RETRATO DE UMA JOVEM EM CHAMAS: “Todos os amantes sentem que estão inventando alguma coisa?”

Acho que há muito tempo não via um filme tão maravilhoso quanto RETRATO DE UMA JOVEM EM CHAMAS, terceiro longa metragem da cineasta francesa (e ativista da causa da igualdade de gênero)  Celine Sciamma. Esta jovem de 32 anos, que já foi casada com a linda atriz protagonista de seu filme, a também francesa Adèle Haenel e que saiu do auditório na entrega do 45o. César Awards quando Roman Polanski foi premiado, fez um filme nada menos que encantador.

A jovem pintora retratista Marianne (excepcional trabalho da atriz Noémi Merlant) chega a uma ilha onde tem a missão de pintar o quadro da filha rebelde de um rica aristocrata (Valeria Golino). O quadro seria enviado a Milão como presente ao rico noivo de Heloise (Adèle Haenel, maravilhosa). A dificuldade é que a moça rejeita posar para o quadro e já expulsou vários pintores. Sua raiva decorre do fato de que sua irmã, noiva anterior do lorde milanês havia morrido caindo de um penhasco no que se suspeita fosse um suicídio.

Marianne então se faz passar por uma dama de companhia para Heloise e as duas começam a andar juntas, todas as tardes pela ilha. Marianne a observa detidamente e, à noite, secretamente vai pintando o retrato.

O que vem a seguir é um trama cinematográfica impressionante, onde carinho, afeto, amor, desejo e sexo vão surgindo e crescendo como em uma sinfonia clássica poderosa. As cenas do filme são plasticamente belíssimas, verdadeiras pinturas, embora a fotografia de Claire Maton seja efetivamente minimalista.

O filme de Celine Sciamma, embora passado no final do século 18, tem uma atualidade e uma universalidade impressionantes. Liberté, egalité, fraternité, lema da Revolução Francesa que viria é vivido com toda força na história das duas mulheres. O que dizer da cena do jogo de cartas entre três pessoas absolutamente iguais: a rica herdeira, a pintora trabalhadora e a criada? Que cena espetacular.

O roteiro, escrito pela própria diretora Sciamma (ela é roteirista profissional de vários cineastas franceses de primeira linha) tem diálogos sublimes.

“Marianne: Eu pensei que você estivesse assustada.

Héloïse: Você estava certa. Estou assustada. Todos os amantes sentem que estão inventando alguma coisa? Eu conheço os gestos. Eu imaginei tudo, esperando por você.

Marianne: Você sonhou comigo?

Héloïse: Não. Pensei em você.”

“Héloïse: Sinto algo novo.

Marianne: O que?

Héloïse: Arrependimento.

Marianne: Não se arrependa. Lembre. Vou me lembrar de quando você dormiu na cozinha.

Héloïse: Lembrarei do seu olhar sombrio quando eu ganhei de você nas cartas.

Marianne: Vou me lembrar da primeira vez que você riu.

Héloïse: Você demorou para ser engraçada.

Marianne: Isso é verdade. Eu perdi tempo.

Héloïse: Também perdi tempo. Vou me lembrar da primeira vez que quis beijar você.

Marianne: Quando foi isso?

Héloïse: Você não percebeu?

Marianne: No banquete em volta da fogueira.

Héloïse: Eu queria sim. Mas essa não foi a primeira vez.

Marianne: Diga-me.

Héloïse: Não, você me diz.

Marianne: Quando você perguntou se eu conhecia o amor. Eu poderia dizer que a resposta foi sim. E que era agora.

Héloïse: Eu lembro.”

O espectador fica sem fôlego o tempo todo, seja pelas frases do roteiro, seja pela beleza indescritível de cada cena. A cena em volta da fogueira em que as mulheres locais cantam “fugere non possum” (“fugir não podemos”) é sublime.

Mas nada se compara à cena final do filme, certamente uma das mais belas do cinema. O rosto de Héloïse ao som de “Summer” de “As Quatro Estações”, de Vivaldi. Nada menos que eterno e inesquecível.

I don’t think I saw a film as wonderful as PORTRAIT OF A LADY ON FIRE, the third feature film by French filmmaker (and gender equality activist) Celine Sciamma. This 32-year-old girl, who has already been married to the beautiful leading actress in her film, also Frenchwoman Adèle Haenel, and who left the auditorium on the 45th. Caesar Awards when Roman Polanski was awarded, made a film nothing short of hipnotic.

Young portrait painter Marianne (exceptional work by actress Noémi Merlant) arrives on an island where she has the mission of painting the picture of the rebellious daughter of a wealthy aristocrat (Valeria Golino). The painting would be sent to Milan as a gift to Heloise’s rich fiancé. The difficulty is that the girl refuses to pose for the painting and has already expelled several painters. Her anger stems from the fact that his sister, the previous fiancé of the Milanese lord, had died falling off a cliff in what is suspected to be suicide.

Marianne then poses as a chaperone to Heloise (Adèle Haenel, wonderful) and the two begin to walk together, every afternoon on the island. Marianne watches her closely and, at night, secretly paints the portrait.

What comes next is an impressive cinematic plot, where affection, passion, love, desire and sex appear and grow as in a powerful classical symphony. The scenes in the film are plastically beautiful, true paintings, although Claire Maton’s photography is effectively minimalist.

Celine Sciamma’s film, although set in the late 18th century, has an impressive timeliness and universality. Liberté, egalité, fraternité, the motto of the French Revolution that was to come is lived with full force in the history of the two women. What about the card game scene between three absolutely identical people: the rich heiress, the working painter and the maid? What a spectacular scene.

The script, written by director Sciamma herself (she is a professional screenwriter for several top French filmmakers) has sublime dialogues.

Marianne: I thought you had been scared off. 

Héloïse: You were right. I am scared. Do all lovers feel they’re inventing something? I know the gestures. I imagined it all, waiting for you. 

Marianne: You dreamt of me? 

Héloïse: No. I thought of you.

Héloïse: I feel something new. 

Marianne: What? 

Héloïse: Regret. 

Marianne: Don’t regret. Remember. I’ll remember when you fell asleep in the kitchen. 

Héloïse: I’ll remember your dark look when I beat you at cards. 

Marianne: I’ll remember the first time you laughed. 

Héloïse: You took your time being funny. 

Marianne: That’s true. I wasted time. 

Héloïse: I wasted time too. I’ll remember the first time I wanted to kiss you. 

Marianne: When was that? 

Héloïse: You didn’t notice? 

Marianne: At the feast around the bonfire. 

Héloïse: I wanted to, yes. But that wasn’t the first time. 

Marianne: Tell me. 

Héloïse: No, you tell me. 

Marianne: When you asked if I had known love. I could tell the answer was yes. And that it was now. 

Héloïse: I remember.

The viewer is breathless all the time, either by the phrases of the script, or by the indescribable beauty of each scene. The scene around the campfire where local women sing “fugere non possum” (“we can’t escape”) is sublime.

But nothing compares to the final scene of the film, certainly one of the most beautiful in the cinema. Héloïse’s face to the sound of “Summer” from “The Four Seasons”, by Vivaldi. Nothing short of eternal and unforgettable.

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