MORTE NO NILO: Agatha Christie, Poirot, Branagh e Tela Grande São Tudo de Bom

Duas notas obrigatórias antes de entrar no meu comentário do filme MORTE NO NILO, de Kenneth Branagh, que vi ontem no GNC Moinhos.

A primeira é que, depois de 3 anos de pandemia, vendo filmes em casa (em telas e equipamentos 4K, com som perfeito), MORTE NO NILO foi o quinto filme que vejo em um cinema. Como o filme se presta a tanto, a história é de Agatha Christie (uma escritora que remete à minha adolescência e inúmeras memórias afetivas), percebi ontem que inquestionavelmente ir ao cinema ainda é “a melhor diversão”, como dizia aquele anúncio que virou clássico. Fiquei deslumbrado com a grandiosidade e beleza das cenas que o diretor Branagh colocou nas telas. Das pirâmides do Egito, à Esfinge, à entrada em cena de Gal Gadot (a moça é tão linda que corre o risco de ficar prisioneira de sua própria beleza), o filme é extasiante. Nada se compara a ver um filme no cinema. Óbvio e simples assim.

SPOILER ALERT: Há anos atrás havia um anúncio comercial de tv (era do novo vídeo cassete VHS da Semp Toshiba) em que pessoas aguardavam na fila do cinema para entrar na próxima sessão e sai de dentro da sala um menino gordinho cantarolando a frase “a mocinha morre no final”. Muitos decepcionados com aquele spoiler (na época esta palavra ainda não existia) iniciam um movimento de ir embora. Alguns resistem à ideia e ficam firmas na fila. O menino passa outra vez, agora entoando a frase “quem matou foi o marido”. Lembrei desta história ontem vendo o filme cujo final eu já sabia há décadas.

MORTE NO NILO foi o primeiro dos 60 livros de Agatha Christie que eu li na minha juventude. Fui um consumidor voraz da literatura da Velha Dama. Em um natal dos anos 70 ganhei o livro MORTE NO NILO dos meus pais. Devorei em dois ou três dias de leitura frenética. Agatha havia me conquistado com seu Detetive belga de cabeça redonda e bigode cuidado. Hercule Poirot passou a ser um amigo comum na minha vida, tantas histórias dele eu li.

A trama traz uma das mais famosas histórias de Agatha Christie. Já deve ter sido levada às telas uma dúzia de vezes. Mas a produção caprichadíssima deste versão de Branagh, os cenários grandiosos e belíssimos do Egito (as locações foram em Aswan, Luxor e na Cidade do Cairo), o elenco multi nacional e multi racial numeroso e talentoso (me lembrou aqueles filmes desastre em que o cartaz trazia as fotinhos dos artistas famosos do filme), tudo levou para um entretenimento de alto gabarito.

Aí entrou o talento de Kenneth Branagh. Por que refilmar pela enésima vez esta história? Porque, certamente sendo um fã de Agatha Christie, o criativo cineasta irlandês quis dar seu acréscimo pessoal à história. O prólogo sobre a origem de Poirot é cem por cento Branagh. Assim como o epílogo do filme, ao ritmo do blues. O leitor Branagh deve ter imaginado aquelas cenas muitos anos atrás quando, como eu, lia os livros da dupla Poirot/Christie.

Este toque pessoal é um dos muitos achados do filme.

Os temas atualizados da literatura da Velha Dama Inglesa, tais como, a luta de classes, o desejo de ascensão social, a ganância, a maldade, a falsidade, são brilhantemente atualizados por Branagh. Na idade do Instagram, o filme parece mais atual do que nunca, contando a tragédia da rica herdeira Linnet Ridgeway e seu casamento com o arrivista Simon Doyle. Linnet chega a verbalizar para Poirot: “Quando você é tão rica, seu único amigo confiável é o dinheiro.” Assustador.

Kenneth Branagh (perfeito como um Poirot mais humano e cheio de falhas), Gal Gadot, Annette Bening, Tom Bateman, Russell Brand, Letitia Whright, Sophie Okonedo, Emma Mackey (uma ótima Jacqueline de Bellefort), Armie Hammer (frio como Simon Doyle, ainda mais depois das acusações feitas a ele pelo movimento Me Too), Rose Leslie (GAME OF THRONES e THE GOOD FIGHT), Jennifer Saunders, Dawn French compõem um elenco impressionante.

