RELIGIÃO E ARTE NO CINEMA DE SCHRADER

O CONVIDADO DE HOJE DO CINEMARCO É MEU AMIGO ERON DUARTE FAGUNDES.

Na epígrafe de seu clássico ensaio O cinema transcendental em filme (1972), o cineasta e crítico norte-americano Paul Schrader introduz-nos no pensamento do obscuro antropólogo holandês Gerardus Van Der Leeuw, citando esta frase-ideia: “Religião e arte são linhas paralelas que se interseccionam somente no infinito, e encontram-se em Deus.”

Schrader é um calvinista e um artista; ele acredita na arte e em Deus e talvez veja a arte um pouco pelo prisma do pensador neerlandês, a arte como uma manifestação da divindade, ainda que somente no ponto final isto se revele. Cuido que, passadas tantas décadas em que Schrader faz cinema, é agora no frontispício do século XXI, que podemos vê-lo em seu auge, fazendo coisas que são mais que velhos pastiches, de simpática beleza, de seu principal mestre, o francês Robert Bresson.

Fé corrompida (First reformed; 2017), exibido somente no streaming digital e que ficou à margem dos cinemas daqui, é uma das vertentes mais depuradas e agudas da forma de filmar de Schrader. Talvez o único filme dele que faça sombra a seja A ressurreição de Adam (2008).

A origem imediata de Fé corrompida é Diário de um padre (1950), de Bresson. Como neste antigo filme francês, em Fé corrompida o olhar do observador é coordenado, dentro das pudicas e severas imagens de Schrader, plenas de estaticidade, rigor formal, intensidade plástica e iluminação espiritual, pelas passagens mostradas e faladas do diário de um cura de aldeia; como em Bresson, o padre de Schrader tem uma doença grave, um câncer no estômago, e vemo-lo, o padre Toller, personagem central de , em planos em que parece urinar sangue e gemer.

Como artista do espírito, Schrader vai navegar também em outros mares, rompendo um pouco com as amarras bressonianas comercializadas constrangedoramente em Gigolô americano (1980). Um destes mares é o cinema do sueco Ingmar Bergman, outro iluminador cinematográfico da alma.

O filme de Bergman do qual se aproxima é Luz de inverno (1962), onde o pastor Tomas mantém ambíguas relações com uma fiel da igreja, Marta; em Fé corrompida o padre Toller cruza suas ambiguidades éticas, religiosas, sexuais com duas mulheres, a paroquiana Mary e a auxiliar de missa Esther. Mary tem um marido fanático ambientalista que se desespera tanto que vem a suicidar-se: a imagem de seu cadáver ensanguentado, deparado pelo padre, é forte.

Após a morte do homem, as relações entre Toller e Mary se agudizam; no fim eles se beijam e planam como numa fantasia religiosa. Esther é ascética; seu ponto alto é cantar no púlpito. Toller encarna todo o sofrimento dos homens; e, em certo momento, fugindo da homilia da missa, onde o esperam, se castiga, lanhando seu corpo, até a produção abundante de marcas de sangue, com cordas de arame.

Como em Gritos e sussurros (1972), de Bergman, o sofrimento visa a purificar e salvar; Bergman é mais agnóstico. Em há um relógio que tiquetaqueia, como em Gritos; o rigor plástico é reconstruído em Schrader, sem propriamente plagiar. Como em Sonata de outono (1978), outro Bergman, certos planos mostram a concentração da personagem num compartimento, mais distante da posição da câmara, dentro do cenário. Schrader enfeixa com rara grandeza todas as suas referências cinematográficas, em Fé corrompida.

O elenco de Fé corrompida é curioso. Ethan Hawke, Amanda Seyfried e Victoria Hill são compostos hieraticamente. O ator cômico negro americano Cedric the Entertainer, como um religioso, é mais solto. Schrader, no alto de sua maturidade, une o modelo interpretativo, as cores na imagem, a disposição dos cenários e o rigor despojado de seus quadros para produzir, em Fé corrompida, um pequeno êxtase místico convertido em arte.

TODAY’S GUEST OF CINEMARCO IS MY FRIEND ERON DUARTE FAGUNDES.

In the epigraph of his classic essay Transcendental cinema in film (1972), the American filmmaker and critic Paul Schrader introduces us to the thought of the obscure Dutch anthropologist Gerardus Van Der Leeuw, citing this phrase-idea: “Religion and art are parallel lines that intersect only in infinity, and meet in God.”

Schrader is a Calvinist and an artist; he believes in art and in God and perhaps sees art a bit through the prism of the Dutch thinker, art as a manifestation of divinity, even if only at the final point does this reveal itself. I take care that, after so many decades in which Schrader has been making cinema, it is now at the frontispiece of the 21st century that we can see him at his peak, making things that are more than old pastiches, of sympathetic beauty, of his main master, the Frenchman Robert Bresson.

First reformed (2017), shown only on digital streaming and which was left out of cinemas here, is one of the most refined and acute aspects of the of filming from Schrader. Perhaps the only film of his that shadows Faith is The Resurrection of Adam (2008).

The immediate origin of FIRST REFORMED is DIARY OF A COUNTRY PRIEST (1950), by Bresson. As in this old French film, in FIRST REFORMED the viewer’s gaze is coordinated, within Schrader’s prudish and severe images, full of staticity, formal rigor, plastic intensity and spiritual illumination, by the shown and spoken passages. from the diary of a village curate; as in Bresson, Schrader’s priest has a serious illness, a stomach cancer, and we see him, Father Toller, the central character of Faith, in shots in which he seems to urinate blood and moan.

As an artist of the spirit, Schrader will also sail in other seas, breaking a little with the Bressonian moorings embarrassingly commercialized in American Gigolo (1980). One of these seas is the cinema of the Swedish Ingmar Bergman, another cinematographic illuminator of the soul.

Bergman’s film that FIRST REFORMED approaches is Winter Light (1962), where Pastor Tomas maintains ambiguous relationships with a member of the church, Marta; in FIRST REFORMED Father Toller crosses his ethical, religious, and sexual ambiguities with two women, parishioner Mary and Mass assistant Esther. Mary has a fanatical environmentalist husband who is so desperate that he commits suicide: the image of his bloodied corpse, encountered by the priest, is strong.

After the man’s death, relations between Toller and Mary sharpen; in the end they kiss and glide like a religious fantasy. Esther is ascetic; her high point is singing in the pulpit. Toller embodies all the suffering of men; and, at a certain moment, running away from the homily of the mass, where they are waiting for him, he punishes himself, slashing his body, until the abundant production of blood marks, with wire ropes.

As in Bergman’s Cries and Whispers(1972), suffering aims to purify and save; Bergman is more agnostic. In FIRST REFORMED there is a ticking clock, as in Screams; plastic rigor is reconstructed in Schrader, without actually plagiarizing. As in Autumn Sonata (1978), another Bergman, certain shots show the character’s concentration in a compartment, further away from the camera’s position, within the set. Schrader bundles all his cinematic references with rare grandeur into FIRST REFORMED.

The cast of FIRST REFORMED is curious. Ethan Hawke, Amanda Seyfried and Victoria Hill are composed hieratically. Black American comic actor Cedric the Entertainer, as a religious, is looser. Schrader, at the height of his maturity, combines the interpretive model, the colors in the image, the arrangement of the scenarios and the stripped rigor of his paintings to produce, in FIRST REFORMED, a small mystical ecstasy converted into art. .

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