Finalmente ontem vi AQUARIUS, de Kleber Mendonca Filho. Desde que li sobre o que era o filme, tive muita curiosidade em vê-lo, o que não foi diminuído ou aumentado pela manifestação da equipe em Cannes e a polêmica que se seguiu.

A história de uma jornalista que resiste as tentativas e pressões de uma construtora em adquirir seu apartamento no Edifício Aquarius, na Praia de Boa Viagem, em Recife e todas as reminiscências e consequências emocionais desta decisão renderam um filme muito interessante de se ver.

Há dois grandes méritos indiscutíveis no filme de Kleber Mendonca Filho: o primeiro é que ele foi feito com extremo capricho e competência técnica, em todos os aspectos cinematográficos que se possa considerar.

A narrativa flui maravilhosamente bem. A edição e montagem são primorosas. A trilha sonora é antológica. A fotografia é belíssima. O elenco trabalha em nível de excelência, a iniciar por uma interpretação de primeira linha de Sonia Braga. Tudo funciona de forma perfeita.

O segundo aspecto altamente meritório é a coragem da abordagem dos temas e cenas que o filme pretende. AQUARIUS não utiliza meias palavras ou cenas maquiadas ou disfarçadas. O que o filme pretende mostrar, mostra. No atual cenário do cinema brasileiro, se trata quase de uma exceção.

No lado negativo, há um discurso politico sociológico raso tão antigo e grosseiro que me pareceu ofensivo a inteligência do espectador. Ficou completamente desconforme com um filme feito com tanta sensibilidade quanto as memorias afetivas da personagem central.

Quem estuda “business” é desumano; quem dirige empresas grandes descumpre leis; quem quer fazer empreendimentos imobiliários sempre utiliza esquemas ilegais. Estas simplificações desmerecem a inteligência dos realizadores e afastam os espectadores do filme.

Lamentavelmente, acho que o filme AQUARIUS, neste aspecto, tratou seus espectadores exatamente como a Construtora tratou a personagem Clara.

 

Finally yesterday I saw AQUARIUS, by Kleber Mendonca Filho. Since reading about what was the movie, I was very curious to see it, which it was not decreased or increased by manifestation of the team in Cannes and the controversy that followed.

The story of a journalist who resists attempts and pressures of a construction company to acquire her apartment in Aquarius, on Boa Viagem beach in Recife and all reminiscences and emotional consequences of this decision yielded a very interesting movie to watch.

There are two great indisputable merits in the Kleber Mendonça Filho film: the first is that it was done with extreme whim and expertise in all aspects of film that can be considered.

The narrative flows beautifully. The editing and assembly are exquisite. The soundtrack is anthological. The picture is beautiful. The cast works at the level of excellence, start by an interpretation of the first line of Sonia Braga. Everything works perfectly.

The second highly meritorious aspect is the courage of the themes and scenes that the film approach aims. AQUARIUS no use mincing words or masked or disguised scenes. What the movie tries to show, show. In the current scenario of Brazilian cinema, it is almost an exception.

On the downside, there is a sociological political discourse pamphleteer so old and rough that seemed offensive intelligence of the viewer. It went completely awry with a film made with such sensitivity and the emotional memories of the central character.

Who studies “business” is inhumane; who drives big business violates laws; who want to do real estate always use illegal schemes. This type of simplifications detract intelligence of filmmakers and viewers away from the film.

Unfortunately, I think AQUARIUS film, in this respect, treated its viewers exactly how Construtora treated the Clara character.