O USO DO TEMPO CINEMATOGRÁFICO POR HSIAO-HSIEN

O CONVIDADO DE HOJE DO CINEMARCO É MEU AMIGO E CINÉFILO ERON DUARTE FAGUNDES.

Apesar de ganhar prêmios internacionais desde os anos 80, o realizador taiwanês, nascido na China, Hou Hsiao-Hsien tardou em ser conhecido por aqui; por suas exigências estéticas, seu cinema frequenta basicamente sessões alternativas ou alguma ousadia das salas de grande plateia. Um tempo para viver, um tempo para morrer (Tong nien wang shi; 1985), exibido em Porto Alegre na Cinemateca Capitólio, uma empreitada resistente à massificação comercial do cinema, é um dos trabalhos antigos do cineasta, talvez o primeiro a chamar a atenção no Ocidente. O desconhecimento por décadas de um grande diretor oriental, no Ocidente, não é novo: um dos mestres de Hsiao-Hsien, o japonês Yasujiro Ozu, foi descoberto entre os ocidentais muitos anos após a morte do diretor nipônico, graças aos estudos e citações de gente como o americano Paul Schrader e o alemão Wim Wenders.

Em Um tempo para viver, um tempo para morrer Hsiao-Hsien faz a recapitulação cinematográfica de episódios de sua própria infância; o próprio título original chinês diz: os anos de infância. Como ocorreu com o mundo familiar de Hsiao-Hsien, a família da pequena personagem central do filme, Ah-ha, sai do continente, fugindo da guerra civil, e desembarca na ilha de Taiwan, em busca de melhores condições de vida. Como se deu em outras obras-primas de Hsiao-Hsien (Três tempos, 2005; A assassina, 2015), a forma adquirida pelo tempo cinematográfico é um achado desde as primeiras imagens e a imposição de uma montagem despojada, rigorosa, sob medida, como as cordas de um relógio feito de imagens em movimento. O espectador que aguce sua sensibilidade, educando-se pelo novo método de filmar e montar um filme trazido pelo cineasta, poderá sentir, em sua epiderme espiritual, o próprio vagar do tempo, os acontecimentos que se encadeiam para dar a formação da alma da criatura de ficção, Ah-ha.

Nas primeiras imagens a voz-over da personagem principal, já adulta, relata as primeiras lembranças: a mudança radical da família, saindo da China para Taiwan, as difíceis adaptações, a resistência pela convivência familiar, o cotidiano transfigurado sempre pela arte de Hsiao-Hsien. As imagens que se alinham com estas palavras de introdução inicial são de uma extrema simplicidade, simplicidade que vizinha com a profundidade de filmar. A voz-over, depois, praticamente desaparece do filme; o que passamos exclusivamente a ver é a vida em suas ebulições.

Ah-ha cresce. O tempo corre e escorre. Diante dos olhos de Ah-ha. E em seu espírito. A mãe áspera que lhe bate. A avó que vai pelas ruas à procura do neto chamando-o pelo nome. O pai quieto, estudioso que um dia morre de súbito de um ataque silencioso ao corpo, sentado em sua cadeira. A mãe desesperada, agarrando-se ao cadáver do pai, sem acreditar no que vê, clamando histericamente o nome do homem morto. De repente, no silêncio do velório, a mãe, abandonando seu quietismo sombrio mostrado pela câmara em toda a tristeza, grita apavorada, de novo, o nome do falecido, reiterando os gestos da hora em que descobriu a morte. Então a câmara, numa montagem inopinada e perplexa, depara com a face estranha, inquieta, arrepiada do menino, Ah-ha. Muito do tempo cinematográfico tal qual o vemos no cinema de Hsiao-Hsien pode ser visto nestas cenas, e em várias outras, ao longo do filme. É assim que se dá o particular fascínio de um filme como Um tempo para viver, um tempo para morrer, título este que lhe foi dado internacionalmente por sua versão em inglês, remetendo ao conceito do Eclesiastes, um dos mais belos textos do mundo, sobre os ciclos que enovelam o tempo. Os anos de infância de Ah-ha trazem a vida que pulsa, certo, mas também a morte que assusta.

Despite winning international awards since the 1980s, Chinese-born Taiwanese director Hou Hsiao-Hsien took some time to become known here; because of its aesthetic requirements, his cinema basically attends alternative sessions or some boldness in large audiences. A time to live, a time to die (Tong nien wang shi; 1985), shown in Porto Alegre at Cinemateca Capitólio, an undertaking resistant to the commercial massification of cinema, is one of the filmmaker’s early works, perhaps the first to draw attention in the West. The lack of knowledge for decades of a great oriental director in the West is not new: one of Hsiao-Hsien’s masters, the Japanese Yasujiro Ozu, was discovered among westerners many years after the death of the Japanese director, thanks to studies and quotations from people like the American Paul Schrader and the German Wim Wenders.

In A Time to Live, A Time to Die Hsiao-Hsien does a cinematic recap of episodes from his own childhood; the original Chinese title itself says: the childhood years. As with the familiar world of Hsiao-Hsien, the family of the film’s little central character, Ah-ha, leaves the mainland, fleeing the civil war, and lands on the island of Taiwan, in search of better living conditions. As in other masterpieces by Hsiao-Hsien (Três Tempos, 2005; An Assassin, 2015), the form acquired by cinematographic time is a finding since the first images and the imposition of a stripped, rigorous, tailored montage, like the strings of a clock made of moving images. The spectator who sharpens his sensitivity, educating himself by the new method of filming and editing a film brought by the filmmaker, will be able to feel, in his spiritual epidermis, the very wandering of time, the events that are linked to give the formation of the soul of the creature. of fiction, Ah-ha.

In the first images, the voice-over of the main character, now an adult, recounts the first memories: the radical change of the family, leaving China for Taiwan, the difficult adaptations, the resistance for family life, the daily life always transfigured by the art of Hsiao- Hsien. The images that align with these opening words are of an extreme simplicity, simplicity that borders with the depth of filming. The voice-over then practically disappears from the film; what we exclusively come to see is life in its effervescence.

Ah-ha grows. Time runs and runs. Before Ah-ha’s eyes. And in his spirit. The rough mother who beats him. The grandmother who goes through the streets looking for her grandson calling him by name. The quiet, studious father who one day suddenly dies from a silent attack on the body, sitting in his chair. The desperate mother, clinging to her father’s corpse, not believing what she sees, hysterically crying out the dead man’s name.

Suddenly, in the silence of the wake, the mother, abandoning her gloomy quietism shown by the camera in all sadness, screams, terrified, again, the name of the deceased, reiterating the gestures of the hour when she discovered death. Then the camera, in an unexpected and perplexed montage, comes across the strange, restless, shivering face of the boy, Ah-ha. Much of the cinematic time as we see it in Hsiao-Hsien’s cinema can be seen in these scenes, and in several others, throughout the film.

This is how the particular fascination of a film like A time to live, a time to die, a title given to it internationally by its English version, referring to the concept of Ecclesiastes, one of the most beautiful texts in the world, about the cycles that wind time. Ah-ha’s childhood years bring life that pulses, right, but also death that frightens.

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