Por fim saliento que a formação Shakespeariana de Kenneth Branagh ajuda muito em tudo o que ele faz. Não à toa foi o melhor Kurt Wallander (personagem imortal de Henning Mankell) de todos. É candidato também a ser o melhor Hercule Poirot de todos (olha que a concorrência de Albert Finney, Peter Ustinov e David Suchet é pesada). Tomara que ele siga adaptando os livros de Agatha Christie para o cinema.

Para completar, fiz ontem uma coisa que não fazia há décadas. Comprei um pacote de Balas Azedinhas para degustar durante o filme. Outra memória afetiva cinematográfica eterna.

Como eu não iria sair feliz do cinema?

Two obligatory notes before getting into my review of the movie DEATH ON THE NILE, by Kenneth Branagh, which I saw yesterday at GNC Moinhos.

The first is that, after 3 years of a pandemic, watching movies at home (on 4K screens and equipment, with perfect sound), DEATH ON THE NILE was the fifth movie I see in a movie theatre. As the film lends itself to so much, the story is by Agatha Christie (a writer who refers to my adolescence and countless affective memories), I realised yesterday that unquestionably going to the movies is still “the best fun”, as that ad that became a classic said. . I was blown away by the grandeur and beauty of the scenes that director Branagh put on screen. From the pyramids of Egypt, to the Sphinx, to Gal Gadot’s entrance on the scene (the girl is so beautiful that she runs the risk of being a prisoner of her own beauty), the film is ecstatic. Nothing compares to seeing a movie at the cinema. Obvious and simple like that.

SPOILER ALERT: Years ago there was a TV commercial (it was for Semp Toshiba’s new VHS video cassette) where people were waiting in line at the cinema to get into the next session and a chubby boy comes out of the room humming the phrase “the lady dies in the end”. Many disappointed with that spoiler (at the time this word did not exist) start a movement to leave. Some resist the idea and stand in line. The boy passes by again, this time chanting the phrase “the one who killed it was the husband”. I remembered this story yesterday watching the movie whose ending I already knew for decades.

DEATH ON THE NILE was the first of all sixty Agatha Christie books that I read in my youth. I was a voracious consumer of Old Lady literature. One Christmas in the 70’s I received as a gift the book DEATH ON THE NILE, from my parents. I devoured it in two or three days of frantic reading. Agatha had won me over with her round-headed, moustached Belgian Detective. Hercule Poirot became a common friend in my life, so many stories of him I read.

The plot features one of Agatha Christie’s most famous stories. It must have been brought to the screen a dozen times. But the exquisite production of this version of Branagh, the grandiosity and beautiful sets of Egypt (the locations were in Aswan, Luxor and Cairo City), the multi-national and multi-racial, numerous and talented cast (it reminded me of those disaster films in which the poster featured small photos of the film’s famous artists), it all led to top-notch entertainment.

That’s where Kenneth Branagh’s talent came in. Why remake this story for the umpteenth time? Because, certainly being an Agatha Christie fan, the creative Irish filmmaker wanted to add his own personal twist to the story. The prologue on Poirot’s origin is one hundred percent Branagh. Just like the epilogue of the movie with the blues note. Reader Branagh must have imagined those scenes many years ago when, like me, he read the Poirot/Christie books.

This personal touch is one of the film’s many achievements.

Updated themes of Old English Lady literature, such as the class struggle, the desire for social advancement, greed, evil, falsehood, are brilliantly updated by Branagh. At the age of Instagram, the film feels more current than ever, recounting the tragedy of wealthy heiress Linnet Ridgeway and her marriage to ascending Simon Doyle. Linnet even verbalizes to Poirot, “When you’re so rich, your only reliable friend is money.” Scary.

Kenneth Branagh (perfect as a more human and flawed Poirot), Gal Gadot, Annette Bening, Tom Bateman, Russell Brand, Letitia Whright, Sophie Okonedo, Emma Mackey (a great Jacqueline de Bellefort), Armie Hammer (cold like Simon Doyle, even more so after the accusations made against him by the Me Too movement), Rose Leslie (GAME OF THRONES and THE GOOD FIGHT), Jennifer Saunders, Dawn French make up an impressive cast.

Finally, I would like to point out that Kenneth Branagh’s Shakespearean background helps a lot in everything he does. No wonder he was the best Kurt Wallander (Henning Mankell’s immortal character) of all. He is also a candidate to be the best Hercule Poirot of all (the competition from Albert Finney, Peter Ustinov and David Suchet is heavy). I hope he continues to adapt Agatha Christie’s books for the movies.

To top it off, yesterday I did something I hadn’t done in decades. I bought a pack of “Azedinhas” Candies to taste during the movie. Another eternal cinematic affective memory.

How could I not leave the cinema very happy?

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