily in the viewer’s mind. Furthermore, the copies that re-released the film in the Brazil in 2004 are very good, with dealing with those ugly and matte copies that circulated here at the end of the 70s of the last century.

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